Costuma-se dizer por aí que no Cerrado existem duas primaveras anuais. Discordo: acho que é uma só – e que ela dura o ano inteiro. Mas poderia dizê-lo melhor ainda: este negócio de primavera, ou de estações do ano bem demarcadas, é coisa do hemisfério norte. Por aqui, neste complexo lado de baixo do Equador, o que impera é a mistura e a confusão. Acho que isso, como dizia Brecht, nos honraria a todos. Falando sério, penso que a cada mês do ano temos verdadeiros presentes florísticos da natureza a nos confortar e alegrar a vista. Isso falando em termos macroscópicos, porque se descermos ao nível milimétrico provavelmente haverá surpresas a cada semana, ou mesmo a cada simples dia. O máximo que se pode dizer, mesmo assim com ressalvas, é que no segundo semestre existem mais ofertas. Para a presente conversa, vamos considerar não só as plantas naturais daqui como também as exóticas. Não fazer isso significaria deixar de fora os Flamboyants, por exemplo, ou mesmo a Sibipiruna ou a Sapucaia, além de muitas outras, que não são propriamente do Cerrado, mas sim da Mata Atlântica. Ah sim, vamos falar aqui mais especificamente de Brasília do que do Cerrado como um todo. Ok assim?
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Vamos lá, em ordem cronológica.
Em janeiro e parte de fevereiro, egressa do ano anterior, temos a explosão amarela das CANAFÍSTULAS, que alguns também denominam – a meu ver impropriamente – de Cambuís.

Em março e abril, que se abram alas para as PAINEIRAS, ditas também BARRIGUDAS, que colorem a nossa vida de tons variados de rosa e até mesmo de branco, além de nos presentearem com uma espécie de neve formada pelas leves plumas de suas sementes aladas.

Maio e junho as raras paineiras que ainda mantêm sua florada, são substituídas em seu festival de flores pela honrosa companhia dos IPÊS ROXOS, que vêm para durar, no mínimo dois ou três meses.

Entre julho e agosto, aqui e ali ainda de forma tímida, mas preparando uma entrada em cena ampla e gloriosa a seguir, nos chega mais um desses seres exagerados, que em agosto, finalmente, mesmo com a seca inclemente e dias de céu impavidamente azul, que embora ainda seja inverno faz um calor dos diabos, é momento em que o reinado absoluto seja dos IPÊS AMARELOS.

Na virada para setembro o festival é exorbitante: o roxo, em diferentes tons, do cega-machado e do jacarandá-mimoso; a alvura dos ipês correspondentes; a beterraba das sapucaias; o espetáculo dos ipês-rosa; a imitação glamorosa das cerejeiras japonesas realizada pela caipiríssima cagaita.
CEGA-MACHADO

JACARANDÁ-MIMOSO

IPÊ-BRANCO

SAPUCAIA

CAGAITEIRA

IPÊ-ROSA

Outubro é mês de descanso, pelo visto, mas aqui e ali já surgem novos personagens, por exemplo, a florada tímida e delicada das SUCUPIRAS BRANCAS.

Entre outubro e novembro, como nem tudo é autóctone ou endêmico por aqui, que venham as cores quentes dos FLAMBOYANTS, entre o amarelo, o laranja e o vermelho, que aparecem entre outubro e em novembro, sem esquecer da indefectível carga amarela das SIBIPIRUNAS.
SIBIPIRUNA

FLAMBOYANT

E finalmente em dezembro, retomando o ciclo sempre esperado e festejado, é hora de as canafístulas voltarem à cena.
