Pandemonia (4): Frágeis, demasiadamente frágeis…

BRUEGELTempos difíceis estes de coronavirus, sem dúvida. Mas no meio de tanta incerteza, de tantos temores, vamos nos consolar com a oportunidade que estamos tendo, nós todos, de podermos refletir um pouco sobre nossas vidas, sobre nossa condição, sobre o que será de nós depois que tudo passar (porque vai passar!). No deserto da quarentena, sem dúvida, é possível encontrar algum oásis. Eu, por exemplo, tento fazer isso. Quando nada, ocupo meu tempo e até mesmo, em termos práticos, chego a encontrar algumas possíveis iluminações sobre o modo de vida com o qual chegamos até aqui. Que desconfio talvez se perpetue. Ou, pelo menos, que a vida de agora em diante não será exatamente a mesma do que foi até agora. Mas uma coisa é certa: somos (ou estamos) demasiadamente frágeis…

Nossa fragilidade, para começar, se dá no plano imunológico, na nossa própria biologia. Que vírus é este afinal, que provoca taxas de mortalidade e letalidade diferentes em cada lugar do mundo? Será um produto de laboratório? Será uma artimanha do poder político e econômico para dominar e dobrar os mercados? Ele continuará em mutação permanente, confundindo o nosso sistema imunológico todo o tempo? Conferirá imunidade duradoura? É sazonal ou não respeitará as estações? Ninguém sabe ao certo. O que se vê, concretamente, são as estatísticas de doença e morte crescerem em toda parte.  Não estamos diante de uma “gripezinha” ou de alguma forma de “histeria”. Há um embate entre um vírus, até agora misterioso, e os nossos anticorpos e outros mecanismos protetivos do corpo. E não sabemos ainda quem levará a melhor em tal guerra invisível.

Somos frágeis também quanto ao teor da informação que recebemos. Quem lê os jornais ou frequenta a internet de maneira ponderada e crítica talvez não esteja tão desprotegido assim. Mas aquela “rede de imbecis”, da qual falava Umberto Eco, numerosíssima, por sinal, no Brasil de hoje, está aí não só para se enganar, mas também deturpar e botar a perder qualquer informação mais séria e consequente. E como nos dias que correm a mera opinião vale mais do que os fatos, a fragilidade de leigos perante os rituais da ciência ou de tudo que não se alcança, para não dizer das perorações de pastores, políticos e profetas-fake aponta irremediavelmente para uma tragédia. E haverá sempre “influencers” (o novo nome do charlatanismo) a reforçar o desatino. E do outro lado da linha, todo um rebanho de pessoas se alimentando disso, para formar suas concepções.

Nossa fragilidade, diante da sanha “amazônica” dos políticos e dos falsos profetas, nos transforma em verdadeiros corguinhos de incertezas. Vem um e fala em “gripezinha”. “Histeria”, insiste ele. Outro (ou o mesmo) quer que tudo seja apenas manipulação da imprensa. Outro, ainda, propõe como solução cortar salários durante quatro meses. Mais um nos convoca a orar e quitar o dízimo para espantar o mal. Às vezes até voltam atrás, denunciando o verdadeiro caráter de suas propostas, meros balões de ensaio. Mas mesmo quando tais desvarios não colam, deixam estrago feito, sendo o maior deles a sensação de insegurança (e fragilidade) que instilam no povo. É ato heroico sobreviver a isso.

Sempre estivemos frágeis na nossa dependência da estrutura de saúde oferecida à população deste país. Agora, que Inês agoniza e o leite já está derramado, a indagação de que haverá – ou não – leitos de UTI ou ventiladores mecânicos para todos, fica sendo apenas um dos lados de um poliedro de múltiplas faces. Certamente não se disporá de tais instrumentos, mas o buraco é certamente muito maior, porque mesmo para a mensa maioria que não chegará a precisar desses equipamentos, a desorganização e a insuficiência das portas de entrada do sistema de saúde, associada a uma cultura hospitalista, que afeta não só a população como os políticos e mesmo os profissionais de saúde, dará conta de alimentar a catástrofe que certamente virá.

Ah, e tem ainda um fator chamado de “determinantes sociais”. Se a fragilidade já era grande em relação ao que se apresentou acima, aqui o Amazonas se lança ao mar, numa pororoca das mais destruidoras e trágicas. Curioso se recomendar home-office, afastamento entre pessoas de dois metros e restrição à circulação, para gente que vive aglomerada, dez pessoas em igual numero de metros quadrados, que não tem moradia, e precisa da boa e velha rua para trabalhar. Há que se proteger os velhos, certamente, mas o verdadeiro grupo de risco para a pandemia ainda é pouco citado. O verdadeiro grupo de risco, aliás, de altíssimo risco, é o dos pobres. Ser pobre, nesta altura dos acontecimentos, é muito mais perigoso do que ser velho, diabético, portador de DPOC, canceroso, quimio-tratado ou algo assim.

E tem a cultura, a pobre e frágil cultura, que leva as pessoas comuns e até mesmo profissionais e políticos a duvidarem do alcance da ciência; a menosprezarem as recomendações dos profissionais de saúde; a julgarem que tratamentos adequados só podem ser feitos em hospitais; a acreditarem em drogas milagrosas surgidas da noite para o dia; ; a acreditarem que cultos religiosos os levarão à proteção e até mesmo à cura; a maldizerem o sistema público de saúde, achando que no privado teriam mais sorte; a correrem aos mercados para esvaziar prateleiras, seja de álcool gel, papel higiênico ou pão de forma. E em tais estabelecimentos mais fariam se os falsos profetas que surgem em cada cantinho da internet recomendassem algum produto milagroso ali existente, de catuaba a silicone; de bombril a soda cáustica.

Pois é, meus amigos, tempos realmente difíceis.

Mas vamos escapar, não duvidem…

Enquanto isso, podemos pensar em duas ou três coisas boas que poderão nos acontecer. O fato de podermos refletir sobre nossas vidas, nossos acertos e desatinos, é uma delas. Nisso, quem sabe, novas formas de sociabilidade e de solidariedade poderão surgir, como já vemos exemplos em toda parte. Para cada prateleira esvaziada em supermercado, existe uma cantora lírica em sua varanda, encantando os vizinhos com uma aria da Traviata (libbiamo, libbiamo!), ou um grupo de adolescentes deixando bilhetes aos velhinhos de seu prédio, lembrando que podem contar com eles. Bons exemplos como estes se repetem numa taxa de multiplicação de fazer inveja a qualquer vírus.

Mas entre as bonanças possíveis, não podemos esquecer de mais uma: esta pandemia tem o potencial de  ajudar a nós brasileiros de de nos  livrarmos do enorme agente patógeno que assola o país, representado pela família de Jair Messias, seus auxiliares, seus asseclas e apaniguados. Eu acredito nisso!

***

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s