A Natureza em Brasília (IV): Aqui também é o Grande Sertão

O que Brasília tem a ver com Guimarães Rosa? Não é pouco, como poderia parecer à primeira vista, pois pelo menos dois fatos a respeito disso podem ser citados. Primeiro, um dos contos daquelas Primeiras Histórias, intitulado As Margens da Alegria, é ambientado nesta cidade, ainda nascente, onde uma criança tem seu primeiro contato com algumas curiosidades de um mundo que também começava a existir para ela: uma viagem de avião, uma terra muito diferente da sua, um formigueiro humano a cavoucar e abrir caminhos no mato até então fechado, a força das máquinas pesadas desvirginando o cerrado, e mais um tucano e um peru assassinado… Não vou dar spoiler, quem se interessar que procure ler a estória diretamente. Em segundo lugar um fato geográfico: o grande mundo do vale são-franciscano, território de Grande Sertão: Veredas praticamente envolve nossa cidade, já que um dos rios que se recolhem à sua bacia, o Rio Preto, praticamente nasce entre nós. Isso para não falar do Urucuia, que é dado à luz bem aqui perto, na vizinha Formosa. Aliás, boa extensão de terras à leste do próprio DF, fronteiriças a Goiás, já pertencem à bacia do rio São Francisco. Mas tem mais… Os largos chapadões sulcados pelo fluxo milenar das águas que escorrem do Planalto desde os tempos do oceano primitivo; as veredas de buritis e as aglomerações de macaúbas; o cerrado em suas variedades; as floradas anuais dos ipês, das paineiras, das cagaitas, dos jatobás, da sucupira branca, dos pequizeiros; os ribeirões envoltos pela mata ciliar; as estações do ano bem demarcadas; o céu azul sem nuvens durante metade do ano; as noites frias fazendo par aos dias quentes e secos constantes por aqui, mostram que há muitas coisas que nos fazem também viventes no verdadeiro Grande Sertão. 

Vamos por uma das veredas mais notórias de tal território: o rio Urucuia, em cujo vale já está a nossa vizinha Formosa.

Urucuia: para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente.

Por terras altas demais, acima dos mil metros, os tais montões oestes de que fala Guimarães Rosa, é que começa de fato tal viagem, nas cercanias da cidade de Formosa, a 60 km do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome, transformada em polo do agronegócio e sede de um território economicamente desigual, dominado pela política mais conservadora, o que as bandeiras do Brasil desfraldadas do alto dos galpões da beira da estrada bem atestam.

Como disse JGR, o gerais corre em volta, esses gerais sem tamanho. Nada mais acertado, aqui já dá pra ver e sentir, os horizontes largos, sulcados de forma ampla pelos vãos que se formaram quando o oceano primitivo escorreu. Este Sertão, parte dos tais Gerais, aliás bem distantes e diferentes das Minas, é quase do tamanho do mundo. Não é à toa que o Rosa também disse, com razão: o sertão está em toda a parte. 

É bonito o sertão? Depende. Tem que saber olhar, ou olhar do jeito certo. Esta região, por exemplo. Aqui se abre um anfiteatro, amplo, sem tamanho. Dependendo da época do ano está tudo verde, verdíssimo, mesmo nas áreas não cobertas pela soja. A vegetação do cerrado, formada por pequis, jatobás e muitas outras espécies é ainda está presente, principalmente na beira das estradas, mas certamente ameaçada. Mas o que chamará mais a atenção da gente são as grandes chapadas que se debruçam sobre os largos platôs e vales, como se fossem grandes mesas, talhadas a pique, de tonalidade verde escura, sem outro recorte que não seja suas largas reentrâncias, que faz delas algo como uma grande mão espalmada sobre uma superfície horizontal. E de entremeio a elas, o Urucuia, que por aqui ainda é modesto, realmente nem parece ser o responsável, ao longo dos milênios, por tal modelagem titânica.

E vamos em frente. Voltaremos a tal roteiro em suaves prestações periódicas.

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