<<O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda ― as águas levam ― em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; daí o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo.>>
É impossível falar de Buriti sem citar Guimarães Rosa, como neste trecho acima, retirado de Grande Sertão: Veredas. Aí se descreve a maneira como esta palmeira, amiga das águas, espalha suas sementes em cursos d’água, para formar fileiras mais ou menos regulares, as veredas, como se fosse por um cálculo. Para escrever esta minha memória recorrerei apenas às leituras de JGR, não à botânica ou a qualquer literatura técnica, contando sempre com a minha própria visão – ou sua lembrança – de tal maravilhosa palmeira. Basta dizer que ela é conhecida como Mauritia vinífera, produtora de uma bebida que ainda não conheci, mas também de um doce – este sim, meu conhecido íntimo – que tem a proeza de ser doce e azedo ao mesmo tempo, o qual, embora grosseiro na aparência é de fato uma verdadeira iguaria. Aqui em Brasília o Buriti está, ou melhor, já esteve, por toda parte, restando hoje pouca coisa além de alguns icônicos exemplares: aquele da praça de mesmo nome, onde se situa a sede de governo do DF e a “vereda” situada ao lado do Palácio do Itamaraty. Ambos transplantados, diga-se de passagem, porque em tais terrenos não nasceriam espontaneamente. O Buriti é portador de uma série enorme de atributos interessantes. Primeiro, sua distrição geográfica, que alcança talvez a metade ou mais do território brasileiro, do Sudeste à Amazônia, passando por todo Centro-Oeste. Quando saímos de Brasília, por exemplo, vamos encontrá-lo ladeando muitos trechos das estradas em ampla direção, seja ao Norte, a Leste ou a Oeste. Ao Sul, no rumo de MG e RJ, curiosamente, teremos sua companhia até as cercanias de BH, mais exatamente entre Sete Lagoas e Cordisburgo, depois desaparecem por completo. Na direção de SP continuam presentes em todo o Triângulo Mineiro e mesmo depois, por longos trechos nas terras paulistas. Mas tem mais, muito mais. Acompanhe.
Além do vinho e do doce, o Buriti é também madeira, mas não, como se poderia pensar à primeira vista, aquela de seus “troncos” (estipes), que são muito grossos e pesados, não se prestando a uma redução a tábuas. Em compensação, suas folhas são de tal maneira portentosas, que seu eixo de sustentação ou bainhas, chegam a ter mais de 10 cm de diâmetro, por até 3 m de cumprimento, constituindo assim um tipo de madeira rija e leve, utilizada para o fabrico de móveis, cercas, ripas, vigas e outros materiais para construção e mobiliário doméstico. Não bastasse isso, as folhas ainda fornecem finíssima linha (seda) e delicadas redes, utilizadas no dia a dia sertanejo e no artesanato.
O Buriti tem origem amazônica e é também conhecido vulgarmente como carandá-guaçu, itá, palmeira-dos-brejos, meriti (ou miriti e muriti). Não tem nada mais bonito que um Buriti, com aquela sua copa formada por amplos leques, que por sua vez se abrem como uma esfera de folhas por cima de seus longos e robustos troncos. Aquilo parece desenhado em um computador… Ou melhor, o é: só que através de algum software que só na natureza conhece.
Se fosse para escolher uma árvore-símbolo para nossa cidade (já deve existir…) eu ficaria com o Buriti, mesmo com a forte concorrência do Pequizeiro, dos Ipê amarelos e brancos, das Paineiras Barrigudas. Alternativamente, todavia, poderíamos pensar em um Pantheon (ou seria um Pan-Dendron?) para tais homenagens.
Vocês querem saber onde se pode apreciar alguns exemplares notáveis de tal árvore em nossa cidade, além daqueles que enfeitam logradouros públicos? É simples: eles estão em vários pontos às margens do Lago do Paranoá, por exemplo, na réplica de Pantanal que existe junto à foz do ribeirão do Gama, no Lago Sul, ou na cabaceira distal da Ponte JK, à direita de quem segue no rumo de Unaí. Mas para mim os melhores exemplares estão no Parque Ecológico do Lago Norte, também conhecido como Parque Vivencial. São deles a foto que ilustra esta matéria.
Para encerrar, ofereço de brinde aos leitores uma coleção de passagens retiradas de meu livro de cabeceira, o já citado Grande Sertão: Veredas, em que o Buriti, ali citado quase uma centena de vezes, é marcante personagem.
Não se espantem com Burití (assim escrito com acento tônico) e Flôr (idem), além de outras coisas estranhas, pois isso está de conformidade com a grafia peculiar dos anos 50, quando a obra foi escrita (e talvez de alguma idiossincrasia de JGR).
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BURITIS E BURITIZAIS EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS
- Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles, burití se segue, segue.
- Saem dos mesmos brejos ― buritizais enormes. Por lá, sucurí geme.
- Daí, se desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: burití ― verde que afina e esveste, belimbeleza.
- E, de tardinha, quando voltou o vento, era um fino soprado seguido, nas palmas dos buritís, roladas uma por uma.
- De repente, com a gente se afastando, os pássaros todos voltavam do céu, que desciam para seus lugares, em ponto, nas frescas beiras da lagoa ― ah, a papeagem no buritizal, que lequelequêia.
- Buriti, minha palmeira, lá na vereda de lá: casinha da banda esquerda, olhos de onda do mar…
- Vereda em vereda, como os buritís ensinam, a gente varava para após.
- Em mês de agosto, burití vinhoso…
- Meu boi preto mocangueiro, árvore para te apresilhar? Palmeira que não debruça: buriti ― sem entortar…
- Cada saco amarrado com broto de burití, a folha nova ― verde e amarela pelo comprido, meio a meio.
- Trazia para mim caixetas de doce de burití ou de araticúm, requeijão e marmeladas.
- Corro os dias nesses verdes, meu boi mocho baetão, buriti ― água azulada, carnaúba ― sal do chão…
- Nos gerais. Ah, burití cresce e merece é nos gerais!
- Um dia, no não poder, ele soube, ele quase viu! eu tinha gozado hora de amores, com uma mocinha formosa e dianteira, morena cor de dôce-de-burití.
- Então, eu ia deixar para a boca dos outros aquela menina que se agradou de mim, e que tinha cor de dôce-de-burití e os seios tão grandes?!
- Sôr Amadeu, pai dela, que apartasse ― destinado para nós dois ― um buritizal em dote, conforme o uso dos antigos.
- Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em campim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais. O senhor vê! o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade.
- … andamos, e demos com a primeira vereda ― dividindo as chapadas ―: o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de suas folhas altas; e, sassafrazal ― como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre.
- E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia ― todo buritizal e florestal!
- Daí, passamos um rio vadoso ― rio de beira baixinha, só burití ali, os buritís calados. E a flór de caraíba urucuiã ― róxo astrazado, um róxo que sobe no céu.
- Pergunto coisas ao burití; e o que ele responde é! a coragem minha. Burití quer todo azul, e não se aparta de sua água ― carece de espelho.
- Assim que fevereiro é o mês mindinho: mas é quando todos os cocos do buritizal maduram, e no céu, quando estia, a gente acha reunidas as todas estrelas do ano todo.
- Mas, quando o dia clareou de todo, eu estava diante do buritizal. Um buriti ― teteia enorme.
- … o Tipote, que achava os lugares d’água, feito boi geralista ou buriti em broto de semente.
- Otacília, minha nôiva, que era para ser dona de tantos territórios agrícolas e adadas pastagens, com tantas vertentes e veredas, formosura dos buritizais.
- O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável.
- Com o tempo se refrescando, e o desabafo do ar, burití revira altas palmas.
- O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda ― as águas levam ― em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; daí o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo.
- O que é que burití diz? E: ― Eu sei e não sei… Que é que o boi diz: ― Me ensina o que eu sabia…
- Desci, de retorno, para a beira dos buritís, aonde o pano d’água. A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo.
- O Urucúia é um rio, o rio das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbús, a sombra separada dos buritizais, ele.
- Diadorim disse ― a voz dele se paliava! ― Por querer bem é que eu falo, Riobaldo… ― feito o sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o buritizal.
- Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o burití! palmeira alalã ― pelas veredas.
- Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigrí minha mãe me ralhando; os buritís dos buritís ― assim aos cachos;
- … que nem, dos brejos dos Gerais, sai uma vereda para o nascente e outra para o poente, riachinhos que se apartam de vez, mas correndo, claramente, na sombra de seus buritizais…
- … era a Vereda, com seus buritís altos e a água ida lambida, donzela de branca, sem um celamim de barro.
- E o que pensei: que aquela água de vereda sempre tinha permanecido ali, permeio às touças de sassafrás e os buritís dos ventos ― e eu, em esse dia, só em esse dia, justo, tinha carecido de vir lá, para avistar com eles; por quê que era?
- Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes… Burití, do ouro da flôr…
