Coisas entre o Céu e a Terra

Há mais coisas, Horácio, entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia. Hamlet – Shakespeare (Ato I – Cena V)

Logo que viu aquele negro jovem e corpulento, com um tosco cartaz escrito a pincel atômico com seu nome, a esperá-lo na calçada do aeroporto, sentiu de imediato certa empatia pela figura. Em cada movimento seguinte viu confirmada suas impressões, nos votos de boas-vindas, na mala que lhe foi retirada pressurosamente das mãos, na indagação se havia feito boa viagem. Quando entrou no carro havia a sua disposição pastilhas de menta e água mineral, meio quente, mas sempre um agrado, pensou, mas que mais ainda lhe aumentou a simpatia pelo motorista, que o conduziria para uma viagem noite a dentro.

Estava ali para uma visita técnica à prefeitura do município, situado a quase 200 km daquela cidade polo, para onde o avião trouxera. Era bem acostumado com este tipo de viagem e as recepções que lhe faziam costumava ser variadas em termos de qualidade, mas aquela lhe parecia estar entre as mais calorosas que já experimentara.

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Aqui vai mais um conto…

A JANELA INDISCRETA

Eu bem vi que o porteiro tentava me avisar de alguma coisa. Não dei muita atenção, pensei que ele falava dos pivetes que andam por ali. Com estes já estou acostumado, não levam a melhor comigo. Mas dessa vez o perigo era outro, uma calçada escorregadia. E assim eu fui parar no chão. Ato contínuo, no Pronto Socorro.

E agora em casa estou eu, com a tíbia partida, mínimo vinte dias de repouso forçado, me arranjaram até uma cadeira de rodas, para me locomover pela área na qual um simples degrau não se interporia como uma muralha.

Meus pensamentos iniciais foram para James Stewart, o fotógrafo acidentado no filme de Hitchcock, A Janela Indiscreta, que acaba descobrindo um crime, graças à sua observação dos vizinhos. Em sintonia com ele tenho à minha disposição apenas esta janela nos fundos de casa, pois não sou fotógrafo, muito menos profissional. Neste quesito, aliás, tenho apenas a câmera do celular, embora não chegue a dominar todos os recursos que ela me oferece. Ah, sim: me falta também uma boa Grace Kelly. Mas aí seria querer demais.

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Filosofia e Pipocas

Vai aí um novo conto de minha autoria (ou, pelo menos, uma tentativa de fazê-lo)… Começa assim: Eu vendo pipoca na rua, em portas de colégio, de preferência. Não nasci fazendo isso, pelo contrário, estudei, cheguei até o curso médio, fiz concurso para banco e nisso trabalhei alguns anos. Depois os donos, trambiqueiros como eles só, deram um tombo no mercado e eu fiquei desempregado. Eu e mais uns dois mil… Se você gostou desta introdução, siga em frente.

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Um conto (mais um…)

Tenham paciência. Estou aposentado, sem muitas coisa para cuidar. Assim, escrevo uns contos. Aqui vai mais um. Apresento-lhes QUADRILHA MODERNA, inspirado no poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. e vão desculpando a ousadia…

João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

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