Pavana para uma Princesa Morta

Ela nos chegou em um dia de abril, quase 10 anos atrás. Veio desconfiada, com o rabinho meio recolhido ao meio das patas, o olhar atento a tudo que ia em volta. A desconfiança durou pouco, entretanto. Quando percebeu a receptividade dos três humanos que a esperavam, um grande, que ela logo percebeu ser o Alfa e dois pequenos, menino e menina, relaxou e se entregou. Encontrando a porta do carro aberta, subiu no banco dianteiro imediatamente, como se ali fosse o lugar dela, desde sempre.

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Mais um que se vai…

Quando vejo as fotos feitas por um fotógrafo itinerante, que atendia pelo curioso nome de Pantaleão Alcaraz, e visitava o Colégio Estadual (e talvez muitas outras escolas também) para documentar as turmas, a cada ano, surpreendo-me com o fato de que apenas me lembro do nome daqueles adolescentes, perfilados junto a suas carteiras escolares, em poses ora circunspectas, ora apalhaçadas. Mas pelo menos de um ou dois desses colegas sempre me lembro, e entre eles Saulo da Matta Viana Barbosa, ou Saleba, que fez comigo a quarta série e mais algum outro ano, qual, exatamente, não me lembro mais. E há uma razão muito simples para tanto: ficamos amigos na ocasião e, mais do que isso, voltamos a nos encontrar em Brasília, muito tempo depois, reatando a velha amizade da juventude. Além disso, éramos relativamente vizinhos, ambos habitando o vasto e emblemático território da Barroca, em BH. Eu na rua Selênio, já na vertente para a Nova Suíça e ele nos altos da Cura D’Ars, próximo à antiga caixa d’água. Isso nos possibilitava voltarmos juntos das aulas, caminhando, apesar da longa distância e em pleno sol de meio dia, bem uns 4 km entre o Santo Antônio, onde ficava o Colégio Estadual e a nossa Barroca. E nem é preciso dizer que naqueles périplos peripatéticos bem que nos esforçamos em resolver os problemas, seja do colégio, da Barroca, da cidade ou mesmo do mundo. Saulo era mais lido do que eu, de modo que eu apreciava, de fato, sua companhia, entre outras razões para me ilustrar. Mas a verdade é que possuíamos forte sintonia um com o outro, daquele tipo que não há como explicar muito.

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Chico e a Revolução dos Cravos

Portugal entrou pra valer em nossa ultimamente. Lula esteve lá, Chico recebeu o prêmio que a horda fascista lhe quis sonegar e a Revolução dos Cravos fez 50 anos. Adoro este país, tanto que nos últimos 10 anos estive lá nada mesmo do que cinco vezes. E quero voltar outras tantas, ora se quero! Aqui mesmo no meu blog já publiquei diversos textos sobre essas minhas viagens (ver link). Sobre Lula e Chico não há muito o que dizer: a imprensa e muitos de nós já disseram tudo. Os direitistas de lá e de cá também, mas não vale a pena ouvir e muito menos valorizar suas perorações, caso para psiquiatras, quando não veterinários. Mas Chico, esta rara unanimidade – à qual me associo – na minha visão cometeu um equívoco décadas atrás, quando resolveu refazer a lindíssima letra de Tanto Mar, para acrescentar uma nota de desgosto com o rumo que a revolução tomara. Disse ele: já murcharam tua festa, pá. Tenho minhas dúvidas se foi realmente assim. A sobredita Revolução dos Cravos foi, na verdade um golpe militar (para o bem) que encerrou a ditadura salazarista. De fato, não só Chico Buarque ficou contente. Nós todos, o que amamos a Democracia, ficamos alegres e esperançosos de que no Brasil houvesse algo igual, sem militares, claro. Aliás, militares, como se sabe, costumam pegar e não largar mais sua presa… Mas pouco tempo depois, o nosso Chico coloca na canção seu sentimento de decepção. Ele se referia à derrota dos comunistas e dos militares de esquerda nas primeiras eleições gerais depois do golpe. ele não gostou de tais mudanças, mas na verdade apenas aconteceu o que é comum e até desejável nas democracias que fazem jus a tal nome: a fila andou e o poder mudou de mãos, fazendo rodízio entre centro, centro-direita e centro-esquerda – e vem sendo assim desde então. Melhor para eles… Chico, um gênio da melodia e das letras, prêmio Camões de 2019, pelo menos neste caso não teve a clarividência necessária a uma boa análise política. Mas ele, que produziu tantas coisas boas na vida, tem créditos de sobra, pode errar um pouquinho, está perdoado…

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Zaire, uma vida que valeu a pena

Nunca deixarei de lembrar, com muito orgulho, o fato de ter feito parte das duas administrações municipais capitaneadas por Zaire Rezende em Uberlândia, ente 1983 e 1988 e depois entre 2001 e 2004, que representaram, para a cidade, o surgimento de um novo modo de operar a gestão municipal, em termos de saúde e de outras políticas públicas, revertendo nestes dois momentos, com maior sucesso no primeiro deles, o modo tradicional desenvolvimentista e especulativo de governar a cidade, como se ela fosse uma capitania hereditária e não um lugar de vida para cidadãos verdadeiros. Eu conheci este sujeito singular através de uma apresentação formal, feita por seu quase primo, ou marido de uma sua prima, José Olympio de Freitas Azevedo que já era meu amigo. Logo pude saber que era médico, como eu, embora mais velho; natural da terra e de família tradicional de Uberlândia; formado no Rio de Janeiro e que passara mais de vinte anos fora da cidade, trabalhando no interior de São Paulo, e que agora voltava, para continuar a clinicar, como gineco-obstetra em um dos hospitais da cidade, onde já tinha amigos e parentes médicos. O que eu não fiquei sabendo naquele momento é que ele tinha aspirações políticas, ainda não totalmente reveladas na ocasião, mas confirmadas para mim algum tempo depois. Zaire nos deixou neste 31 de maio. Foi uma pessoa que me marcou profundamente durante a vida, como chefe, como amigo, como exemplo de cidadão prestante, humanista e responsável – pra dizer pouco. Nas linhas abaixo, eis como eu o deixei registrado em minhas memórias.

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Partiu Antonio Ivo

Conheci Antonio Ivo de Carvalho nos anos 80, bons tempos, éramos jovens. Eu Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia, ele enfrentando barras muito mais pesadas na Baixada Fluminense. Eu tinha lido alguma coisa que ela havia publicado na Saúde em Debate, do CEBES e prontamente identifiquei aquelas ideias com o que eu pensava, embora em ambiente político e intelectual mais restrito do que o Rio … Continuar lendo Partiu Antonio Ivo

Uberlândia não merecia isso…

Não sou natural de Uberlândia, mas residi nesta cidade por quase 15 anos, aí criei meus filhos, fiz muitas amizades, fui Secretário Municipal de Saúde em duas ocasiões, nas administrações de Zaire Rezende. Tenho motivos de sobra para me orgulhar desta cidade, assim como tenho razões agora para comentar o que está acontecendo no campo da saúde local e manifestar, além de minha tristeza, o meu espanto com os fatos atuais. Posso resumir meus sentimentos em uma simples frase: Uberlândia não merecia isso. Com efeito, na cidade das grandes indústrias e do comercio atacadista mais pujante do Brasil, na sede de um polo de convergência ao mesmo tempo geográfico, econômico, rodoviário, educacional, político e mesmo sanitário – uma pergunta não se cala: como foi possível chegar à presente situação de descalabro face à atual pandemia?

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Médico e diabético: um depoimento

Já reparei – e certamente os leitores também – que tem se tornado comum o gesto de se solicitar aos médicos que registrem as maneiras peculiares de como lidam com as doenças quando se tornam pacientes. Não deixa de ser uma coisa arriscada essa de abrir o jogo sobre nossos hábitos saudáveis (ou nem tanto). É sempre possível que nos denunciemos aos pacientes e estes percebam que somos muitas vezes bons para ensinar as pessoas a lidar com seu corpo, mas já nossas práticas pessoais costumam deixar a desejar, como, aliás, todo mundo sabe. Mas deixemos de prolegômenos e vamos lá.

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Para uma amiga que partiu

A nossa Maria Helena partiu. Deixou para mim muitas lembranças. Por exemplo e para começar: a amizade e verdadeira devoção que tive a uma figura verdadeiramente paterna para mim, Dr. José Garcia Brandão, seu pai. E também do que ele me dizia de sua filha, que morava em BH na época em que eu o conheci, anos setenta: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você…

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Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)

Resposta Ao Tempo – Aldir Blanc Batidas na porta da frente é o tempo Eu bebo um pouquinho pra ter argumento Mas fico sem jeito, calado ele ri Ele zomba de quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei Num dia azul de verão sinto vento há folhas no meu coração é o tempo recordo um amor que eu perdi ele ri Diz que … Continuar lendo Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)

Decálogo da Besta

Se este governo der certo, o Brasil dará errado. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, mas não Aquele da Bíblia, mas sim o “DEU$” da Record e dos pastores neopentecostais. Você compraria um carro usado do pai, dos filhos, ou dos vários espíritos que os rodeiam (Queiroz, Negão, Adriano etc.)? Justiça seja feita, ele foi sincero: deu sinais de que faria tudo isso … Continuar lendo Decálogo da Besta