Calendário florístico: mangueiras – por que não?

MANGUEIRA IQuando se fala nas floradas de Brasília a mangueira, planta humilde em tal quesito, quase nunca é lembrada. Mas ela também nos dá o ar de sua graça, entre julho e agosto, até que os cachos de flores pequenas, que logo se misturam com manguinhas em miniatura, cedem lugar aos frutos definitivos. Mas não deixam de serem bem decorativos os tons de amarelo-ocre e ferrugem, passando pelo rosa forte, que elas adicionam à paisagem seca do Planalto nesta época do ano. Quando vemos um ou mais pés de manga, isolados, longe de casas e gente, podemos afirmar quase com certeza que alguém morou ali. De outra forma não teriam aparecido. Aplica-se a ela o mesmo que o dito popular sobre jabuti em árvore…

Mas a mangueira, sem dúvida, também faz parte de nosso calendário florístico. E com honras!

A mangueira – quem nunca subiu em uma ou se deliciou com seus frutos? – é uma estrangeira no Brasil. Esta querida fruta teria tudo para ser brasileira, mas na verdade é nativa da Ásia, mais precisamente da Índia e de regiões circunvizinhas. Rezam as enciclopédias que ela é cultivada em sua origem há quatro milênios, ou mais. Sua viagem ao Novo Mundo se deu com a descoberta das rotas marítimas entre a Europa e a Ásia, no início do século 16, através de nossos avós portugueses, claro. Primeiro foram para Moçambique, na África, depois para a América. Da escala brasílica ganharam o México e até a Florida. Mas sempre fizeram e continuam fazendo grande festa por aqui.

Conheci certa vez um moço, sempre morador no planalto de Santa Catarina, que me disse que seu maior sonho era conhecer um pé de manga… Ele só conhecia as de supermercado. Sonho bem fácil de ser realizado no resto do país, pelo menos daquele paralelo para cima. A mangueira, com efeito, faz parte de nossa paisagem. Mesmo na beira das estradas, sem nenhuma moradia por perto, é sempre possível vê-las. Exceto, certamente, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, talvez também em parte do Paraná.

Ainda nos tratados leio que a Mangifera indica chegou no Brasil por volta de 1700, tendo se instalado primeiro na Bahia, então capital da Colônia. Muitas dessas mangueiras devem estar lá até hoje. Eu, sinceramente, nunca havia visto mangueiras tão grandes e troncudas como as de Salvador. Se bem que as de Belém não lhes ficam a dever muito.

A manga não veio sozinha. Não sei se antes depois dela vieram da Índia também a Jaca e a Fruta-Pão. Da África, ainda via Índia, veio o Tamarindo. E nós, em troca, exportamos para eles o Cajueiro (além da Seringueira, de conhecida história).

Um estudioso de botânica e antropologia poderia enumerar as centenas, talvez, de variedades de mangas que se conhece do Brasil. Vou tentar aqui uma pequena lista, de memória: Comum, Espada, Sapatinho, Ubá, Sabina, Coração, Coração De Boi, Rosa, Manguito, Coco, Coquinho, Soares-Gouveia, Haden, Tudor, Bourbon (estas últimas, quem sabe, já importações genéticas do norte do Equador…).

Quanto a isso, os especialistas ensinam que é realmente notável a profusão de variedades de mangueiras, não só aqui como em todo o mundo. Fala-se em um número espantoso de quinhentas a mil! Só no Brasil, contando apenas as mais comuns e conhecidas, apontam-se quase quarenta variedades, segundo o “mangólogo” Pimentel Gomes.

Li certa vez em uma crônica de Rubem Braga a descrição extasiada de uma manga que ele havia experimentado, se não me engano, no Cairo, na qual que o caroço se soltava da parte carnosa como se fosse um abacate. Já pensaram?

Em Nova Iorque eu próprio tive a surpresa de ver mangas à venda na seção de alimentos de uma refinada loja de departamentos. Elas vinham do Himalaia e custavam mais de dez dólares cada uma… Deu vontade de experimentar, mas achei melhor fazê-lo no Brasil.

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