A filha de Xuxa e o signo da maternidade

BARBIEHá 18 anos atrás, quando a apresentadora de TV Xuxa resolveu brindar a humanidade com uma filha, escrevi um texto na qual citava o portentoso evento, para o jornal Hoje em dia – Edição Brasília, com o qual colaborava então.Tantos anos se passaram e a criatura – leio nos jornais – acaba de entrar na maioridade. Certamente foi muito bem criada, com tanto dinheiro á disposição e educação primorosa, na qual não devem ter tomado parte as propagandas de guloseimas, o incentivo ao consumismo e à precocidade sexual. Cala-te, boca! Vamos ao tal artigo. Que Sasha tenha sido feliz, é o que auguro, mas é pena que o mesmo não poderia dizer de outros personagens presentes nesta minha crônica do século passado…

Sob o signo da maternidade

As semanas recentes, não sei se vocês perceberam, transcorreram sob o  signo da maternidade.

Nasceu a filha da Xuxa, mães que queriam evitar filhos foram engazopadas pelas pílulas anti-concepcionais farináceas e finalmente, dez – sim dez! – mulheres grávidas foram atropeladas e mortas no interior da Paraíba, quando se dirigiam a outro município, para exames.

Gastou-se rios de tinta, mares de ondas eletromagnéticas e oceanos de bites para comemorar a chegada da pequena princesa, que atende por nome de homem, se não de animalzinho de estimação.

Das grávidas involuntárias, falou-se menos. Digamos que durante quinze dias foram lamentadas suas gestações. Indignaram-se autoridades. Executivos multinacionais acima de qualquer suspeita tentaram convencer a opinião pública que seus laboratórios eram inocentes. Depois o silêncio, ao qual já estamos acostumados.

Porém, das pobres mães mortas na Paraíba, quem se encarregou de lamentar, além dos cinco minutos  regulamentares que a mídia concede aos fatos, digamos, “comuns”?

As notícias foram frugais. Culpou-se as condições da estrada, a conservação dos veículos, a imprudência das vítimas. O de sempre. Acidentes deste tipo parecem que já fazem parte da paisagem nacional. As explicações são invariáveis. Mas será que isto é tudo?

O que faziam, realmente, as quase oitenta pessoas envolvidas no acidente? A explicação parece singela: iam a João Pessoa fazer exames, que o Hospital de sua cidade, Araçagi, não tinha condições de fazer. Não conheço Araçagi e não tive condições de me informar sobre tal município. Suponho que seja pequeno. Isto significa que uma parcela apreciável das grávidas de Araçagi estava naquele ônibus. Ou seja, o sistema de saúde local não tem condições nem mesmo de atender uma situação que não é doença, a gravidez.

Procuram os culpados no lugar errado. Onde estavam os responsáveis pelo sistema de saúde de Araçagi, que não pode atender suas grávidas? O que têm a dizer o Ministro da Saúde, os secretários estadual e municipal, o Prefeito e outras autoridades, envolvidas e preocupadas, certamente, com o ano eleitoral, diante de um fato como este?

Morreram dez mulheres inocentes, mais seus dez filhos que não chegaram a nascer: vinte mortes contabilizadas. Que nome dar a tal tragédia: genocídio? Chacina? Obra do acaso certamente não foi.

 

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