«Amarcord»  de sabores

DOCE DE LEITEQuando visito a casa de João Maurício, cumpro um ritual que sempre me dá grande prazer: enfiar a cabeça na caixa aberta daquele piano Pleyel que nós todos conhecemos e aspirar com sofreguidão o cheiro de madeira velha, tão peculiar, que entra ano, sai ano, continua ali guardado. Então me penetram os sentidos um sem número de aromas e sabores que marcaram minha infância, na rua do Ouro, na casa ancestral de Vovó Dodora e Vovô Altivo, além de outras casas da família. Recordo-me disso, ao iniciar estas linhas, para deixar claro que tenho uma tremenda memória para essas coisas. Dizem que eu tenho uma memória enorme para fatos, não sei bem se é assim, mas das comidas e dos perfumes de minha infância, realmente não me esqueço. 

Entre outras alegrias, creio que tive (tivemos) uma infância marcada pelas boas comidas e também por bons rituais em torno delas. Uma de minhas lembranças mais antigas é a da fabricação de goiabada na chácara de Contagem, em uma pequena cozinha anexa, na qual um fogão de lenha foi preparado com um tipo de cavidade em formato de bacia, na qual se encaixava perfeitamente o tacho de cobre adequado ao mister. A pasta espessa, de tom marrom avermelhado, mexida com longas colheres de pau, em inquieta erupção que formava crateras aqui e ali, logo se desmanchando, compunha um espetáculo inesquecível. Às crianças era permitido, apenas, observar de longe, pelo risco de queimaduras. Mas mesmo assim, era muito divertido. E melhor ainda ficava quando, ao final, éramos autorizados a degustar a «rapa», nos próprios tachos já resfriados. Uma história da época: JM, ao ser solicitado informar qual o doce que mais o deliciava, não teve dúvida: «é a rapa!»

Mas goiabada era apenas uma das delícias, entre tantas outras. Sempre gostei muito do doce de laranja em calda, iguaria um tanto amarga e nem sempre apreciada pelas crianças. Mas eu, desde sempre apreciei. Aliás, deve ser por isso que aprendi a fazê-lo (acho que até razoavelmente) e até me meti a poetizar sobre o mesmo.  Melhor ainda quando o doce de laranja-da-terra era moído e transformado em pasta de se cortar, a laranjada, que anda desaparecida das mesas da família. E neste terreno das frutas, tínhamos do que gabar: doce de banana seja em pasta, em calda queimada, além da tradicional banana frita com canela e açúcar; doce de figo, em calda e em pasta (delícia!); doce de mamão, de espelho, em talhadas, enroladinho, com rapadura, etc. Aliás, do mamão se fazia doce até do miolo branco do tronco do mamoeiro. E mais, doce de carambola, geléia de jaboticaba (na Chácara tinha «apenas» uns trinta ou quarenta pés), doce de manga. E se espremer a memória ainda vou me lembrar de mais especialidades…

Havia também um certo tipo de doce, modesto em sua origem, mas igualmente de eterna e adorável lembrança. Era aquele que resultava do aproveitamento de determinados alimentos, uma espécie de subproduto dos mesmos, mas que apesar disso era saboreado em clima de festa. Lembro-me, especialmente, do doce de leite talhado – vocês se lembram: encaroçadinho, meio ácido, queimado na medida? Uau! E não pode ficar de fora dessa lista a banana em calda, da qual falei acima, uma especialidade de Favita, que dava àqueles pedaços de banana caturra, que de outra forma iriam para a lata de lixo, o auxílio luxuoso de uma calda de açúcar moreno-dourada. Tinha também o arroz-doce, mas este, coitado, acabou deixando lembranças menos agradáveis, pelo menos para mim, não sei se para vocês…

A história do arroz-doce é a seguinte: Claudia, nossa eterna caçulinha, foi acometida durante seus primeiros anos de vida de dores de barriga atrozes (para ela e para os circunstantes…). Assim, a receita da época – e creio que ainda de hoje, que nos confirmem os pediatras da família – era ministrar aos pequenos doentes alguns litros de água de arroz por dia. E este produto, como sabem, provem do cozimento do arroz, que «sobra» no processo. Em nossa casa não sobrava, pois era transformado em arroz doce. E tome arroz doce… Não tínhamos o privilégio, à época, de sobremesa doce todos os dias (Da. Flavia, não se sinta autoritária e ranzinza, isto é um must dieteticamente correto nos dias de hoje!), mas com o arroz-doce era outra história: podíamos comê-lo à vontade. Só que com pouco tempo, sobrevinha um efeito de overdose e ninguém mais queria saber dele. Mas agora, tantos anos passados, eu daria tudo para comer daquela sobremesa de novo! Portanto, Claudia e Favita, não precisam ter crises de consciência só por causa disso…

E por aí vão minhas memórias… Para ficar no apenas no trivial, evoco aqui as lembranças de rabanadas, ovos nevados, pavês, docinhos de damasco, fatias de amendoim, pudim de pão (injustamente alcunhado de engasga-lobo), amor-em-pedaços, broinhas de milho, casadinhos e outros biscoitinhos diversos, além de tanta coisa mais. E olha que meus quilos a mais e a minha insulina de menos me dizem que não convém exagerar nos doces! Mas tem também o capítulo dos salgados – não menos refinado e variado, que vai do simpático maneco-sem-jaleco (as novas gerações nem suspeitam do que seja), passa pela proverbial torrada com pasta de espinafre com queijo e ovo, até chegar ao grande momento da sopa de bolinhas de queijo, para não falar das costeletas de porco fritas, da canjiquinha, do creme de milho. Ah, sim, não me esqueci da queca de Favita, apenas deixei-a para ser homenageada no final: divina, maravilhosa, suculenta, olorosa, sofisticada – cabem nela tantos adjetivos quantos são seus ingredientes.

É duro ser diabético nesta família… Ainda bem que a natureza me deu vinte e dois anos para aproveitar tantas comidas condignamente! E eu confesso que não perdi tempo. É bom ter apetite; é bom ter estas comidas ao nosso alcance, inda mais agora com as RECEITAS DE FAVITA à mão; é bom pertencer a uma família onde estas coisas são cultivadas e apreciadas e já vão passando através das gerações, como bem o atestam Myrinha, Nanda e outros membros mais do Clã. Parabéns para Favita!  Parabéns para nós todos! Bom apetite!

  1. Ao contrário das receitas, minha crônica vai digitada no computador, pois se eu resolvesse escrever à mão, vocês não entenderiam nada!
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Um comentário sobre “«Amarcord»  de sabores

  1. Movimentos, cores, cheiros, sabores, transmutações.
    A minha infância também é povoada de lembranças dos doces feitos em casa, sobretudo na casa da vó Morena, que morava na fazenda São Bernardo das minhas férias de verão e de inverno e de tantos fins-de-semana, então no município de Rio Pardo, hoje no Pantano Grande. (A vó Delfinha, vizinha em Cachoeira, fazia bem menos doces: era craque no arroz-doce e no sagú.)
    Tirando os doces de mamão e de banana, a vó Morena fazia e minha mãe Alzira e minhas tias Ruth e Jane ainda fazem muitos dos doces que lembras, ainda que menos frequentemente. Faziam também muitos dos doces de ovos que fui ver nas vitrines do Aveiro (ovos moles, fios de ovos, merengues) e outro que, a menos no nome, existe apenas no Rio Grande do Sul: Pinheiro Machado. Privilégio de quem mora em clima temperado, todo ano chegava a época da pessegada e da marmelada, companheiras de tacho da goiabada e da figada. Também não há como esquecer do doce de leite e da ambrosia, sempre com cravo e canela. E das geléias.
    Mas a feitura que mais me impressionava era a da puxa-puxa, por causa daquele prolongado estica-e-dobra que também fazia clarear para um tom de dourado a massa que antes fora rapadura e ainda escura era derramada do tacho sobre o enorme balcão de pedra da cozinha, num processo idêntico ao que, uns 30 anos depois, li como a receita para o caos –ao menos na descrição do Ian Stewart.

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