Se bem me lembro (I): Infância

Amarcord é um filme de Federico Fellini, realizado em 1973 cujo título se refere à expressão m’ arcord (eu me lembro), no dialeto romagnolo, ou seja, da região italiana da Emilia-Romagna, de onde o cineasta é originário. Segundo o próprio Fellini, a obra não seria necessariamente autobiográfica, embora tenha reconhecido semelhanças com a sua própria infância na cidade de Rimini. Na bela língua italiana, “amarcord” significa ‘io mi recordo’ ed è usato per indicare una rievocazione nostalgica del passato, ou ainda um ricordo, ma trasmette anche la nostalgia e la malinconia legate alla rievocazione di momenti passati. Mas o que isso tem a ver comigo? Muita coisa! Eu venho de tentar compor um autêntico Amarcord íntimo, ao dar à luz, quatro anos atrás, às minhas memorias, intituladas Vaga, Lembrança (disponíveis em Vaga, lembrança (Memórias) – Vereda Saúde). Hoje tal publicação está fisicamente esgotada, não por excesso de leitores, mas porque foi produzida em pequena escala e distribuída diretamente a parentes e amigos. Sua edição em meio virtual não abriu portas para seu desempenho como best-seller. Assim é que inicio aqui uma série que revê as tais memórias mediante uma outra escala, em parte cronológica, em parte formada por marcos simbólicos existenciais, numerada sequencialmente e iniciada com o presente texto. Minha intenção inicial era de nomear esta série como Amarcord: 1, 2, 3 etc. mas achei melhor me expressar em português mesmo, no qual a expressão ‘Se bem me lembro’ me parece perfeita, almejando que este “se” afaste algum caráter taxativo ou categórico no que escrevo. Sem esquecer também de que nostalgia ed malinconia não são sentimentos apenas de um Fellini, mas meus também. Me acompanhem, por favor, leitores! 

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Urbe et Orbi

Que cidade era aquela, a si mesmo indagava Otávio. Como ele chegara até ali? Pensava: o que vive na memória não perece, assim como os sonhos. Para ele, entretanto, tudo ali era surpresa e portal de um mundo ainda não visto, embora aos poucos se abrisse alguma brecha. Mas de início, pelo menos, ele não fora capaz de perceber por onde andava e nem porque estava ali. Vagamente, alguns minutos antes, ele se sentira sonolento, mas de nada mais se dava conta

A vida é como um fado: descer para onde não se sabe, para subir de outro lado, havia uma trilha musical no ar. E já que vou subir, pensava ele, aproveitarei para observar o que lá de cima minha visão alcançasse.

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