Infância

 

INFÂNCIAOs dois garotos, pelo menos uma vez por mês, tinham permissão da mãe para acompanhar o avô nas idas ao sitio, em Contagem, que naquele tempo era uma outra cidade, para a qual, de fato, tinha de se viajar .

Depois de um dia de folguedos e travessuras, suportados, a maior parte das vezes com bonomia pelo avô, cumpriam, então,  um ritual ansiosamente esperado: a fogueira de despedida, brincadeira vedada quando os garotos estavam sozinhos. A lenha recolhida debaixo das mangueiras, juntamente com o vasculho do pomar, era organizada por eles mesmos como uma pirâmide troncha, no local onde ainda jaziam cinzas de fogueiras anteriores. Varas do bambu fino, que formava vasta moita junto ao açude, já haviam sido trazidas, para serem queimadas e fazerem as vezes de foguetes, pelo estampido que provocavam ao romper com o calor das chamas. O avô lhes ensinara, também, a queimar os ramos de um pequeno arbusto, de folhas carnosas, que produzia estalidos e lançava fagulhas, fazendo grande efeito pirotécnico.

Terminavam assim o dia, à beira do fogo, agasalhados por recomendação da mãe, para evitar o frio pelas costas. O avô tomava suas últimas providências e não raramente tinha de ceder mais uns minutos aos meninos, que desejavam fazer a queima de uma vara recém encontrada ali por perto, que prometia tiros de arromba…

No caminho da volta, extenuados e calados, mas acima de tudo felizes,  amontoavam-se no banco da frente, cabeceando para lá e para cá, com o balanço do veículo. O avô, a esta altura,  deixava-os quietos, sem puxar as tradicionais brincadeiras e adivinhas, parte obrigatória da viagem, pelo menos na vinda, quando estavam descansados os garotos. Deixava,  então, os netos entregues ao sono e às recordações do dia.

No ar, impunham-se em estranha mistura, os odores da gasolina, da mexerica enredeira e do limão-cravo, das verduras recém colhidas, da terra fresca aderida às batatas doces e às mandiocas. Mal vedado pela capota de lona do jeep, um friozinho benfazejo fazia sua presença. Lá atrás, o sol se punha entre rosadas nuvens, como se o lençol de capim gordura dos morros tivesse se invertido e cobrisse, agora, o próprio céu.

Para aqueles dois, o cheiro de tangerinas, mostarda e terra fresca, o friozinho das tardes de maio, o sol num dossel colorido, o crepitar de lenha em fogueira, o capim gordura manchando os morros, mesmo passados mais de sessenta anos, ainda trazem magicamente as cores, os cheiros, os sons e os sabores de uma meninice luminosa. Quem teve infância por certo entenderá…

 

 

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