Que cidade era aquela, a si mesmo indagava Otávio. Como ele chegara até ali? Pensava: o que vive na memória não perece, assim como os sonhos. Para ele, entretanto, tudo ali era surpresa e portal de um mundo ainda não visto, embora aos poucos se abrisse alguma brecha. Mas de início, pelo menos, ele não fora capaz de perceber por onde andava e nem porque estava ali. Vagamente, alguns minutos antes, ele se sentira sonolento, mas de nada mais se dava conta
A vida é como um fado: descer para onde não se sabe, para subir de outro lado, havia uma trilha musical no ar. E já que vou subir, pensava ele, aproveitarei para observar o que lá de cima minha visão alcançasse.
De fato, naquele lugar alto havia um bosque de casuarinas e eucaliptos, um grande colégio ou casa de saúde dominando a cena. De lá se via o longe e o perto. Velhas casas, velhas ruas, quintais grandes e pequenos, de grandes frondes. À frente a grande serra, dominante, como uma cordilheira a encurralar a cidade, que lhe pareceu familiar, abrangendo em seus braços, agora, um gigantesco paliteiro de edifícios. Bonito aquilo? Otávio não saberia dizer, até aquela hora, pelo menos.
Resolveu descer por uma das ladeiras que vertiam morro abaixo as pessoas, os carros e talvez fortes enxurradas, quando fosse o tempo delas. Uma vaga lembrança lhe trouxe aquela via como um antigo caminho da perdição, depois apenas passagem de estudantes e comerciários, para a lida brava na grande cidade ali aos pés. Lá em baixo, a Praça já não era do povo e sim dos carros, já nem se via como logradouro, envolvida em um emaranhado de concreto e viadutos. O velho bairro operário, entretanto, tinha agora marcas de modernidade e até de alguma pujança material. Um velho mercado popular, que ele reconhecia agora, escuro e sujo em sua época, tinha sido reformado e transformado em lugar iluminado e fresco, embora pouca gente por ali se aventurasse, pelo que se percebia.
Ele resolveu prosseguir morro abaixo e já totalmente na planura do vale prosseguia. A memória despertara de vez. O velho Barro Preto de sua infância estava logo adiante e valeria a pena revê-lo. Nele, agora, parece que se fabricava roupa para o mundo, sendo tudo luz, cor, vitrines e fashion, em profusão. Velhas oficinas mecânicas, de antanho, se travestiram de cinema, shopping, teatro, restaurantes, igrejas de crentes. A primeira delas, a dos católicos, com suas duas torres majestosas ainda estava lá. Menos mal, pensou ele, que tinha simpatias pelo catolicismo romano.
Parecia ser um fim de semana, de forma que ruas tranquilas e arborizadas ainda permitiam vislumbrar um restinho da cidade de décadas anteriores, dos tempos antigos, através das variadas camadas arquitetônicas que os modismos foram depositando sobre a cidade.
Viu ali o antigo grupo escolar, cujos bancos tinha lustrado com a bunda, que fazia um belo conjunto com o antigo e primordial Ginásio do Estado, depois Colégio Militar, sede agora de um prédio da Justiça, caído naquele pedaço neoclássico com a sutileza de mil toneladas de concreto. Mas não valeria a pena maldizer, pensou ele, não faria outra coisa nessa cidade, que cada vez mais reconhecia ter sido sua um dia, embora sufocada agora pelos contrastes e injunções da cupidez imobiliária.
E seguiu em frente o caminhante, tomando uma via lateral, que não mais lhe parecia tão instável, quase flutuante, como fora um dia, com seu pavimento irregular, assentado sobre um brejo, quem sabe aquele que um dia designou o bairro. Mais adiante para os lados da atual Assembleia, perfeito arrabalde em seu tempo, a cidade mostrava agora sua face moderna, agora quase escandalosa.
Procurando bem ainda lhe era possível dar conta de um ou outro daqueles belos casarões (alguns nem tanto) da burguesia do bairro, agora batizado por outro nome, sempre moderno, diferente daquele que veio primeiro. Todos virados em escritórios agora. Salvaram-se as velhas ruas arborizadas, devidamente maculadas pelos letreiros comerciais. Uma dessas, uma avenida na verdade, com suas aleias ainda íntegras, a estirar-se por colinas suaves, cenário de especial predileção do caminhante em outros tempos. Ali ele pressentia a visão de um boulevard verdadeiro, confirmada depois que descobriu o significado de tal palavra no dicionário. Eram cenas que ainda lhe encantavam, como parte deste canto da cidade, que restava como algo sofisticado e cosmopolita, apesar de tudo.
Vista dali, mais uma vez, a cordilheira encurralante se impunha, um tanto banguela, porém sem perder a majestade.
Pelo tal boulevard, subindo e descendo as colinas, Otávio chegou ao grande Parque Central, o verdadeiro coração desta cidade. Ali, para ele, toda perda, toda delapidação, toda decadência lhe pareciam terem passado longe, sem que ele pudesse dizer se isso duraria. O Parque não, o Parque continuava o mesmo, pelo menos naquele momento de sua passagem por ali.
Pelas bordas do Parque Central se dispunha, como em outro tempo, a grande avenida Norte-Sul, nomeada Fulano de Tal. Caberia subi-la agora, até a antiga Praça do Cruzeiro, não seria preciso ir mais acima para ver o resto que interessava ao caminhante neste périplo. Ali, no sopé da cordilheira, junto às araucárias da velha caixa d’água, mirando o horizonte do poente, com as suaves colinas ao fundo, agora emparedadas, era hora de confirmar com os olhos, mas principalmente com o coração, que nenhuma outra cidade poderia ser tão bela para Otávio, o caminhante passageiro, como esta que ainda lhe habitava e enflorescia a memória, que ele visitava como em num sonho.
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