Gente notável…

DRUMMOND E AMIGOSEm uma obra tão despretensiosa como notável, “Livro Aberto”, que li há alguns anos atrás, Fernando Sabino relata uma reunião ocorrida em certo restaurante da orla carioca, não sei se no Flamengo ou em Copacabana. Iam anos 50 em seus meados e raiavam grandes tensões, mas também luzidias esperanças, no horizonte do Brasil. Naquela mesa de bar estavam, simplesmente, adivinhem quem?

Além do próprio Sabino, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jayme Ovalle, possivelmente Oto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos. É pouco? É que ainda não falei do personagem central, em torno do qual toda essa turma estava reunida: Pablo Neruda… Já basta, não é?

Mais ou menos na mesma época, li outro livro marcante, o memorialístico “Viver para Contar”, do igualmente notável Garcia Márquez. Neste, ele exercita sua costumeira arte de capturar irremediavelmente o leitor logo nas primeiras páginas. Devo dizer, aliás, que a mim ele capturou logo na primeira, ao narrar seu reencontro com a mãe, que viera a Bogotá à sua procura, após ter saído de casa, pouco mais que um adolescente. Mas isso é outra história e não é apenas ela que une, para mim, Sabino e Márquez. Já explico.

Recordando e contando o que viveu, Gabo fala de sua vida de estudante na agitada Bogotá dos anos 40 e 50, com multidões na rua por da cá aquela palha e milicos golpistas sempre à espreita – creio que, pelo menos, não existia ainda o narcotráfico, seja em sua face cartelista ou guerrilheira. Uma das lembranças contadas, daquela época, foram os colegas que com ele conviveram em um colégio público da capital colombiana: nada mais que dois ou três que chegaram a Presidente da República, outros tantos que se destacaram no jornalismo, na literatura e em outras artes. E, de quebra, um Prêmio Nobel…

Fato parecido é a coexistência, dentro dos mesmos muros da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, nos últimos anos da década de 20, de ninguém menos que Juscelino Kubitschek, Pedro Nava e João Guimarães Rosa. Quem sabe tomaram algumas boas cervejas em torno de uma mesa de bar na ocasião? Bom tema para historiadores ou romancistas…

Tanta gente especial reunida, na mesma época, na mesma escola e até numa simples mesa de bar… Coisas assim me fazem pensar se isso ainda seria possível nos dias atuais. Não sei se meus leitores concordariam, mas tenho, para mim, que fatos deste tipo só podem ter acontecido em tempos e lugares hoje perdidos e remotos. Somos tantos hoje, espalhados por tantas paragens, com interesses tão diversos e de significado que mal ultrapassam as nossas fronteiras individuais, que só nos cabe compartilhar nossas irrelevâncias. Só mesmo através dos facebook e orkut é que podemos descobrir as presenças de gente que estudou com a gente, que um dia esteve conosco na mesma festa ou que participou daquela excursão a alguma praia, da qual nem nos lembramos mais. E ainda aparecem aqueles que nos chamam de “família” e em torno dos quais somos convidados a eventos festivos, só por terem o mesmo sobrenome nosso (até “Silva” vale…)…

Fico com o sentimento de Chico Buarque, na Roda Viva: “a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?” De qualquer forma, não deve ser algo sobrenatural, derivado das mudanças do eixo ou da expansão do campo magnético da terra. Talvez seja apenas uma relíquia pequeno-burguesa, de um tempo que um grupo afluente – de bem poucos, na verdade – freqüentava as mesmas escolas, os mesmos bares.

Com foco nisso, me pus a pensar sobre os famosos com quem tive a honra de compartilhar bancos escolares e botecos. Eita, aí fiquei “estancado” mesmo… Lembrei-me, por exemplo, de um que virou político, mas que cujo feito mais notável foi o de ter inventado o mensalão, muito antes dos que levaram a culpa toda. Outra, era filha do Governador de Minas, naquela boa época em que a elite e a classe média freqüentavam a mesma escola. Mas, pelo que ouvi dizer, casou-se com o filho de um Presidente da República – e não sei o que mais tenha feito de notável. O outro matou a mulher numa crise de ciúmes, um crime que horripilou a BH dos anos setenta. Nem cadeia pegou… Esqueçamo-lo. O outro virou artesão de calçados, ficou famoso no bairro em que morava, depois em toda a cidade, depois simplesmente sumiu. Mais irrelevante, impossível. Teve um que virou cineasta, mas, sinceramente nunca vi um filme seu e desconheço qualquer um que tenha assistido.

Minhas buscas se encerrariam por aí e eu me recolheria à minha notável irrelevância, quando algo se anunciou, abruptamente. Na campanha eleitoral para Presidente da República, a candidata que hoje nos dirige os destinos, divulgou em seu currículo o fato de ter estudado em escola pública, em Belo Horizonte, nos anos 60, mais exatamente no Colégio Estadual de Minas Gerais (o antigo “Central”, hoje Milton Campos). Como Dilma e eu temos a mesma idade e eu também estudei ali na mesma época, concluí que tive ao meu lado, nos meus bancos escolares, uma personalidade de naipe exclusivo. O detalhe é que, juro, eu realmente não me lembro dela. Como disse um amigo meu; “deixa de ser fiel à pura verdade e espalhe por aí que foram amigos, que tiveram até um namorico, ninguém vai contestar”. Qual nada… Mas de certa forma, foi ela quem me trouxe à cena principal, ao publicar sua biografia escolar. Não fui eu quem o fiz, portanto… Assim é que fiquei quites com Fernando Sabino e Gabo Márquez, passando também a tomar parte de tal seleto clube… Sorry.

Sobre a foto acima, encontrei na internet, proveniente dos arquivos da família de Cyro dos Anjos. Ela me parece significativa quanto ao tema aqui exposto. Seus personagens: Drummond, Alphonsus de Guimaraens, Pedro Nava e Cyro dos Anjos.

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