A filha de Seu Jorge (ou, O dia em que eu conheci Elke Maravilha)

 

ELKEAnos 50, eu tinha nove ou dez anos e certo dia, ao chegar da Escola, dei com o inesperado na sala da casa onde minha família morava, no bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte.

Uma família inteira estava, por assim dizer, acampada ali, com malas, caixas e até mesmo sacos por toda parte. O pai havia saído para tomar providências, só o vi mais tarde e depois falo dele. A mãe era uma matrona loura e corpulenta, de um tipo físico completamente exótico, que somente muito depois compreendi ser de natureza germânica. Falavam outra língua, pelo menos entre eles. Mas as crianças…

Eram três. Um pequetito, talvez nos seus quatro anos, se muito, figurava doença aguda, a inspirar permanentes cuidados da matrona. Encatarradíssimo, febril, choraminguento, tinha um aspecto miserável, em que pesassem seus cabelos louros, quase brancos e as bochechas muito vermelhas. Vestia um pijaminha de flanela bastante puído e sujo, com marcas evidentes da longa viagem que o trouxera até ali.

A menina do meio talvez fosse da minha idade. Por alguma razão me marcou pouco, a não ser pelo linguajar incompreensível, que mantinha com a mãe e os dois irmãos. Se falou alguma coisa em português – pode ser que tenha falado – não me recordo mais. Lembro-me apenas que a coitadinha tinha perebas por todo corpo, mas parecia não sofrer e nem mesmo se dar conta disso

A filha mais velha, esta sim, era uma figura marcante. Loura, alta, esguia. Os cabelos lhe batiam na cintura.  Gestos enérgicos de quem dispunha, na família, do estatuto de uma segunda mãe para os irmãos mais novos. Teria seus 15 anos, talvez. Vestia-se de chita, bem à brasileira, mas com aquele porte e o longo cabelo louro, lembrava uma camponesa européia, se não uma personagem de contos de fadas. Melhor dizendo, parecia um anjo – e agia como tal, socorrendo e consolando os irmãos mais novos, adoentados. Foi por poucas horas, lamentavelmente, que a vi de perto, mas aquela imagem me marcou por muitos anos.

De onde vinha aquela gente, chegada assim tão de repente em nossa casa? Logo minha mãe esclareceu o fato inusitado. Era uma família cujo pai era amigo de um dos meus tios, tinham trabalhado juntos no passado, em Itabira, e eles, vindos do Norte de Minas, agora rumavam para São Paulo, para tentar uma sorte melhor por aquelas bandas. Estiveram conosco não mais do que uma parte de manhã e uma tarde, depois seguiram seu destino, pegando o trem da Central do Brasil, que ainda circulava entre BH e Sampa naquela época.

O pai, Jorge, de nome provavelmente aportuguesado, havia morado em Itabira por algum tempo, onde conheceu meu avô e outras pessoas da família. Eram imigrantes europeus, judeus, talvez; russos, depois se soube; fugidos do nazismo, do estalinismo ou da grande guerra – quem saberia dizer? Seu Jorge era agrônomo de profissão e foi nessa condição que arranjou colocação em Itabira, onde, como se sabe, havia diversidade econômica antes que a Vale tomasse conta de tudo e instaurasse a ditadura da mineração. Além de sua formação agrícola, o homem era muito culto, conhecia de tudo um pouco e tinha um lado empreendedor, inquieto, bastante marcante em sua personalidade e que influenciou bastante sua vida. Tanto que saiu de Itabira, foi para o norte, depois para São Paulo. Entre a Rússia e Itabira deve ter tido, certamente, outras tantas passagens.

Pois bem, resumindo a história não os vi mais, pelo menos de perto e tive bem poucas notícias deles. Aqui minha crônica entra numa espécie de ramificação, mas fiquem tranqüilos os leitores que mais adiante os caminhos se encontrarão…

Corriam os anos 60. Belo Horizonte começava a tomar ares de metrópole, mas arrastando ainda certos grilhões provincianos. Uma dessas coisas anacrônicas era uma espécie de concurso de beleza e simpatia (nada de misses de maiô!) ao qual se dava o colonizado apelido de “glamour girl”. Na época, eu talvez não me interessasse por colunas sociais, mas já apreciava, bastante, aliás, a visão de uma linda mulher.  E em um daqueles anos dourados, ao som dos Beatles e da Bossa Nova, apareceu uma girl especialmente cheia de glamour: louríssima , muito alta, esbelta, olhos azuis faiscantes, poliglota, intelectualmente muito articulada, determinada, cheia de personalidade. Em quase tudo lembrava meu anjo da infância. Não se falava em outra coisa na Belzonte provinciana de então.

Um belo dia o segredo me foi revelado. Minha mãe, ao ver aquele anjo no jornal ou na TV, comentou: “mas esta é a filha de Seu Jorge; vocês se lembram, ela esteve conosco, junto com a família, aqui em casa há alguns anos atrás?” Caramba, eu que nunca havia visto uma glamour girl, ou qualquer outra celebridade tão de perto quase caí pra trás de susto. Então era ela!

Depois o anjo desapareceu, pelo menos para mim, que não acompanhava as notícias do mundo do high society. Já nos anos 80, vendo o programa do Chacrinha, minha mãe mais uma vez me trouxe a revelação: estão vendo aquela lá? Pois é, é a filha de Seu Jorge, aquele amigo da família, que esteve em nossa casa há muitos anjos atrás…

O anjo louro, a adolescente encantada, a mulher de sonho tinha se metamorfoseado mais uma vez, ela era agora Elke Grunnupp, dita Elke Maravilha, que todo mundo conhece. Mas eu digo com orgulho: eu a conheci antes de todos vocês; melhor ainda: dentro da minha própria casa! E não me perguntem como é que uma pobre menina imigrante e depois migrante interna pôde chegar à alta burguesia mineira e depois atingir o estrelato na TV. Não tenho informações suficientes e nem sei onde encontrá-las. Como dizia o personagem de Suassuna: “só sei que foi assim”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s