Phantasilia e Belgladesh

(Nova fábula, com sabor antigo)

ESCHER PHANTASILIAFui professor de Medicina por três décadas… Neste texto, escrito ainda na época de docente (da Universidade de Brasília), revelo alguns fantasmas que me assombravam… A aposentadoria também os aposentou de meus pesadelos. Mas certamente continuam presentes na vida de muitos professores e outras pessoas envolvidas com o ensino médico no país.

 

Era uma vez um Reino, muito distante daqui no tempo e no espaço, chamado Phantasilia. Seu rei, Eu-ricus, muito poderoso e dono de muitas posses, tinha um único filho, Patricius, cujo sonho era estudar a Arte de Curar. Toda a família era impressionada com a destreza com que Patricius esfolava e depenava pássaros, retirando com perícia, de seus corpinhos ainda cálidos, os corações pulsantes. Todos queriam que o principezinho seguisse a carreira de Perscrutador, que era o nome que se dava aos praticantes da Arte de Curar e todos tinham certeza que ele se dedicaria ao estudo das cavidades esquerdas do coração, que era um ramo importantíssimo da perscrutatória da época. Naquele tempo, grassavam muitas doenças destas cavidades, tanto é que várias pessoas da família de Eu-Ricus e de sua mulher haviam adoecido e mesmo morrido em conseqüência das mesmas. Patricius era muito curioso a respeito de doenças e doentes e descobrira que as tarefas de Perscrutador lhe cairiam como uma luva e haveriam de lhe granjear grande prestígio e muito dinheiro, pois não só pessoas de sua família como muitas outras, ligadas a ela por laços de sangue e de nobreza, padeciam das tais doenças cardio-sinistras. Quanto ao acometimento das demais cavidades do órgão, ou mesmo do corpo, bem como de outras camadas da população, Patricius pouco ou nada sabia, pois todo o seu pensamento, até então, fora dedicado a se imaginar um Perscrutador notável, um cardio-sinistrólogo, como outros que ele conhecera nos saraus da corte, todos muito queridos e muito abonados.

Assim foi que o príncipe chegou à idade de freqüentar a Academia da Arte de Curar e foi encaminhado por seu pai a uma notável instituição de seu tempo, conhecido como HUBrius, onde a maioria das famílias nobres punha seus filhos a aprender a Arte. É bem verdade, que já àquele momento, um Rei vizinho, por nome Jofranus, resolvera criar sua própria Academia, com a justificativa de que no Hubrius não se ensinava corretamente a Arte e de que era preciso dar oportunidade a muitos no aprendizado da mesma. Apesar disso, Eu-ricus, apegado à tradição como um Rei que se preze, mandou Patricius para o Hubrius, recomendando que ele dedicasse o melhor de seus esforços ao aprendizado da Arte, o que, afinal de contas, era um destino traçado para ele desde a infância. Além do mais, não tinha cabimento que todos aqueles passarinhos inocentes tivessem sido sacrificados em vão… Patricius, justiça seja feita, saiu-se muito bem no Hubrius, tendo sido até escolhido por seus pares para fazer a tradicional Homenagem aos Pais, durante o rito de passagem final da Academia. É certo que ao findar seus estudos, Patricius se envolvera em uma polêmica desgastante com Epidemonis, um velho lente da Faculdade que cismara de mudar a tradicional e bem posta ordem das coisas, ao dizer que os alunos deviam também cuidar das pessoas pobres, estudar outras matérias além daqueles que tratavam do corpo e dos elementos físicos, além de praticar em ambientes diferentes das tradicionais salas perscrutatórias. Patricius, galhardamente, liderou a reação contra tais medidas estapafúrdias, argumentando muito apropriadamente que ele e seus colegas não tinham vindo à Academia, e com tantos sacrifícios, para praticar algo que não fazia parte de nenhuma tradição conhecida a não ser, claro, que tudo não passasse de uma invenção diabólica do notório Epidemonis, um sujeito que, além do mais, era conhecido no Hubrius e fora dele como portador de pensamentos fora de linha, donde sua alcunha jocosa de Epidemonius.

Superado e esquecido este episódio desagradável, que quase empana o brilho do grande festival que Eu-ricus promovera para homenagear seu filho, agora iniciado na Arte, Patricius resolveu seguir o caminho de todos os filhos das boas famílias da época: procurar o Reino de Terra Mater, para se aprofundar na Perscrutatória das Cavidades do Coração (esquerdas). E assim veio a conseguir, graças a um Arquiduque que devia favores a seu pai, uma vaga no Incorus, que era o nome do Templo onde melhor se praticava tal mister. Longa é a Arte, curta é a Vida… Passados cinco invernos, Patricius finalmente cumpriu o rito final da Arte de Curar e recebeu a prebenda de Perscrutador Hermenêutico e Douto, ou «PHD», como singelamente se dizia então em Terra Mater. Como os anos passados em tais estudos profundos o haviam deixado muito esgotado do espírito e dos nervos, Patricius, com licença de seu pai, pôs-se a correr o Mundo, para conhecer outros Reinos e travar contato com perscrutadores de outras Academias, no que foi muito bem sucedido, tendo feito inúmeras amizades e mesmo sido convidado a colaborar em diversos alfarrábios que então se editavam aqui e ali sobre o tema das preocupações de nosso herói: os distúrbios das cavidades sinistras, etc.

Chegara entretanto, e finalmente, a hora de retornar a sua velha Phantasilia… Ah pobre Patricius! Quando ele vagava feliz e inocente pelos reinos da Disnélia e da Epcótia,  jamais poderia imaginar que tudo mudara em seu país e que o mundo que ele conhecera simplesmente desabara!  Para dizer pouco: a Monarquia fora derrubada e seu pai obrigado a se exilar em um Reino vizinho, a Penúmbria, sob a guarda de seu monarca e amigo Fernandus II. Os bens da família tinham sido confiscados, seu poder extinto. Aliás, o próprio nome de seu país natal fora mudado, era agora Belgladesh. O Hubrius entrara em decadência e Jofranus, em seu Reino à oeste, não cabia em si de contente com o sucesso de sua nova Academia, da qual agora emergiam chusmas de novos perscrutadores cavitários. Patricius encarou firmemente a realidade e foi abrir sua Sala Perscrutatória em um bom local, próximo às antigas residências da nobreza. Mas, qual! A nobreza se dispersara e os poucos que ficaram não tinham dinheiro. Alguns até mesmo descobriram que nem doentes eram de verdade, mas que haviam sido enganados por um certo Perscrutador de nome Iatrogenicus que andara pelo Reino, por coincidência num tempo em que os diagnósticos brotavam como cogumelos à sombra. Passados dois anos de sofrimento, o belo pergaminho que certificava sua passagem pelo Incorus esquecido em uma parede (e depois em um fundo de gaveta), Patricius teve que abrir mão de toda sua expectativa e de toda sua ilusão, cultivadas nos anos do Incorus e nos reinos estrangeiros… Vai, envergonhado, à procura de um reles emprego, mediante soldo, para praticar a Arte. E aí então, horror dos horrores, dá com os costados em um lugar onde os doentes eram doentes não só das cavidades do coração, mas também de outras partes do corpo e até mesmo da alma, além do mais sendo pobres, muito pobres – pobres de doer! As salas perscrutatórias e a vasta equipagem de um Perscrutador nada valiam naquela situação – e era assim em toda Belgladesh, ex-Phantasilia. Foi então que Patricius lembrou-se de seu antigo desafeto Epidemonis, dito Epidemonius: quem sabe ele não tivesse razão? Mas aí, então, já era tarde, muito tarde…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s