Um Pai por escolha

BRANDÃO(Dedicado à memória de José Garcia Brandão)

Do portãozinho do jardim, ainda o ouvi repetir: – que você seja feliz, que Deus lhe abençoe…

Entrei no carro depressa, com um certo pudor de que ele me visse os olhos molhados. E vim pela estradinha de terra, depois pela rodovia, gozando o privilégio de ter encontrado, em plena madureza, aquela especial figura de pai e amigo.

Havia, então, seis meses que não nos víamos. Ele estava doente, de câncer, com um prazo de vida indefinido pelos médicos, provavelmente curto. Acompanhava-o, entretanto, à distância, sabendo-o machucado pela moléstia, com o rosto alterado pela brutalidade da quimioterapia. Eu não queria vê-lo naquele estado.

Outra coisa, ainda, me mantinha distante. Eu rompera um casamento de muitos anos e tinha medo de que o afeto que ele sempre dedicara ao casal, não sobrasse para mimo, que trilhava agora outros caminhos. Ou que me recriminasse, por partir vínculos tão sagrados. Aquela visita me deixava um tanto angustiado, com medo da reação que ele pudesse ter.

Fui encontrá-lo na fazenda, onde poderíamos usufruir da privacidade que a casa da cidade, na qual a família, numerosa e comunicativa, com certeza não nos permitiria

Nada porém foi como eu temia. Recebeu-me com as honrarias de sempre. Mostrou-me as novidades no curral e  os chiqueiros reformados, o novo trator, o viveiro  para o qual havia adquirido um punhado de novos habitantes, desde porquinhos da Índia, para alegria dos netos, a uma rara cacatua, alem de galos e galinhas de polainas e crista caída sobre os olhos.

Era daquele tipo de pessoa que, mesmo condenado por uma doença maligna, mandava plantar mais dez mil pés de café, reformar a casa e povoar um novo viveiro. Além disso, trocara o carro por um mais novo e mais veloz.

Notei, naquele dia, que apesar da disposição em me exibir as benfeitorias, ele ofegava ao caminhar. Suava, talvez, um pouco mais que o costume. Ao transpor o rego dágua, não armou o costumeiro pulo, majestoso, que apesar dos setent´anos, ainda lhe permitiam as longas pernas. Antes, preferiu passar pela prosaica pinguela, destinada, naqueles passeios, apenas às mulheres.

Chamavam-nos para o café, preparado ritualmente pelas empregadas, uma tradição nas casas da cidade e da fazenda, desde o tempo em que ainda era viva a esposa.  Na mesa grande, três ou quatro quitandas diferentes, queijo de Minas feito em casa, é claro, o bom café plantado, torrado e moído ali mesmo. Na mesa, a sós comigo, dirigiu-me o olhar azul profundo, inquiridor, sem deixar de ser carinhoso: – e você, então…

Falou de um modo que me deixava livre, para interpretar e responder a pergunta como quisesse. Resolvi encarar pelo lado que, até então, evitara.

Abri-me, como nunca pensei ser capaz. Eu tinha com ele uma relação afetuosa e franca, mas, nunca antes me sentira capaz de confissões tão pessoais e íntimas.

Escutou-me calado, paciencioso. Creio que nem  perguntas fez. Apenas me deixou falar, sem qualquer gesto intempestivo. Quando percebeu minha loquacidade diminuída,  atalhou, bondoso: – vamos, ainda preciso mostrar muita coisa a você; aqui na fazenda não se pára nunca, tem sempre novidades…

Fomos aos cafezais e à nova gleba recém incorporada. Depois ao pomar de laranjeiras que começavam a ser substituídas por enxertos novos, por estarem caducas muitas delas. Mais uma vez estivemos no curral, para assistir a tirada vespertina do leite. E, principalmente, continuamos a conversa longa e macia que, entre ele e eu, mesmo com quarenta e tantos anos de diferença na idade, parecia nunca ter tido começo ou fim.

Era um final da tarde, de um mês de julho. O céu vermelho fazia como que um lençol contínuo com os morros recobertos de capim gordura. Esfriava. Eu tinha pela frente quase duas horas de estrada que me separavam de casa.

Na soleira da varanda,  abraçamo-nos, com um contato físico breve e um tanto duro, como era de seu modo. Por um momento, ficamos silenciosos e melancólicos, mas, principalmente, lembro-me bem, emocionados. Os olhos azuis tornaram a me fitar, com surpreendente profundidade e clareza. Disse-me, então: – meu filho, ninguém pode julgá-lo, muito menos eu. O importante, na vida é ser feliz. Siga seu rumo, se você já sabe que a felicidade lhe espera. Isso é o que importa, não o julgamento de alguém, seja lá quem for. Deus há de te abençoar.

E me fui, rumo ao poente, enxugando com as costas das mãos, repetidas vezes, as grossas lágrimas, já misturadas com a poeira vermelha da estrada. Havia no ar um  prenúncio de que talvez não tivéssemos outro encontro. Aquele pai, que  escolhi ou pelo qual fora escolhido, não sei bem ao certo, me abençoara. E com isso eu seguia aliviado, em busca da felicidade que merecia. E ela me pareceu, naquela hora mágica, uma busca que justificaria toda uma existência.

Não mais nos vimos. Três meses após minha visita, veio a falecer durante uma pescaria com amigos, no pantanal mato-grossense. Vi-o no funeral, com a face serena de quem confiara a alma ao espírito das matas, dos rios e dos peixes. Alegrei-me por ter meu amigo encontrado, daquela forma feliz, a libertação da doença e do sofrimento.

Brasília, outubro de 1994

 

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