Inovação ou “novidade’?

Mobile_(sculpture)_in_the_style_of_Alexander_CalderINOVAÇÃO é, sem dúvida, uma daquelas palavras que não saem da moda. Mas seja modismo, ou não, isso não impede que se deva ter uma visão crítica sobre o que realmente acontece, particularmente quando a palavra “inovação” serve para designar aquilo que pode não passar de uma mera “novidade”, além do mais, passageira.

O conceito de inovação merece, sem dúvida, alguns aprofundamentos. Primeiro, que a capacidade criadora não se localiza apenas nos indivíduos, mas em todo o conjunto institucional ou social, configurando um sistema coletivo, com a presença de “grupos criativos”, mais do que indivíduos, conforme o que estabelece Domenico De Masi. A inovação representaria, também, um conceito integrador, embora confuso e contraditório, capaz de trazer para o cenário das organizações uma “nova síntese”, na visão do sociólogo francês Michel Crozier. Isso, sem dúvida, coloca um antagonismo entre o indivíduo e o grupo no qual este se insere, sendo este último, em princípio, mais inovador do que aquele. Além disso, em determinados setores das instituições a inovação tende a ocorrer de maneira mais fluida, particularmente onde estejam menos concentrados o peso burocrático, a inflexibilidade de normas e a autocracia institucional. Este último autor considera que inovação representaria um “desencantamento” em relação às formas de pensamento arcaicas, constituindo, assim, um processo revolucionário dentro das instituições.

Pode-se dizer, também, que não seriam efetivamente “novos” apenas o pensamento e as práticas destituídos de história ou tradição; ao contrário, é caso de se pensar em ainda mais história e tradição, dentro de um processo de mudanças no âmbito da cultura. Este aspecto é particularmente destacado na obra do antropólogo brasileiro Roberto Da Matta, que localiza e aprofunda a discussão de tais processos como pertencentes ao substrato de uma cultura organizacional, ou seja, como resultado do embate, dentro das instituições, entre o nível formal e legal e um conjunto de códigos de conduta pessoais e não-escritos. O enfrentamento disso representa um modo positivo de lidar com a complexidade e a incerteza – o que no campo da saúde, por exemplo, é regra – de forma não só a aprimorar a qualidade dos serviços oferecidos ao público usuário como também a capacidade de interpretar a realidade e de transformá-la de forma sintonizada com tal fluidez.

Nas Ciências da Saúde a questão tem realmente especial relevância, pois há muito se sabe que as tecnologias médicas costumeiramente possuem uma obsolescência fatal. Não é difícil para qualquer profissional de saúde, mesmo com poucos anos de estrada, se lembrar de soluções que foram apontadas como o “must” e que em poucos anos já haviam caducado ou se revelado inócuas, para não dizer o pior: serem potencialmente capazes de produzir malefícios terríveis para a saúde de quem na verdade pretendiam aliviar. Há exemplos paradigmáticos, como o das cirurgias de pontes de safena ou da utilização de antiinflamatórios de “última geração”, mas, na verdade, tais situações são bastante numerosas. Já nos anos 70 do século passado, Ivan Illich fez disso uma cruzada de combate ao que chamou de “medicalização”, seja em termos individuais ou sociais.

A febre da “novidade”, muito presente na clínica, não se atém somente a ela, todavia. Na gestão da saúde ela também é bastante freqüente, com um potencial considerável de causar problemas, mais do que soluções. As “reengenharias” organizacionais estão aí para provar tal coisa… Sobre isso cumpre indagar: trata-se de algo que implicaria em mudanças e melhoramentos dos resultados da atenção à saúde, em termos de desempenho, satisfação da clientela, qualidade, eficiência, transparência? Nem sempre é isso que uma mera “novidade” favorece, lamentavelmente.

Assim, tanto na gestão como na clínica, uma “coisa nova” não seria necessariamente uma solução inovadora. Antes de tudo, deveríamos indagar sobre o contexto no qual ela se desenvolve; se a análise e o diagnóstico do problema que se pretende resolver foram realizados; se a necessidade de mudanças foi suficientemente justificada; se teria sido analisada e comprovada a viabilidade da intervenção, bem como se foram cogitadas outras opções. E outras questões pululam no cenário, por exemplo: foram realizadas as ações de sensibilização, de comunicação e de treinamento das pessoas, dos dois lados da linha que separa a prestação de serviços da demanda a eles? E não nos esqueçamos de mais uma, singela, porém cabal: existiriam garantias de sustentabilidade técnica e financeira de tal solução supostamente inovadora? São perguntas que nunca se calam…

Evidentemente, indagações desse tipo dificilmente seriam respondidas, de forma coerente ou autêntica, por certos setores que compõem o entorno do sistema de saúde e que querem, a todo custo, vender seus produtos mágicos, sejam tecnologias, processos, fármacos, equipamentos etc.

Quem deveria, afinal de contas, cultivar e promover a inovação autêntica? Ela deve ser, em primeiro lugar, considerada uma função que afeta a todos os atores envolvidos no âmbito da saúde, não só da comunidade científica, mas também dos gestores, técnicos, usuários, políticos. É a interação dos interesses desses diversos atores que pode fazer com que as práticas, instrumentos e metodologias inovadoras se tornem a, cada dia, mais numerosos e eficazes no campo da saúde.

Por falar nisso, valeria a pena, também, especular um pouco sobre o que facilitaria ou dificultaria o aparecimento de processos inovadores em uma determinada organização. Do lado da organização dos processos de trabalho, por exemplo, a capacitação do corpo técnico para a realização de múltiplas tarefas e habilidades, representa, sem dúvida, fator grande impacto. Outro fator facilitador seria o senso de vocação do trabalhador e também o que é denominado “presença moral” do governo (aspecto que nós, brasilienses, conhecemos muito bem…), bem como a existência de mecanismos de coordenação baseados no ajustamento interpessoal, com fluxos mais diluídos de autoridade formal. São características adequadas para as organizações que atuam em ambientes complexos e muito mutáveis, como ocorre nos serviços de saúde.

O fato é que não se pode negar que os gestores da saúde têm responsabilidades especiais na geração e na introdução da inovação nos processos de gestão e de trabalho na ponta da linha. Isso quase sempre é determinado pela pressão e pela responsabilidade de encontrar soluções eficazes. Contudo, poucas energias e recursos são destinados para ações de sistematização dos conhecimentos acumulados e sua divulgação. É assim que, dificilmente, uma solução inovadora venha a ser suficientemente analisada antes de ser aplicada e que poucas vezes seus resultados sejam avaliados em função das evidências de boas práticas que produzam. Além disso, mesmo o impacto criado pela inovação real pode ficar restrito ao contexto local, fazendo com que instrumentos e informações valiosos para os demais atores no cenário, que devem ser levados em conta não obtenham divulgação.

É aí que mais uma responsabilidade de gestão na saúde deve ser contemplada, de forma a incluir também a produção, a difusão e a análise crítica relativas a conhecimentos, evidências e inovação real. “Evidência” é uma palavra-chave, que tem sido muito utilizada em relação aos processos clínicos, mas que cabe também nos processos sociais, inclusive de gestão. Ela deve ser sempre procurada e valorizada nos testes terapêuticos, nos estudos de casos, no desenvolvimento de processos gerenciais e nas experiências reais, mediante o resgate e a análise dos processos, ferramentas e instrumentos desenvolvidos dentro e fora da realidade local.

Assim como cabe a procura exaustiva das evidências antes de anunciar determinada “inovação”, é preciso também estar atento para o outro lado da moeda. No ambiente dos serviços de saúde muita coisa eficaz muitas vezes já se realiza, embora de forma não reconhecida como tal. Como dizia Nelson Rodrigues, o verdadeiro profeta é o que descobre o óbvio… E se o óbvio pode ser genial, pode também passar incógnito. Um bom exemplo disso é o humilde “soro caseiro”, usado durante tantas décadas e que tantos benefícios trouxe à humanidade. Ele foi considerado pela prestigiosa revista britânica The Economist como uma das melhores e mais eficazes tecnologias já desenvolvidas na história da ciência. Salvou milhões e milhões de vida em poucas décadas e neste ranking ficou bem à frente dos avanços da cirurgia, da instrumentação eletrônica e da farmacologia, por exemplo.

Cabe, assim, refletir sobre mais um dos fatores que constroem o processo inovador verdadeiro, qual seja o desafio de transformar o conhecimento tácito em conhecimento explícito, permitindo assim o acesso a essas valiosas informações pela comunidade da saúde e muitos outros atores interessados. Torna-se preciso, portanto, transformar os conhecimentos gerados nos processos cotidianos dos serviços, por mais silenciosos e implícitos que sejam, em práticas inovadoras efetivamente aplicadas, além de sistematizadas e orientadas para serem utilizadas em outros âmbitos e locais. Tanto os gestores e equipes técnicas da saúde, como os produtores de conhecimento nas universidades e centros de pesquisa, devem estar atentos a tanto.

Não seria o caso, realmente, de se rejeitar, a priori, o aparecimento de novidades no cenário da gestão e dos serviços de saúde. Mas é preciso estar atento se elas vêm efetivamente para produzir mudanças reconhecidas e impactar a qualidade e os resultados das práticas. Aí, sim, estaríamos falando de verdadeira INOVAÇÃO.

(Texto publicado em Comunicação em Ciências da Saúde, volume 22, número 3, julho/setembro 2011)

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