Em memória de um lutador: GILSON CARVALHO

GGILSÃOILSON CARVALHO: NOTAS DE UMA CONVIVÊNCIA

Conheci Gilson Carvalho, de perto, um tanto tardiamente, cerca de 1990, quando eu já havia deixado de ser Secretário Municipal de Saúde. Dessa época, minhas lembranças são mais vagas, mas certamente detentoras de afinidade com aquele sujeito gordinho, com cara de personagem, parecido com Tolstoi; presente aqui e ali nos encontros da saúde; repleto de energia, entusiasmo e graça; didático e convivente como ninguém; mostrando suas ideias em transparências coloridas, carregando uma eterna e surrada pasta marrom. Era impossível não gostar dele!

Em 1993 estávamos no Ministério da Saúde, na transição INAMPS – SAS. Ele não me conhecia – ou conhecia pouco – mas teve a gentileza de me confirmar em sua equipe. Ali, durante três anos agitados, levamos muita pancada, mas fizemos alguns gols também. A NOB 93 é apenas a ponta do iceberg. Mas na sua esteira vieram a regulamentação do repasse fundo a fundo, o desenvolvimento do programa de Saúde da Família, a dimensão nacional do PACS. E o mais importante: tínhamos alguém “do município”, finalmente, pilotando a imensa nave que antes nos esmagava…

Em uma dessas pancadarias, talvez naquela “brittada” que levamos em 1993, ou, quem sabe, na tentativa de intervenção que o Ministério do Planejamento promoveu no MS no ano seguinte, a lembrança dele é forte: cansado, com olheiras, o peso aumentando, mas nem assim perdia a confiança histórica no SUS.

Neste momento o coração já lhe falhava e, preocupados, o acompanhamos em um internamento de alguns dias em um hospital de Brasília. Saiu logo do recolhimento, constrangido de estar em um serviço privado, e ato contínuo já estava em sua sala na SAS, até altas horas e até praticamente pernoitando ali.

Curiosidade de sua breve estadia hospitalar foi o fato de que Emília finalmente conseguiu trazer-lhe uma profissional para lhe cortar as unhas do pé. Ele simplesmente não conseguia tempo para fazer algo assim no seu cotidiano.

Não há muito mais o que dizer sobre Gilsão, além do que este outro sujeito superlativo, o Nelsão, já falou nestas páginas…

A partida de Gilson era a notícia que eu não queria (mas temia…) receber. Acho que partiu o melhor entre todos nós, o que não esmorecia, o que possuía a fé que movia montanhas, o que não se dava nunca por vencido, o que enxergava luz onde os outros se perdiam em trevas… Gilson das madrugadas insones, Gilson, o homem inquieto na quietude apenas aparente de sua mesa de trabalho, enquanto a mente perseverava em encontrar soluções para o seu SUS, para o nosso SUS. Gilson das Domingueiras, das segundas, terças, quartas, quintas e sextas feiras; das noites e dos dias. Gilson que escolheu descansar só depois de partir. Uma pessoa verdadeiramente imprescindível!

Nós, que aqui ficamos, temos pelo menos o consolo de ter conhecido este sujeito sem par, de compartilhar um tanto de sua alegria e energia. Saudades, teremos muitas de Gilson. Mas ao mesmo tempo, nos consolamos em saber que ele continuará vivendo em nosso coração e em nossa ação.

Vai Gilsão, seu apressado, vai ao encontro de sua Emília! A gente não aceita, mas compreende partida assim tão fora de hora.

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