Um Machado Erótico

machado-de-assis-2O Machado de que falo aqui, gentil leitor, nem de longe é aquela tosca ferramenta de cortar lenha e árvores. Seus usos eróticos talvez pudessem ser demonstrados em algum livro do Marquês de Sade. Mas o que trago aqui é o outro. Joaquim Maria Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Como todo bom brasileiro ou mediano falante e leitor da língua portuguesa, sujeito razoavelmente letrado que sou, acho que teria obrigação de conhecer bem ao Machado de Assis. E tê-lo lido muito. Confesso que ainda estou devendo isso à minha biografia. Mas também, em minha defesa, devo admitir que ultimamente tenho embarcado, com gosto, em prazerosas viagens com o Mestre. No momento, ando empolgado com seus contos, que tenho visitado na primorosa edição dos “50 Contos de Machado de Assis”, organizada por John Gledson, editada pela Cia. das Letras em 2007.

Tenho descoberto coisas incríveis nesta coletânea. O reencontro com O Alienista nem precisa ser comentado. O conto – ou seria uma novela – é de uma genialidade em estado puro. E quanta ironia e crítica social! Neste território, como em outros próximos, Machado é imbatível.

Uma dessas pérolas que descobri – melhor dizer, que me foi oferecida – é o texto de As Academias de Sião. Nele o Bruxo introduz, com pelo menos cem anos de antecedência na sociedade brasileira, a discussão da distinção entre Gênero e Sexo. Escrevi sobre isso aqui mesmo no blog (para ver o texto, acessem https://veredasaude.com/2016/06/27/questoes-de-genero/).

Na mesma linha, encontrei recentemente dois belos exemplares de literatura, agora erótica, da lavra do mesmo Machado. Nada explícito, claro, afinal de contas o homem escrevia em pleno século XIX. É o mesmo dilema enfrentado por artistas iranianos ou chineses, por exemplo, que para fazerem seus filmes, quadros e escritos têm que se fazer passar despercebidos pelas diversas formas de coerção e censura social que vigoram em seus países. No Brasil do século dezenove era bem assim – e olha lá se muitas dessas coisas não estarão de volta entre nós.

O primeiro desses contos, uma pequena pérola, denominado Uns Braços, narra as desventuras de um jovem de 15 anos, Inácio, abrigado na casa de um rábula ranzinza e grosseiro, para aprender com ele as manhas do ofício, por determinação do pai, que era amigo de Borges, referido como o “solicitador”. Este Borges vivia em concubinato com D. Severina, mulher “nem bonita nem feia”, mas de toda forma apresentada como estando no auge de “vinte e sete anos floridos e sólidos”. Corria o ano de 1870 e o local, como sempre, era a cidade do Rio de Janeiro, com seus sobrados, paisagem, escravos e tudo mais.

Inácio, timidamente, começa a prestar atenção em certa parte do corpo de Severina, em cena assim descrita por Machado: “belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa do que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar, mas é justo explicar que ela não os trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas”. Não leitor, não são os seios de D. Severina que estão sob a mira gulosa do adolescente Inácio, mas sim os braços da dona da casa. Sim, os braços! No século em questão, isso já era prá lá de prá frente…

Inácio não resiste, mas só intimamente, pois sua timidez e sua posição subalterna na casa não lhe permitiriam maiores arroubos – pelo menos por enquanto. E o autor fala que ela acaba “agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, suas tendas de repouso. Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços”.

Sentem a carga de erotismo reprimido que isso provocava no pobre rapaz?

Mesmo com tanta contenção, D. Severina começa a perceber que naquele olhar e naquela falta de jeito contumaz havia coisa. Mas afastava qualquer mau pensamento com uma expressão repetida ao longo de toda narrativa: “é uma criança”. Até que um dia Severina descobriu que entre o nariz e a boca da pretensa criança havia um “rascunho de buço”. E ela, então: “que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outros, tudo eram sintomas, e concluiu que sim”. E mais adiante ela finalmente se convence que realmente era amada e também temida pelo rapazinho, portador de um “amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer a si mesmo”. Aqui fala um verdadeiro mestre, da mais refinada psicologia.

Severina, aos poucos, muda seu modo de tratar Inácio. Da rudeza inicial, passa a ter com ele brandura, desvelo e carinho, preocupando-se, por exemplo, com suas horas de sono e com sua alimentação. Coisas de mãe ou de amante…

Surge então o desfecho, em um domingo inesquecível, dia maravilhoso que a natureza do Rio oferecia generosamente naquele tempo; não apenas um “domingo cristão, mas um imenso domingo universal”. Inácio, na janela de seu quarto no sobrado de Borges, olhava o mar e a montanha, que lhe evocavam “a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina”, ao mesmo tempo em que se divertia e devaneava com o vôo das gaivotas.

Da janela, Inácio foi para a rede e ali adormeceu. Borges sai de casa para cuidar de seus afazeres e Severina acompanha meticulosamente seus passos, até que ele desapareça ao longe, “no caminho da rua das Mangueiras”. A porta do quarto do mocinho estava escancarada e ele mergulhado em sono profundo. “Seus olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e beatitude” encantam Severina. “Uma criança!’, ela ainda é capaz de repetir, sem maior convicção agora, ”naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco”. E ela, “continuou a vê-lo dormir, dormir e talvez sonhar”.

O desfecho do conto é inimaginável, em termos de erotismo, embora resguardado, mas principalmente de poesia: “Que não possamos ver os sonhos uns dos outros. D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas, cálidas, principalmente novas – ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. […] E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que, inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.”

Inácio é despedido da casa em seguida, sem balbúrdia e sem violência. Artes sábias de uma mulher que sabia ser impossível aquele amor? O marido, certamente, nunca saberia de nada.

Para o pobre Inácio, que teve breve companhia em seu sono de uma tarde de domingo, “não importa, levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na rua da Lapa, quando ele tinha 15 anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:  – E foi um sonho, um simples sonho!”

O outro conto de sabor erótico, Missa do Galo, tem estrutura relativamente semelhante. Aqui Nogueira, um jovem provinciano de 17 anos vem ter ao Rio para estudar. É abrigado por um primo-torto, Meneses, um sujeito obtuso e sistemático, além de adúltero, de profissão escrivão. Conceição é a esposa de Meneses, também tem uma beleza apenas média, mas é considerada uma “santa” pela família, por suportar sem reclamar as puladas de cerca rigorosamente semanais do escrivão.

Todo o conto se passa dentro de um intervalo de uma hora, entre as onze da noite e a hora da Missa do Galo, ocasião em que Nogueira deixa-se estar na sala do casal, para ler um pouco, enquanto esperava um vizinho passar para acompanhá-lo à igreja. A premência de tempo, como se verá, faz parte do enredo, ao acrescentar urgência ao que possivelmente deve ser feito – embora só aconteça de forma platônica, mas com certeza muito significativa entre o jovem e a dona da casa.

Enquanto Nogueira espera a hora da Missa do Galo, Conceição, que supostamente já dormia, aparece no recinto e puxa conversa com ele. De cara, uma sensação de ambiguidade se instala no ambiente, pois o moço duvida de sua afirmativa de que de fato dormia – “os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir, parecia não ter ainda pegado no sono”, admitindo, porém, que ela “talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para não me afligir ou me aborrecer”.

Conceição revela-se exímia conversadeira e Nogueira não lhe fica atrás. Naquela breve hora passaram a palrear intensamente, falando um pouco de tudo: de literatura, de sono, de sonhos, de costumes individuais deles, da vida na cidade, das festas religiosas, de decoração doméstica… Uma doce intimidade vai se instalando entre os dois. É bom lembrar que Meneses estava fora de casa, seguramente para “bater o ponto” na casa da amante.

O próximo passo é a atenção de Nogueira no jeito de Conceição, com foco especial no corpo da mulher. “Vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos”. “Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo, essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite”. “Pouco a pouco tinha se inclinado, ficara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros e menos magros do que se poderia supor”.

A esta altura, o jogo da sedução estava em plenitude, com ambos os contendores se mostrando em uma dança na qual, se não havia grande movimento corporal, havia palavras, muitas palavras. Comenta Nogueira: “falava emendado os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo”.

Para fomentar ainda mais o “clima”, Conceição reiteradamente pedia que Nogueira falasse bem baixo, para que não lhe acordasse a mãe, a dormir em cômodo vizinho. Com isso, não só um quê de conspiração de instalara na sala, mas também obrigava o casal a falar quase sussurrando, com o rosto cada vez mais próximo um do outro. Eros rondava por ali e suas flechas certamente estavam bem afiadas…

Nogueira não poupa adjetivos ao lembrar daquela noite, tão breve. “Há impressões dessa noite que me parecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que para mim era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira…

E por aí vão as coisas, sem consumação de nenhuma espécie, como no caso do conto anterior, até que o vizinho aparece para irem juntos, ele e Nogueira, à tal Missa do Galo.

E são de Nogueira as lembranças que encerram o conto: “Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isso à conta de meus dezessete anos. […] Durante o dia [seguinte], achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo ano bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que se casara como escrevente juramentado do marido.

Sem consumação, mas com uma carga enorme de erotismo, a meu ver. Não importa. Mas o clima é aquele que Drummond mais tarde descreveu como o “das coisas findas, muito mais que lindas” – as que de fato ficam, como ficaram na memória do jovem Nogueira.

 

 

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