Zaire, uma vida que valeu a pena
Nunca deixarei de lembrar, com muito orgulho, o fato de ter feito parte das duas administrações municipais capitaneadas por Zaire Rezende em Uberlândia, ente 1983 e 1988 e depois entre 2001 e 2004, que representaram, para a cidade, o surgimento de um novo modo de operar a gestão municipal, em termos de saúde e de outras políticas públicas, revertendo nestes dois momentos, com maior sucesso no primeiro deles, o modo tradicional desenvolvimentista e especulativo de governar a cidade, como se ela fosse uma capitania hereditária e não um lugar de vida para cidadãos verdadeiros. Eu conheci este sujeito singular através de uma apresentação formal, feita por seu quase primo, ou marido de uma sua prima, José Olympio de Freitas Azevedo que já era meu amigo. Logo pude saber que era médico, como eu, embora mais velho; natural da terra e de família tradicional de Uberlândia; formado no Rio de Janeiro e que passara mais de vinte anos fora da cidade, trabalhando no interior de São Paulo, e que agora voltava, para continuar a clinicar, como gineco-obstetra em um dos hospitais da cidade, onde já tinha amigos e parentes médicos. O que eu não fiquei sabendo naquele momento é que ele tinha aspirações políticas, ainda não totalmente reveladas na ocasião, mas confirmadas para mim algum tempo depois. Zaire nos deixou neste 31 de maio. Foi uma pessoa que me marcou profundamente durante a vida, como chefe, como amigo, como exemplo de cidadão prestante, humanista e responsável – pra dizer pouco. Nas linhas abaixo, eis como eu o deixei registrado em minhas memórias.
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Este coronavírus (prefiro chamá-lo assim, por um nome que todo mundo conhece), veio para virar o mundo de pernas para o ar. Quem tinha as pernas fora do devido lugar ou, pelo menos, o cérebro em tal condição, como o Presidente da República, parece não ter entendido as coisas direito. Mas não é o meu caso, nem dos distintos leitores deste blog, certamente. Na Itália, o mundo já está virado. Na Suécia e na Coreia do Sul, nem tanto. A esta altura dos acontecimentos, apesar da imprevisibilidade da pandemia, o Brasil ao que tudo indica vai, malgrado nosso, se achegar ao modo italiano e não ao escandinavo ou oriental. E entre tantos prejuízos, seja de vidas, de empregos, de credibilidades, de atividades econômicas, há um que talvez seja o mais dramático: o das escolhas forçosas que as equipes de saúde terão que fazer para decidir quais pacientes receberão as terapias necessárias, como é o caso dos ventiladores mecânicos, entre outras, e quais não terão tal direito, simplesmente porque não haverá equipamentos suficientes para todos. A situação italiana prima pela tragédia, mas pelo menos suscitou a elaboração de recomendações éticas para admissão a tratamentos intensivos, ou sua negativa, nas condições excepcionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis como se vê agora, conforme documento emitido pela Società Italiana di Anestesia Analgesia Rianimazione e Terapia Intensiva (Siaarti). Dramáticas escolhas de Sophia, sem dúvida, que ofereço agora aos meus leitores em tradução amadorística, mas sem dúvida, melhor do que nada. Nada indica que aqui em nossa cidade as coisas sigam de maneira diferente disso…
Tempos difíceis estes de coronavirus, sem dúvida. Mas no meio de tanta incerteza, de tantos temores, vamos nos consolar com a oportunidade que estamos tendo, nós todos, de podermos refletir um pouco sobre nossas vidas, sobre nossa condição, sobre o que será de nós depois que tudo passar (porque vai passar!). No deserto da quarentena, sem dúvida, é possível encontrar algum oásis. Eu, por exemplo, tento fazer isso. Quando nada, ocupo meu tempo e até mesmo, em termos práticos, chego a encontrar algumas possíveis iluminações sobre o modo de vida com o qual chegamos até aqui. Que desconfio talvez se perpetue. Ou, pelo menos, que a vida de agora em diante não será exatamente a mesma do que foi até agora. Mas uma coisa é certa: somos (ou estamos) demasiadamente frágeis…