O Futuro, agora…

O futuro ainda não existe e o passado já se foi, o que nos resta é apenas o presente. Assim disse alguém, mais sábio e filosófico do que eu, mas o fato é que tal entidade, o que ainda está por-vir, tem marcado sua presença comigo por esses dias, me fazendo acreditar que talvez o melhor para nós, seres humanos, seja ficarmos mais atentos a ele.

Tudo começou quando lia uma obra que me chegou às mãos, por acaso, da qual deixarei o nome em suspenso, por enquanto. Trata-se de um livro escrito ainda nos primeiros anos do século vinte, começando a contar uma história que se encaixava dentro de outra. O narrador sofrera um acidente de estrada, é recolhido a uma mansão rural, ali conhece um cientista e sua filha, por quem acaba se apaixonando, assim tomando contato com uma máquina de observar o futuro, chamada um tanto poeticamente de porviroscópio, inventada pelo tal cientista para produzir tempo artificial, segundo seu criador.

O inventor, temeroso de que tal instrumento pudesse favorecer espíritos desonestos, vivia recolhido com sua filha no anonimato de uma propriedade rural, onde se dedica a fazer perscrutações futurológicas ou, como a moça preferia nomear, cortes anatômicos no futuro.

Em um destes cortes surgiram revelações espantosas, por exemplo, sobre a futura invenção de uma tecnologia chamada rádio comunicação, que permitiria às pessoas trabalharem em casa, ler seus jornais sem precisar ir à banca da esquina, fazer compras igualmente sentados em suas cadeiras. Nesta nova era, o trabalho, o teatro, o concerto é que passariam vir ao encontro do homem, com espantosa transformação das condições do mundo.

E a viagem continuava. Além da rádio comunicação, seriam inventados também o rádio transporte e a rádio sensação, criando, assim, uma nova etapa na trajetória do ser humano, um tanto desnorteante para as ideias da época, fazendo com os acontecimentos tomarem, às vezes, rumo muito diverso do que ditaria a lógica, numa descrição que me pareceu perfeita do que hoje é conhecido como realidade virtual.

Aquela narrativa era extraordinária. Falava, por exemplo, das consequências do tal rádio transporte para as tarefas do jornalismo e da escrita em geral, ao permitir que alguém escrevesse em casa ao invés de fazê-lo em alguma redação ou escritório, fazendo com que seu trabalho aparecesse instantaneamente em alguma tela remota, para fins de ajustes e edição, para depois disso ganhar o mundo, em imagens inumeráveis.

Ponhamos exclamações nisso, pois um único “!” seria certamente muito pouco para homenagear um gênio como o de tal autor, que viu tudo isso há mais de cem anos.

E vai por aí a fora, desencadeando verdadeira reforma do trabalho humano e talvez da própria natureza da história. E ele vai além, em tal brincadeira, a imaginar a instituição do que ele chama de férias conjugais, para resolver de vez o problema dos casamentos malsucedidos; a criação da cidade de Erópolis, de nome tão sugestivo, destinada a práticas hedonistas; o teatro onírico, aparelho através do qual os sonhos das pessoas seriam transformados em imagens.

Naquele livro, o futuro parece brilhante e com várias evidências de confirmação já nos dias de hoje, lembrando que foi escrito há cerca de 100 anos. Logo se verá, entretanto, que nem tudo no futuro seria perfeito, por exemplo, o conserto de algumas mazelas sociais através de práticas de eugenia. O porviroscópio, além disso, detectara a eleição de um presidente negro no país mais rico do mundo, cedendo, apenas na aparência, o poder a um indivíduo diferente. Aos poucos, porém, se demonstra que havia na verdade uma armadilha de fundo eugênico, preparada habilidosamente, pela maioria branca conservadora e supremacista, que tinha apenas entregue alguns anéis, porém sem perder qualquer dedo.

Eu achei tal narrativa impactante, pelo seu caráter premonitório, uma profecia que se cumpria não apenas pela eleição de Obama, mas pela capacidade dos supremacistas brancos imporem sua força nos EUA. Contudo, meu entusiasmo com o futuro ali anunciado e aparentemente confirmado foi sendo assim substituído por alguma desconfiança e mesmo angústia.

Enfastiado, mas surpreso com tudo aquilo, creio que adormeci, pois eu tinha dormido muito mal na noite anterior. Antes disso tinha acessado no YouTube uma seleção de canções de meu compositor predileto, Leonard Cohen e quando me dei conta, estava imerso em uma atmosfera que já não sei se foi de sonho ou de realidade. Nessa etapa, novas revelações, mais sombrias, me esperavam.

Havia vozes, uma delas, espelhando angústia e sofrimento: Quero de volta minha noite interrompida, meu quarto espelhado, minha vida secreta, estou muito solitário aqui.

Para esta voz, uma resposta intempestiva e autoritária ecoava nos quatro cantos: – Qual é? Não há mais ninguém para ser torturado e eu quero o controle absoluto dos viventes. E você aí, baby, se deite ao meu lado, isso não é um pedido, é uma ordem!

O que era aquilo, meu Deus? Seria um pesadelo? Mas eu parecia estar tão consciente até pouco antes…

Agora havia se instalado uma barafunda de gritos e imprecações. Eu reconhecia vozes masculinas e femininas se alternando, mas não sabia de onde vinham ou o que se escondia por trás de tais gritos, se esgares de dor ou sorrisos de deboche.

– Me dê crack e sexo sujo, arranque esta porcaria de árvore que ainda está de pé e a enterre em algum buraco por aí.  Eu quero de volta o Muro de Berlim, Hiroshima, Pol-Pot, Bolsonaro e Stalin. Pois eu vi o futuro my brother, e ele é assassino, assassino, assassino! Tudo vai rolar, desmoronar, deslizar, em total desgoverno.

– Hahahah, isso é piada, não pode ser nada.

– Nada? É coisa que você não conseguiria medir ou alcançar.

– Nevascas, tempestades, feridas no cu do mundo, ressacas. No mundo inteiro. Eu sei, eu vi. Foi cruzado e derrubado o limiar da ordem das almas, não tem mais volta. Arrependam, se arrependam logo seus cretinos! Pois eu vi o futuro e ele é assassino, assassino, assassino!

– Quer saber quem eu sou? Ah, você não me conhece, seja pelo vento, pelo fogo ou pela água. Nunca me conhecerá, nunca. Eu sou areia e sou cinzas que o vento carrega. Eu escrevi a Bíblia e depois cuspi em cima, fechei o mar depois que Moisés passou. Eu vi nações subirem e caírem. Ouvi muitas histórias, muitas. O bastante para não acreditar em nenhuma delas. Nenhuma. Eu vi o futuro… E olhe bem: o que eu vi foram assassinatos e assassinatos; com os assassinos em estado de glória. Nada mais!

– Mas ainda não restaria o Amor? Um jeito único para a nossa sobrevivência? Vai negar?

– Hahaha, você é escravo de quem? O que quer dizer com essas bobagens? Para dizer claro, para dizer friamente, it’s all over now, baby. Acabou, acabou e acabou. Não existe mais o que um dia foi real e verdadeiro, não existe. Deram um stop no que move o paraíso, as esperanças secaram, a brisa virou tempestade de areia. Preste atenção, é o chicote do diabo que dita o jogo. Preparem-se, você e os demais, para o futuro. Nele só estão presentes os assassinos e seus assassinatos! E tem mais, muito mais!

– Tudo que é antigo não sobreviverá. Seus códigos judaico-cristãos se esvairão pelos esgotos, essas vidas inúteis que vocês insistem em levar vão explodir, explodir, explodir. Sairão fantasmas nojentos de cada porão, incêndios ferozes devastarão florestas, estradas e cidades.

– E de quebra haverá uma dança de homens brancos triunfantes, ao tempo que uma mulher estará pendurada de ponta-cabeça, suas feições cobertas por seu vestido caído. E escritores decrépitos e medíocres que tentarão em vão narrar essas histórias, tentarão voltar a serem lidos, mas apenas para maior escárnio geral.

– Eu vi o futuro, baby, e ele é assassinato, murder! Arrependam-se, infames, arrependam-se. Antes que seja tarde.

Caramba! Lá pelas tantas acordei, ou, pelo menos, me dei conta de ter passado por momentos bem estranhos, ouvindo aquelas vozes cacofônicas. Cohen, ainda no aparelho de som, sussurrava algo romântico, I’m your man, nada a ver com aquele ambiente distópico e com tal rosário de imprecações. Um frio feroz me devastava. Quis descer à cozinha, mas não me atrevia a encarar a simples meia dúzia de degraus da escada. Estive assentado no primeiro deles por um bom tempo. Somente umas duas horas mais tarde, agora com o bom Leonard silenciado, comecei a botar a cabeça no lugar.

Sim deve ter sido um sonho, no qual eu decodificava uma canção do mestre, The Future, de pessimismo aziago e cinzento. Curioso é que meu domínio de inglês não é tão grande, mas eu entenda tudo o que se dizia, embora eu já conhecesse um pouco a letra da canção, de algumas leituras anteriores.

Estava ainda meditando sobre tais acontecimentos, quando a campainha tocou. Era o Severino, o porteiro do prédio, me entregando uma convocação para uma reunião de condomínio, o que me fez estremecer, pois eu já sabia do que se tratava. Um vizinho de garagem há tempos me acusava de ter arranhado seu carro ao manobrar o meu. Era mentira, eu tinha certeza disso, mas o tal sujeito do 215 resolveu pegar pesado comigo, porque em uma de suas investidas eu o mandei a algum lugar que ele não gostou. Por conta disso, eu já tinha sido convocado até a Delegacia do bairro, mas o tira que me atendeu me disse que eu não me preocupasse, que a coisa mais comum ali era briga de vizinhos, que nunca davam em nada. Eu protestei, não havia brigado com ninguém e queria, sim, que aquilo pudesse resultar em alguma coisa, uma repreensão ao encrenqueiro, por exemplo. O policial me disse que isso não seria possível, mas que eu voltasse tranquilo para casa porque o caso ia ser arquivado, com certeza.

Com certeza… Na visão dele, pelo menos.

Pois bem, o porteiro batia em minha porta.  Ele usava uma máscara de carrasco e isso me deixou muito confuso. O papel em sua mão, no qual ele pedia minha assinatura, me mostrava o que eu temia: o síndico me convidava – ou convocava, sei lá – para prestar esclarecimentos relativos às avarias no veículo pertencente ao Sr. Fulano de Tal, residente na Unidade de número 215. E acrescentava: sob pena de se abrir processo judicial.

Acho que eu finalmente entendi certas coisas que eu sonhara ou presenciara nos momentos anteriores. Será que eu tive uma antevisão sobrenatural? Ou eu teria de fato vivido aquilo tudo? E aquele porteiro mascarado, meu Deus? Seja como for, começavam a fazer sentido para mim aquelas passagens que falavam de crimes e outras violências, torturas, tempestades, ressacas, mal-entendidos, sinais de final dos tempos, escravidão, pornografia, sujeiras e maldades sem conta. Sim, as ondas nefastas do amargo futuro a la Cohen refluíam pesadamente sobre a minha porta e eu não tinha como as rechaçar. Nenhum porviroscópio me adiantaria, pois um corte anatômico do futuro desabara agora em minha própria sala de jantar. Apenas abaixei a cabeça e me entreguei ao carrasco fantasiado de Severino Porteiro.

 ***

Prossigo em minha sanha – ou será uma sina? – de ser um literato de segunda mão. Bem que eu quisera ser um daqueles de Primeira… Aqui junto dois autores com alta improbabilidade de andarem juntos: Monteiro Lobato, com seu único romance: O Presidente Negro e Leonard Cohen, com uma de suas canções mais sombrias e depressivas, The Future. Paciência, pertencem ambos ao meu Panteão particular e faço com eles o que quiser.    

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