Homofóbico, eu?

ARCO IRISAmigo, se respondo sua mensagem não é por retaliação ou algo assim. Muito ao contrário é para agradecer a gentileza de ter comentado a minha, ainda mais com inteligência e sensibilidade, coisa rara neste momento em que “irmão desconhece irmão”, como diz Paulinho da Viola. Não que algum irmão tenha me desconhecido, mas a falta de qualquer resposta da família, salvo as honrosas exceções de você e de minha irmã, pode ser um indicativo de a que ponto chegamos nessa polarização infeliz a que a campanha de 2014 nos empurrou.

Mas você, não. Você compareceu e se dispôs ao debate – e é isso que valorizo!

Acima de tudo o que escrevo agora talvez seja mais para mim, para ter clareza a respeito de certos pontos de vista meus, mais do que realmente para interlocutores.

Pois bem, vamos lá.

Eu não tenho antipatia ou sentimentos negativos contra homossexuais. Ao contrário, eu os respeito e defendo, tanto quanto aos garimpeiros do Madeira, aos moradores de rua do Anhangabau, aos posseiros do Paranapanema, aos seringueiros do Purus, aos anões albinos…

E assim deve ser em relação a todas as minorias na Democracia, para que a maioria não usurpe sua condição majoritária e não os sufoque ou persiga.

Mas veja bem. Se um gay apanha ou é morto na Praça da República, o mundo vem abaixo. E deve vir mesmo – nada mais correto. A questão é: se no quarteirão ao lado um mendigo é queimado, se um jovem negro é baleado pela PM, ou se um Sem Terra é emboscado por capangas no Pará, o mundo vem abaixo igualmente? Não vem. Tudo merecerá notícia na página policial dos jornais. Mas alguns crimes parecem ser mais “crimes” do que outros.

Homofobia existe. Mas o que dizer da “fobia” contra pobres, contra negros, contra os diferentes e divergentes em geral, que existe em nossa sociedade?

A meu ver, a sociedade brasileira não é homofóbica; é violenta! Ou pelo menos compactua serena e cordialmente com a violência. Morre em acidente um jovem em Ipanema e todos se comovem; morrem 10 jovens pobres numa chacina na periferia e todos acham normal.

Isso então significa, então, que deveríamos “criminalizar” a tal da homofobia? E as outras formas de “fobias”, não mereceriam, cada uma delas, um pacote normativo específico?

A resposta é não! Existem leis no Brasil e uma delas, o Código Penal, é suficientemente abrangente na penalização da violência, seja ela contra brancos ou negros; ricos ou pobres; gente da zona sul ou da periferia; hetero ou homoafetivos; jovens ou velhos; mulheres ou homens; sulistas ou nordestinos etc.

O problema é que, por algum motivo (que não sei bem qual é, embora suspeite..), o poder de vocalização de alguns grupos é imensamente maior do que o de outros – e isso não tem a ver com a dimensão quantitativa da “minoria” a que pertencem. Tem a ver com fatores simbólicos. Talvez alguém mais crítico falasse até de uma “homofilia” que se antepõe, reativamente, à tal “homofobia”. Isto é tema para antropólogos, filósofos e sociólogos – não me atreverei a ir além. Uma frase que sintetiza tal dilema, ouvida de Adib Jatene, com quem trabalhei nos anos 90: “o grande problema do pobre é só ter amigos pobres”.

E o que o PT, partido de sua simpatia, tem a ver com isso tudo? Diretamente, nada. Mas penso que na verdade seus dirigentes e intelectuais têm, sim, alguma responsabilidade, não por terem criado, mas por incentivarem – e muito – ao longo de seus governos uma “lógica de militância”, que não tem muito a ver com o interesse coletivo real. Isso em si poderia ser um fato auspicioso, que nos remete a exemplos históricos espetaculares. Mas o problema é que nem tudo é assim tão brilhante neste terreno. A “lógica de militância” divide o mundo em pedaços e, a partir daí, confunde “o mundo”, em sua totalidade, com cada “pedacinho” que se cria a partir dele… Essa turma não costuma admitir meios-termos, funcionando muito na base do preto no branco e do “oito ou oitenta”. Não costuma ver, ainda, o “outro lado” que existe em quase tudo que seja obra humana, apesar de exemplos históricos que saltam à vista. Aliás, “história”, para os militantes típicos, é algo que deve ser considerado apenas se mostrar argumentos favoráveis àquilo pelo que se milita; caso contrário, passa por mero produto de manipulação de militantes contrários ou, de forma mais genérica, “deles”, dos “homens” – espécie de entidade mítica demonizada no mundo militante.

Tomo exemplos retirados de meu campo de atuação. Na saúde, é bastante curiosa como a lógica dos militantes identifica os que necessitam da ação do sistema de saúde, indicando, um a um, os beneficiários pelos quais se milita: mulheres, crianças, idosos, população negra, população indígena, comunidades quilombolas, populações do campo e da floresta, ribeirinha, LGBT, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiências, patologias e necessidades alimentares especiais. A lista contempla até os ciganos. Nada contra estes últimos, é que não sei exatamente qual o problema de saúde específico que detêm, salvo o fato de que muitos deles (acho que nem todos) são pobres e, portanto, simplesmente portadores de carências que coincidem com aquelas reclamadas pelo conjunto igualmente pobre da nação. Mas a pergunta que se recusa a calar é: precisaria existir uma política específica para cada grupo?

Agora, se é pra falar de pensamento conservador vamos falar de quem realmente tem significância neste campo, o que não é o caso do bufão que atende por Levy Fidelix. Falemos de Bolsonaro, que teve quase 500 mil votos. Este sim, é de direita! Maldito, aliás, bendito Bolsonaro, que marca terreno na política brasileira onde todo mundo se diz de esquerda, Dilma e Aécio incluídos.

Fique tranquilo, não votarei nunca no Bolsonaro, apenas pego o exemplo para reduzir este Fidelix – lembrado por você – à insignificância que lhe é genética e de onde não deveria ter saído.

Em resumo, numa certa idade – e principalmente vivendo no mundo em que vivemos – a gente acaba por abandonar e até menosprezar os antigos rótulos de “esquerda” e “direita”, “progressista” e “conservador”, “politicamente correto” ou “incorreto”, em troca de algo que pode não ser nada operacional, mas nos permite um pouco de paz com a consciência: tentar ver o mundo de forma independente, com olhos abertos e a mente liberta dos rótulos e dos preconceitos.

Se quiser botar pra circular esta minha “pensata”, fique á vontade.

Com respeito e carinho.

 

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