Amigos

SIMON & GARFUNKELNo remotíssimo ano de 1960 cheguei ao Colégio Estadual de Minas Gerais, nos altos de Lourdes, em BH, para assistir minha primeira aula no ginásio. Eu senti que haveria muitas novidades pela frente, a mais marcante delas, naquele momento de adolescência, pelo menos, era o de poder freqüentar aulas de calças compridas. No Grupo Escolar elas eram curtas….

Pois bem, devo ter chegado meio tímido, afinal eu não conhecia ninguém ali. Meus colegas do primário haviam tomado outro rumo. Lembro que me sentei num canto da sala, tentando não chamar muita atenção e assim fui parar ao lado de um cara que parecia tão deslocado como eu. Logo puxamos conversa. Era um sujeito meio sisudo, com um cabelo que parecia começar logo acima dos olhos, mas que me pareceu ter um olhar cúmplice para mim.

Com pouca conversa fiquei sabendo que ele vinha de Curvelo, que tinha perdido o pai, que tinha vários irmãos, morava com mãe, avós e tias na via que então era conhecida apenas como “BR3”, hoje avenida Nossa Senhora do Carmo.

Em pouco tempo ficamos íntimos e nos agregamos numa mesma patota, ilustrada nas artes de gazetear e atormentar professores.

Logo nos primeiros meses de colégio entramos, primeiro eu e depois ele, para o grupo de escoteiros que lá existia, pelo qual passaram várias gerações. Mesmo com os olhos críticos de hoje, acho, sinceramente, que não éramos apenas “meninos vestidos de imbecis chefiados por um imbecil vestido de menino”. O escotismo foi fonte de muito aprendizado e de novas amizades para mim. Ali já pude perceber uma característica de meu amigo, permanente em toda a vida que levamos juntos, a de levar extremamente a sério as coisas que fazia. Eu não dispunha de disciplina nem de habilidades para os rituais do “sempre alerta”, ao contrário dele que, por assim dizer, “seguiu carreira”. Acho que ele continuou como escoteiro até mesmo depois que as pernas começaram a ficar cabeludas…

Meu amigo era uma das pessoas mais habilidosas que já conheci. Dominava de alto a baixo toda a seqüencia de nós especiais que aprendíamos nas reuniões de escoteiros, com a diferença que ele logo se tornava habilitado em todas as categorias da arte, enquanto eu – e outros – só faltávamos amarrar nossos próprios dedos aos cordões, de forma inextricável.

Tínhamos um ponto em comum. Aos quinze ou dezesseis anos (pois permanecemos colegas por todo o ginásio e colegial), éramos dos poucos que trabalhávamos formalmente, no horário da tarde, quando não tínhamos aula no Estadual. Eu em uma construtora e ele em um cartório onde um tio era tabelião. E era trabalho duro, que certamente lhe exigia muita atenção, aquela coisa de lidar com escrituras, testamentos, certidões. Apesar disso, era bom aluno (melhor do que eu) e um sujeito popular, mostrando que sua sisudez era apenas aparente, sempre disposto a uma brincadeira e dotado de notável bom humor, às vezes um tanto cáustico, mas sempre muito divertido.

Adorava botar apelidos nas pessoas e foi assim que ganhei dele um apelido que me acompanhou até a faculdade, mesmo que nesta época ele fosse o único a me tratar assim. A alcunha era “Bossa Nova” e dizia respeito a uma frase de uma modinha de Juca Chaves, na qual o personagem JK, o “Presidente Bossa Nova”, não fazia outra coisa se não “voar, voar, voar”. Eu já era, na ocasião, um distraído crônico, um daqueles garotos que hoje seriam taxados como portadores de “déficit de atenção”.

Com seus vencimentos de escriturário de cartório fazia compras para si que então me pareciam exorbitantes, embora invejáveis. Por exemplo, adquiriu certa vez um jogo completo de lapiseiras Pentel (que na época eram objetos de desejo), de todos os calibres e cores correspondentes. Mas tarde foi a vez de um gravador de fita, no qual passou a ser um ouvinte musical sofisticado, indo de Mozart ao jazz. E democratizando totalmente o seu conhecimento e o seu domínio tecnológico, inusitado para nós. Depois  passou a colecionar ferramentas elétricas e manuais, todas de marca excelente. E com elas fazia delicadas peças de marcenaria, como peças de xadrez, aí incluído um rolo de pastel que ele ofereceu à minha namorada às vésperas de nosso casamento, com instruções para o bom uso da peça, não exatamente na cozinha, mas na minha cabeça, caso eu andasse em falta com os deveres de companheiro.

Separamo-nos no derradeiro ano do colégio. Eu fui para o Colégio Universitário da UFMG, recém inaugurado; ele resolveu não encarar a novidade, permanecendo no velho Estadual. Um ano depois, entretanto, estávamos juntos de novo, na velha Faculdade de Medicina da Avenida Alfredo Balena.

Retomamos alguns hábitos do escotismo nesses anos. Acampamos algumas vezes, por exemplo, na Serra da Piedade, em pleno mês de junho, num frio de lascar. Fomos salvos parcialmente pela bondade de um frei dominicano que alia vivia como ermitão e que nos ofereceu uma sopa quente à noite, além de um lugar para dormirmos, pois a ventania a 1800 m de altitude não nos permitia armar a barraca. Menos mal, mas que noite aquela, num velho galinheiro abandonado, no porão da ermida da Piedade. Abandonado pelas galinhas, é bom que se diga, pois os quase invisíveis piolhos-de-galinha lá abundavam, provocando-nos uma urticária que durou semanas a fio! Mas a aventura foi, sem dúvida, foi inesquecível, para o bem e para o mal.

Uma dessas excursões foi especial. Corria o ano de 1968 e fomos os dois amigos e mais dois colegas passar uns dias de férias no sítio da família de um destes, em Caeté. Nossos papos iam pelo dia a fora e pela noite a dentro, variando de histórias escabrosas, em cujo conhecimento éramos mestres, até altos papos-cabeça sobre literatura e filosofia. Para situar os leitores: a trilha sonora da época estava todo no long play Sgt. Pepers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles – e seu conteúdo também nos provocava discussões intensas, seja favoráveis ou contrárias, intermináveis, embora sem muito aprofundamento, dado o parco conhecimento do idioma inglês de que dispúnhamos na ocasião. Obladi-obladá! Mas o tom mais marcante da temporada foi dado por meu amigo e eu, leitores recém adentrados nos sertões e veredas de Guimarães Rosa. Nisso fazíamos bonito frente aos outros companheiros e até os humilhávamos um pouco, pois sabíamos de cor trechos inteiros da obra. Com o tempo começaram a se encher e implicar conosco, pois passamos a conversar num “sertanês” riobaldiano quase incompreensível para os outros dois, não iniciados.

De outra feita fomos a Marataízes, ficando hospedados em uma casa de sua família lá. Caramba, o cara também conhecia todas as manhas dos peixes e pela primeira vez na vida pude pescar no mar, é bem verdade que postado na praia, mas com grande proveito, levando para casa fiadas de bagres que ele, bom cozinheiro que era, preparava de diferentes maneiras.

Meu amigo quase virou meu parente, por namorar uma prima minha durante algum tempo. Mas talvez fosse uma daquelas coisas que não eram para dar certo mesmo.

Tínhamos planos ousados, para depois de formados, quando sonhávamos comprar uma Rural Wyllis (o supra sumo off road da época) para fazermos uma espécie de rali pela Belém-Brasília e Região Amazônica. Eram anos pós JK e de “milagre”: o Brasil estava sendo redescoberto. Isso ficou só no sonho, pois a vida acabaria por colocar distância, pelo menos física, entre nós, com o término da faculdade. Mas valeu pelos momentos de fantasia e conversas sem paradeiro que tal sonho nos proporcionava.

E foi assim que formamos em medicina, já tendo escolhido caminhos diferentes para a vida profissional. Meu amigo, com seu espírito organizado e perscrutador optou pela ciência básica, tendo feito uma sólida formação em Bioquímica, na Meca paulistana, USP ou Butantã, se não me engano. Virou cientista. Eu fiquei em BH mais algum tempo, me casei (ele foi meu padrinho de casamento), fiz residência e fui ser médico clínico, me mudando logo para o interior.

O resumo da história é: devo tê-lo visto pela última vez logo depois de nossa formatura, em 1971 ou 1972, em escassas ocasiões. Depois nunca mais.

Hoje recebi a notícia de sua morte, em um acidente, ocorrida há poucos dias.

Tudo isso que acabo de escrever pode parecer uma memória pobre, recheada de histórias sem muito nexo ou substância, de interesse restrito a mim, que começo a perceber que o passado vai tomando conta de minha vida cada vez mais. Principalmente quando um amigo se vai, o que está se tornando desagradavelmente frequente ultimamente. Mas pelo menos quero registrar aqui que me foi dada a honra de ter conhecido, convivido e aprendido com Dalton Luiz Ferreira Alves.

Meu amigo, que pressa é essa! Espere por mim e por nós todos que lhe acompanhamos em vida!

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