A Natureza em Brasília (II): Paisagismo “naif”

Onde estariam os quintais em uma cidade como essa em que moro, com a presença tão marcante dos prédios de apartamento? Por incrível que pareça, a ideia de quintais e pomares não é estranha a Brasília. Eles podem ser vistos, de maneira mais óbvia, nos grandes espaços em que Burle Marx – deve ter sido ele – povoou de mangueiras. Quem sabe, foi ele também um nostálgico de pomares de infância? Viva as mangueiras, viva Burle Marx, mas são outros os pomares que me atraem aqui na capital do País. Estes não se exibem de imediato, tem que saber olhar para eles, meio tímidos e até envergonhados de sua modestíssima condição plebeia. Organização, composição paisagística, planejamento, são espécies que neles não floreiam e nem frutificam. Para vê-los, é preciso ir a pé pelo interior das superquadras onde estão bem presentes, exibindo abacateiros, mangueiras, pitangueiras, cítricos diversos e até bananeiras… De onde vêm? Será que alguém os planejou? Quem os plantou e cuida deles? Não parece ser por acaso que tais pomares modestos se situam nas proximidades da entrada do pequeno apartamento onde mora ou se abrigam os porteiros.

Sabe aquela manga docíssima que Severino conheceu no Ceará? Pois é, ele felizmente teve o cuidado de guardar o caroço e quando retornou a seu posto de trabalho fez questão de plantá-lo junto à sua porta, além de passar a cuidar bem da planta que dele brotou. Agora já produz a manga que traz a Severino e a seus amigos Cícero e Ribamar, o melhor sabor do Nordeste, que está tão longe. E com história semelhante entram no cenário as pinhas, as goiabas, os abacates, as jabuticabas, os limões vermelhos, tão azedos quanto sem vergonhas… E você pode encontrar até mesmo umbu, pitomba, cajá. É só procurar.

Os mais práticos diriam: “que bom, nossos porteiros estão completando sua dieta com vitaminas, fibras e sei lá o quê mais!”. Eu, sinceramente, acho tais fatos nutricionais irrelevantes. O que esses quintais cultivados com pertinácia sertaneja, essas fruteiras cuidadas à boa mão, acrescentam, de verdade, à vida desses tantos que emigraram do sertão brasileiro para a grande metrópole, tem significado simbólico, muito mais do que material.

Com efeito, ali, junto àquela porta única de entrada e saída, na modesta habitação que ao mesmo tempo os aproxima e repele da classe dominante da Capital Federal, esses cidadãos podem ter o gosto cotidiano de sorver um pouco do que ainda lhes resta de vínculo e raiz com os quintais de sua infância e de sua aldeia natal. Com eles, o conceito de pomar foi buleversado e abusado em sua bula burlemarxista. Mas o que importa? Só espero que não lhes venha algum síndico ou administrador burocrata, falando em nome do respeito ao grande projeto engendrado pelos criadores de Brasília, de motosserra em punho, a derrubar símbolos e sonhos tão justos e necessários.

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Sobre a palavra naif: trata-se de um galicismo, ou seja, estrangeirismo de origem francesa, significando algo como ingênuo, simples ou mesmo nativo. Na arte, onde é mais utilizada, tem a ver com espontaneidade e liberdade criativa. Acredito que tal arte dos pomares produzida pelos nossos queridos porteiros se enquadre bem em tal categoria.

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Leia o texto completo: https://veredasaude.com/2015/07/22/de-quintais-e-pomares/

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