Ouviram do Ipiranga…

HINO NACIONALPara início de conversa, gostaria de declarar minha completa adesão a uma expressão bem típica dos dias atuais, embora com diverso objeto: “fora Olimpíadas”!

Entretanto, é em algo ligado a tais jogos de interesses, de rivalidades e de vaidades, que galvanizam a brasilidade no momento atual, que vou falar agora. Ou melhor, na polêmica criada em torno da interpretação do Hino Nacional brasileiro por Paulinho da Viola. Eu achei genial, como aliás acho tudo em que este queridíssimo artista brasileiro põe sua voz. Mas muitos não gostaram…

Na verdade, esta é uma história antiga. Lembram-se quando Fafá de Belém, nos dias da Nova República, cantou o hino, mudando algumas notas e entonações? Naquela ocasião, o céu também lhe veio abaixo.

De certa forma, isso foi uma repetição de algo protagonizado por Jimmy Hendrix, que resolveu interpretar o Hino Nacional dos EUA em sua inquieta e psicodélica guitarra. Tio Sam e seus McCarthy e outros assemelhados (Trump deve ter sido um deles) caíram de pau.

Os Beatles, cerca de 1966, ajudaram a imortalizar o hino francês, a Marseillaise, colocando seus acordes iniciais em uma canção totalmente profana, All you need is love. E nem por isso a França declarou  (mais uma) guerra à Inglaterra…

Mas se voltarmos no tempo mais ainda, vamos encontrar, em meados do século XIX, o compositor norteamericano, Louis Gottschalk,que esteve no Brasil (aliás, acabou morrendo aqui), se encantou com o hino e compôs, em cima dele, a sua famosa Fantasia Triunfal, até hoje executada por muitas orquestras do mundo. Não consta que isso tenha provocado alguma celeuma, nem na época nem depois.

Nada de original, portanto.

Para afastar qualquer suspeita de patriofobia, devo anunciar preliminarmente: o nosso hino é realmente lindo; sua execução quase sempre nos provoca, de imediato, vontade cantá-lo e orgulho em se ser brasileiro.

Mas nada é perfeito. Nem eterno… Hinos nacionais geralmente pegam pesado com os brios dos cidadãos. Na Marseillaise eles são chamados às armas e à sanha de afugentar e eliminar os inimigos da pátria. O nosso não deixa por menos… Aliás, apresenta uma bela coleção de valentias e apelos à violência. Afinal, ali se recomenda que é preciso conquistar com braço forte o penhor da igualdade, mesmo que para isso nosso peito seja desafiado pela própria morte, assegurando-se à Deusa Pátria que seus filhos não fugirão à luta e nem temerão, em sua adoração por ela, a própria morte.

Curiosamente a música do hino, de Francisco Manuel da Silva, é de 1831 e foi composta para comemorar o fim do reinado de Pedro I no Brasil. A letra atual, de Joaquim Osório Duque Estrada só apareceu quase cem anos depois, em 1922, por encomenda de Epitácio Pessoa. No meio do caminho, o “braço forte” dos brasileiros se fez presente contra os paraguaios e os pobres sertanejos de Canudos, além de pancadarias aqui e ali contra cidadãos revoltosos, mas em matéria de “fugir à luta” a história é certamente ainda menos gloriosa…

O hino é repleto de expressões que a maioria dos que o cantam, geralmente de maneira formal, em partidas de futebol e nas solenidades cívicas e civis, desconhecem o significado. Alguns exemplos: lábaro, raios fúlgidos, impávido colosso, florão da América, clava forte – e por aí vai.

Até aí tudo bem. Isso é destino dos hinos, com certeza. Melhor fazem alguns países, como o Reino Unido, em que o hino não tem letra, mas apenas melodia.

Mas cá entre nós, quem nunca se incomodou de ver o hino cantado por deputados e senadores, de olhos rútilos, baba no canto da boca e olhos no eleitorado, após alguma daquelas votações em que o interesse público passou longe? Cantam e vociferam com tanto patriotismo e contrição o quê, afinal? A derrota do governo, geralmente (que certamente será apenas argumento para novas barganhas futuras). Deve ser o tal simbólico “amor eterno”…

Cantam também o hino, ou pelo menos, movem o queixo numa dublagem suspeita, os jogadores da seleção brasileira de futebol, que, como todos sabem, nem jogam no Brasil em sua maioria e estão mais interessados nos contratos milionários e nas sonegações de impostos, bem como nas Ferrari e Ashton Martin que abrigarão em suas garagens. E como são comoventes suas figuras perfiladas, mãos no coração, olhos que fitam não o lábaro estrelado, mas os cifrões do próximo contrato.

E cantamos nós o Hino Maior, emocionados, sem dúvida, em formaturas, desfiles, congressos e eventos das mais diversas naturezas. Se brincar, até aqueles detentos que comandam o crime organizado de dentro das prisões brasileiras proclamam os brados do Ipiranga. com a mão direita no peito e os olhos no infinito,  a cada ônibus queimado ou policial fuzilado lá fora.

Fora o Hino, então? Absolutamente! Ele é imperecível, faz parte de nossa vida!

Mas, sinceramente, se há algo que não entendo é essa sacralização, que faz com que ele só possa ser cantado com acompanhamento de banda militar, em uníssono, em clima de fortes metais e percussão estridente. Uma vez, em uma solenidade de formatura (civil) realizada no Colégio Militar de Brasília, que alugou seu auditório para o evento, o Mestre de Cerimônias, antes da execução do hino, traduzindo certamente a visão institucional do anfitrião, solicitou aos presentes que não aplaudissem após a execução da peça. Até hoje não entendi…

Não seria melhor que o hino fosse íntimo de todos nós brasileiros, cantado nos bares, nas esquinas, nos shows, nas festas? Interpretado por Fafás, Paulinhos, Diogos, Caetanos, Chororós, Zezés ou seja lá quem for? Assobiado, cantarolado, percutido, balbuciado? Qual o problema, afinal? Já não temos biquínis (partes superiores e inferiores) com a estampa da bandeira do Brasil?

Ou a solução seria enviar nosso hino de volta aos quartéis, para que só o ouçamos ao som de fanfarras, em posição de sentidos, mãos no peito e emoção contida – sem aplausos ao final?

Para encerrar: seria muita blasfêmia acreditar que palavras como “morte”, “luta”, “braço forte”, “clava”, além de outras, que impelem ao conflito e à violência, possam ser substituídas, se não formalmente, pelo menos por práticas compatíveis com “respeito”, “transparência”, “probidade”, “decência”, “cidadania”?

Vou parando por aqui, antes que o céu desabe sob minha cabeça, também…

 

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