As noções de Brasília e de Área Verde mantêm entre si uma relação quase pleonásmica (será que existe esta palavra? O corretor do Google diz que não.). Desde a prancheta do Dr. Lucio Costa isso já se encontrava muito bem estabelecido e foi cumprido, creio, até com certo rigor, ao longo das mais de seis décadas de vida de nossa capital. Rigor, de fato, talvez seja um exagero, mas a realidade é que temos direito aqui a esse raro desfrute, algo que se vê em cada vez menos em cidades do Brasil, talvez do mundo. Eu, como frequentador de algumas dessas áreas, caminhante compulsivo das manhãs na Asa Norte, tenho procurado observar aquelas que me são vizinhas, ou seja, das quatrocentas às trezentas, incluindo o Eixão e entre as quadras quinze e as dezesseis, mais seus arredores (que me desculpem os que não são de Brasília, mas o pessoal local me entenderá perfeitamente). Pois bem, há uma pergunta a ser feita: o que vemos hoje como mancha clorofilada guarda alguma afinidade com o que foi projetado nos alvores de nossa cidade? A resposta é necessariamente vaga: até certo ponto sim – e não; há muito verde, sim, mas nem todo ele estaria definido na prancheta do arquiteto Costa ou de Burle Marx. E assim surgem novas perguntas: há algum problema nisso? Seria vantagem ou prejuízo para a natureza e para as pessoas que aqui vivem? Vocês têm um tempinho para ouvir o que tenho a dizer sobre as consequências da falta de maior rigor sobre aquele planejamento oficial da cobertura vegetal nas quadras? Mas atenção, aqui fala um curioso, um amador, não um botânico, paisagista ou ambientalista. Não precisam me levar muito a sério, portanto. Ok assim?
Vou tomar como exemplo para as presentes considerações a Quadra 115 Norte, que me parece reproduzir bem a composição, o desenho e o espírito das demais quadras da cidade, embora não possa garantir isso com certeza, pois obviamente não conheço outras com tanta proximidade quanto essa115 N, por onde caminho quase todo santo dia. Não se esqueçam, também, que não identifico a fundo todas as plantas que vejo em meu caminho, ou seja, além daquelas devidamente referenciadas por generosas plaquinhas, reconheço alguma intimidade apenas com duas ou três dezenas de unidades em tal conjunto, o que de todo forma me parece credenciar como portador de um ponto de vista a ser considerado. Com ressalvas, claro.
Para início de conversa penso que podemos falar em três ou quatro tipos de cobertura vegetal na 115, o que talvez se estenda às demais quadras da cidade, a saber: (a) aquilo que faz parte do projeto original e assim permanece até hoje, mesmo tendo ocorrido substituições devidas ao perecimento de alguns indivíduos; (b) as intervenções de paisagistas de ocasião, principalmente ao redor de prédios residenciais mais modernos e sofisticados; (c) as intervenções praticadas pelos próprios moradores, de forma alheia a algum tipo de planejamento ou convenção, além de um tipo especial associado a este, qual seja, (d) a introdução voluntária de frutíferas, de especiarias e plantas utilitárias em geral, feita pelos próprios moradores ou, geralmente, pelos porteiros e funcionários dos blocos ou do comercio local.
Na Quadra 115 N o que acabei de dizer poderia ter algum valor como generalização, embora um olhar mais próximo possa suscitar novas categorizações. Por exemplo, a presença isolada ou em grupamentos de alguma das espécies; a presença de endêmicas versus exóticas; a possível intencionalidade do plantio versus o espontaneísmo de algumas das iniciativas. Um aspecto que distingue esta quadra de outras – acredito – é que nela, em especial na área livre fronteiriça com a 114, por obra e graça de algum síndico ou prefeito mais cuidadoso, há muitas espécies identificadas, em termos de nomenclatura botânica, distribuição geográfica e utilidade, em plaquinhas padronizadas fincadas ao pé de cada uma. Isso eu considero um verdadeiro e consumado luxo!
Numa visão geral, como se estivéssemos a bordo de um drone, vamos notar que as espécies que dominam numericamente o cenário talvez sejam as mesmas das quadras vizinhas e das demais da cidade, seriam as Mangueiras (Mangus indica), o Pau Ferro (Libidibia ferrea), o Sabão de Soldado (Sapindus saponaria), o Oiti (Moquilea tomentosa), além do Mogno brasileiro (Swietenia macrophylla). Possui destaque especial a passagem paralela ao comércio (SCLN 115), pois ali, talvez pela disputa pela luz entre a aleia de mangueiras e os prédios de seis andares longitudinais a ela, o crescimento de algumas espécies é marcante, entre elas se destacando pelo menos um Angico (provável Piptadenia sp…) e uma Sete Copas (Terminalia catappa) além de outras que não identifico com precisão, que ultrapassam a altura dos prédios, que é de 20m. ou mais.
O aspecto mais chamativo na 115 N é constituído pelos aglomerados, dos quais temos pelo menos três grupos. Em primeiro lugar a coleção de Pau Ferro (Libidibia ferrea), que deve ter pelo menos três ou quatro dezenas de exemplares, margeando a via W1 de fora a fora. Além da pujança de suas copas atente-se à variedade de desenhos de seus troncos, aliás, já contemplados aqui (https://veredasaude.com/2026/09/05/a-natureza-em-brasilia-v-pau-ferro-cia/). O segundo destaque vai para os Jenipapos (Genipa americana), que acompanham todo o trajeto do eixo W, mais abaixo, seguido pelo magote de Oitis (Moquilea tomentosa), que faz sombra ao estacionamento situado logo na entrada da quadra, à direita de quem desce.
Além de tais aglomerados, temos indivíduos isolados de variadas espécies, até mesmo uma Oliveira (Olea europaea), acreditam? Das frutíferas, geralmente trazidas, creio eu, pela mão dos porteiros, então, nem se fala, sendo incontáveis os cítricos, além de Acerola, Abacate, Ameixinhas amarelas (Nêsperas), Calabura, Pitanga, Amoreira, Mamoeiros, para não falar das Mangueiras, estas talvez fazendo parte do projeto paisagístico original – pelo menos uma parte delas. Sem esquecer dos proverbiais pinheiros e ciprestes, totalmente exóticos, claro, mas que a cada mês de dezembro ou janeiro se transmutam de árvores de Natal domesticadas em espécies formadoras das tais áreas verdes. Mas de toda forma que sejam bem vindas. Fora isso, algumas palmeiras Guariroba e Jerivá e algumas de alto porte, talvez as tais Imperiais.
Das espécies identificadas pelas tais plaquinhas amarelas anotei: o Jacarandá da Bahia (pelo menos 4 indivíduos), a endêmica Cagaita, a Magnólia-da-Índia, o Jucá (parente próximo do Pau Ferro), a amazônica Calabura, a Amburana, a já citada Oliveira, o Jacarandá Mimoso, a Árvore do Dinheiro (esta merece um capítulo próprio…), o Pau Terra e mais o curioso Pau Bosta, entre outros.
Como já citei, diversos jardins orquestrados por paisagistas modernos, em prédios idem, mostram grande variedade de agaves, palmeiras diversas, Cycas revoluta, arecas, Croton e outras espécies, a maioria provavelmente estrangeiras. Sobressai aí um tipo de palmeira espetacular, não muito alta, mas cuja copa, de tonalidade verde claro e que lembra a do Buriti, parece ter saído de um projeto de I. A.
Tem também, nos arredores da 115, a faixa correspondente no Eixão Norte, onde pontificam os Cega-Machado; na beirada de cima da W1, dois exemplares de Fruta Pão, já mencionados aqui (https://veredasaude.com/2026/09/01/a-natureza-em-brasilia-i-a-exotica-fruta-pao/); em frente à Igreja Messiânica, logo ali, uma bela fileira de Oitis.
De fato, não é pouca coisa. E atenção que aqui estão identificadas apenas uma parte dos exemplares de fato presentes na área verde de uma única quadra típica de Brasília, ou seja, aqueles já identificadas pelas tais placas, além de alguns que eu, por acaso já conhecesse de cor.
E sobre o grau de afinidade de tudo isso com o que foi projetado nos alvores de nossa cidade e o possível mal que alguma divergência disso causaria? A resposta mais exata deveria ser dada por especialistas. De minha parte devo dizer que não vi nenhuma espécie daquelas reconhecidamente nocivas por lá, como Espatódeas, Leucenas e Espirradeiras, o que me permite afirmar, com alguma reserva cautelosa, que o importante é ter, à mancheia, árvores, flores, frutos, sombra, verde, frescor, abrigo – essas coisas. E o que está lá nos provém de tudo isso muito bem, fazendo com que a minha pessoa, como muitos outros moradores, tenhamos à nossa disposição um verdadeiro Jardim Botânico logo ali na esquina.
Assim me dou por satisfeito, sempre orgulhoso por morar nesta cidade, que aliás conheço e admiro desde o mês de abril de 1960.
***
Leia também: https://veredasaude.com/2015/07/22/de-quintais-e-pomares/
