Questões de Gênero

MACHADO DE ASSISMARIO DE ANDRADEQuestões ligadas a gênero e sexualidade parecem ter entrada na pauta da imprensa, da política, das conversas banais apenas em anos recentes. Mas na verdade elas são antigas, no mínimo reveladas na obra de Freud e até, quem sabe antes, através dos gregos antigos. Sobre isso não poderia dizer quase nada, pois careço de maior conhecimento.

Dois dos maiores escritores brasileiros se ocuparam de tais temas: Machado de Assis e Mario de Andrade. Acreditam? Ainda não tive oportunidade de ler alguma análise sobre isso, será que ela existe? Pode ser que não tenha visto os textos certos e nem tenha participado de audiências adequadas. Mas tudo bem, não pretendo ser original em tal assunto. Mas compartilho com meus leitores alguma informação.

Machado começa o conto em foco, “As Academias de Sião”, com a ironia de sempre: “Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro…”. Assim é que tais institutos se viram envolvidos em resolver um “singular problema: – por que é que há homens femininos e mulheres masculinas?

Na origem da questão a índole do jovem rei local, Kalafangko, “virtualmente uma dama”, com seus “olhos doces, voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas”.

Mas eis que uma das ditas academias, parece, acha a solução do problema, ao considerar que algumas almas seriam masculinas e outras femininas, concluindo, assim, que o se observa na realidade “uma questão de corpos errados”.

Isso chega aos ouvidos da bela Kinnara, a rainha, uma mulher máscula, que tinha por esposo um homem feminino. “Um búfalo com penas de cisne”. E tal búfalo, transmutado em cisne é que pede ao rei, entre carícias, que legitime a tal doutrina da “alma sexual”, no que é atendida. Por trás disso “um plano engenhoso e secreto”, sussurrado bem de mansinho ao Rei, certa noite especial: “Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas … Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos…”.

Por artes de um velho bonzo, Kinmara consegue seu intento. E a Rainha virou Rei – e vice versa. Deixemos Machado contar como foi:

“A primeira ação de Kalafangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalafangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. […] Feito isso, cuidou Kalafangko da fazenda pública, da justiça, do culto e do cerimonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para falar como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularizou. A justiça e a legislação tiveram grandes melhoras. Construíram-se novos Pagodes; e a religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalafangko, copiando as antigas artes espanholas, mandou queimar uma dúzia de pobres missionários cristãos que por lá andavam…”

Pura ironia do mestre. Como ele era bom nisso!

Como termina esta estória? É hora dos leitores que ainda não conhecem ir direto ao texto, que aliás  pode ser acessado de graça na web: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/asacademiasdesiao.htm.

Por ora, o que posso dizer é que Kalafangko engravida. Ou seria Kinmara… Andem lá, gentis leitores. Deixem a preguiça de lado.

Mario de Andrade, ainda nos anos 30, nos legou um belo conto, chamado simplesmente de “Frederico Paciência”. Querem conhecê-lo? É simples, vejam em https://pt.scribd.com/doc/59242228/Mario-de-Andrade-FREDERICO-PACIENCIA-in-Contos-Novos. Gratuitamente!

Assim começa: “Frederico Paciência… Foi no ginásio… Éramos de idade parecida, ele um pouco mais velho que eu, quatorze anos. Frederico Paciência era aquela solaridade escandalosa. Trazia nos olhos grandes bem pretos, na boca larga, na musculatura quadrada da peitaria, em principal nas mãos enormes, uma franqueza,uma saúde, uma ausência rija de segundas intenções. E aquela cabelaça pesada, quase azul, numa desordem crespa. Filho de português e de carioca. Não era beleza, era vitória. Ficava impossível a gente não querer bem ele, não concordar com o que ele falava.Senti logo uma simpatia deslumbrada por Frederico Paciência, me aproximei franco dele, imaginando que era apenas por simpatia”.

E mais adiante: “Agora falávamos insistentemente da nossa “amizade eterna”, projetos de nos vermos diariamente a vida inteira, juramentos de um fechar os olhos do que morresse primeiro. Comentando às claras o nosso amor de amigo, como que procurávamos nos provar que daí não podia nos vir nenhum mal, e principalmente nenhuma realização condenada pelo mundo. Condenação que aprovávamos com assanhamento. Era um jogo de cabeças unidas quando sentávamos pra estudar juntos, de mãos unidas sempre, e alguma vez mais rara, corpos enlaçados nos passeios noturnos. E foi aquele beijo que lhe dei no nariz depois, depois não, de repente no meio duma discussão rancorosa sobre se Bonaparte era gênio, eu jurando que não, ele que sim. […] Frederico Paciência recuou, derrubando a cadeira. O barulho facilitou nosso fragor interno, ele avançou, me abraçou com ansiedade, me beijou com amargura, me beijou na cara em cheio dolorosamente. Mas logo nos assustou a sensação de condenados que explodiu, nos separamos conscientes. Nos olhamos no olho e saiu o riso que nos acalmou. Estávamos verdadeiros e bastantes ativos na verdade escolhida. Estávamos nos amando de amigo outra vez; estávamos nos desejando, exaltantes no ardor, mas decididos, fortíssimos, sadios.”

Isso foi na década de trinta, leitores, não se esqueçam. Imaginem como o mundinho paulista e brasileiro não deve ter reagido…

O final? Querem saber do final? Só posso dizer que não foi feliz. Nem infeliz, talvez. O melhor é correr a ler o conto, primoroso tanto na forma, como no conteúdo. Bom proveito!

Moral da história: muitas coisas já vem sendo cozidas ou cerzidas muito antes do que damos conta…

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3 comentários sobre “Questões de Gênero

  1. Um entrevistado, na TV, disse que a homossexualidade está descrita pela Medicina como desvio psiquiátrico. É verdade?

  2. Acho que isso é coisa superada, pelo menos entre pessoas, grupos e nações civilizadas. Alguns insistem em posições contrárias, como por exemplo os islâmicos e os evangélicos pentecostais…

  3. Pingback: Um Machado Erótico | Vereda Saúde

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