Viagem a Portugal (I): Olisipo

LISBOA<<Deus quer, o homem sonha, a obra nasce,

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

 

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

 

Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!>>

Foi com estes versos na cabeça que me dei conta que ainda faltava cumprir-se, se não a Portugal, a mim próprio. Afinal, como poderia um brasileiro não conhecer nosso país ancestral? Foi pensando assim que me mandei para lá, pela primeira vez em 2012 e mais uma, em 2015. E com vontade de voltar sempre. “Que o mar [nos] unisse, já não separasse”, enfim.

O pouso em Lisboa, ainda na madrugada, augura coisas boas logo na chegada. A cidade vista do alto não mostra o típico panorama de arranha-céus espelhados, nem de favelas e periferias abandonadas, como sói acontecer nas grandes cidades do Brasil. Água por toda parte, seja o mar salgado ou o doce rio-mar. Uma grande ponte se avista, quase se perdendo no horizonte, entre o aquém e o além (Tejo). Muito apropriadamente chamada Vasco da Gama. O caminho agora, não aponta as Índias, mas mostra o rumo da modernidade e da integração na União Européia – embora não haja tanta unanimidade (lá pelo menos) sobre as vantagens disso.

No chão, a dupla fila de chegantes à Europa unida também mostra surpresas, tanto já incorporados, como estrangeiros, nós entre eles. Entre os já integrados não é raro ver pessoas negras vestindo trajes típicos d’África, desde homens de batas compridas até mulheres de turbante e belos vestidos florais. Aqui, o passado colonial, sem ser esquecido, mostra uma face mais humana. A sisudez dos bigodudos do outro lado dos guichês da Imigração não deixa de anunciar o que será impressão constante nos dias de estada em Portugal: um modo, se não acolhedor, pelo menos educado, de tratar o brasileiro e o estrangeiro em geral. Claro que há exceções, mas onde não se as vê?

No taxi, belo e refulgente Mercedes station-wagon, confirma-se a tal receptividade. Mas ao mesmo tempo é hora de aprender algo sobre a lógica portuguesa de pensamento. Explico. Ao vermos um out-door anunciando uma tourada, o motorista fez questão de nos dizer, com certo orgulho até, que em Portugal não se matam os touros ao fim das sessões deste bárbaro “esporte” (digamos assim…). Logo adiante, vimos a Praça de Toiros do Campo Pequeno. Insisti, então: “mas não se matam mesmo ou tourinhos? O homem pareceu ofendido ao me cortar, meio ríspido, “mas eu já não lhe disse, meu senhor, que aqui não se mata!”. Conclusão: se algo já foi anunciado, não cabem reiterações, ao contrário do Brasil onde a regra é esticar o assunto… Mas na verdade o ofendido não tinha total razão, pois fiquei sabendo, depois, que se não matam dentro da arena, geralmente sacrificam o animal em seguida, de tão estropiado que o coitado fica.

E vamos por avenidas amplas, bem sinalizadas, edifícios bem cuidados, belas praças e pracinhas, pedestres e motoristas educados, além do que mais impressiona aos brasileiros em geral: zero lixo! E não deixa de ser relevante, também, ver muitos edifícios e monumentos dedicados à cultura lusa, com homenageados os mais variados: Saramago, Camões, Pombal, Antonio Vieira, Sá de Miranda, Eça, Garrett, Infante Dom Henrique e mais uma infinidade de Pedros e Joões dinásticos. Salazar, não…

Um ônibus de dois andares, destinado ao turismo sight-seing, me traz um nome novo, que não me sossega até que descubra seu significado: Olisipo, que vem a ser o nome romano da cidade, que deu em Lisabona e depois Lisboa. Os mais eruditos ou pedantes poderão chamar os lisboetas de olisiponenses… Mas afinal, os naturais de Salvador, na Bahia, não são às vezes designados como soteropolitanos? Esteja liberado o pedantismo, então, mas desde que seja com uso controlado.

No almoço, ainda no dia da chegada, mais uma mostra do modo português de pensar, mas dessa vez com mais graça e leveza. Carmen e eu queríamos comer a iguaria tipicamente portuguesa que é a sardinha na brasa. E não a encontramos no cardápio do pequeno restaurante do Rossio. Indagamos ao Garçom: “onde está a sardinha”? E ele, de pronto: “na cozinha, ora pois!”. Mas logo deu uma boa risada e completou a piada: “não é assim que os brasileiros acham que os portugueses pensam”? Havia, sim, a sardinha, que veio acompanhada com batatas (ingrediente constante, na culinária portuguesa) e mais um fresco e amável vinho branco do Douro, ligeiramente frisante. O estômago se ajoelhou e recebeu tal sacramento com devoção!

As lojas da Baixa… Na Praça Dom Pedro IV (que é Primeiro, no Brasil), uma loja de tecidos nos mostra que a rota das Índias continua ativa e pulsante, Carmen, como seu especial gosto por chitas, chitões, alpacas, percais, popelines e quejandos quase endoida. Difícil foi sair de lá com apenas dois ou três panos na sacola. Ao longo da viagem, contudo, a carga de tecidos ainda vai aumentar, e muito. Estamos apenas começando. E a loucura quase chega às raias de ser recomendável a ela uma lobotomia à Egas Muniz, diante das lojas de armarinhos, ali designadas como “Retrosarias” – que belo nome! A vontade de andar e conhecer mais acaba por nos obrigar a sermos mais racionais, sem estacionar em cada estabelecimento por horas inteiras. E fomos em frente…

Em frente, ali na esquina e mais além, a vista e os demais sentidos vão se fartar com as lojas de iguarias portuguesas: azeite, sardinhas, vinhos, aguardentes, bacalhau. Agora sou eu que não quero sair mais… Aprendo que sardinha, aqui, é gênero apenas; não espécie. Se você quer comprar derivados do simpático peixinho tem que especificar. Patê? Pedaços? Filé? Defumado? De qual procedência? Fabricante? Faixa de preço? E as latinhas parecem verdadeiros porta jóias; dá vontade até de colecionar. Satisfaço-me, por ora, com uma garrafa de aguardente vínica São Domingos, anunciada como “Velhíssima” no rótulo, adquirida por módicos 14 Euros, saboreada com extremada unção nos dias posteriores. Não sem antes aprender – para esquecer mais adiante – da vital diferença existente entre a aguardente vínica e a bagaceira, que até então eu pensava ser a mesma coisa. Na Baixa travamos contato, também, com a deliciosa água mineral portuguesa, em simpáticas garrafinhas, chamada Pedras de Sal e que, aliás, faz perfeitamente jus ao nome.

Uma volta nos arredores nos leva a Alfama, à Mouraria, à Praça do Comércio, ao Arco da rua Augusta. Mas com cuidado para o bondinho não nos atropelar… A Casa dos Bicos, onde fica o Museu Saramago, quase nos paralisa, de puro êxtase. E aquela oliveira anciã, diretamente transplantada da Azinheira natal do escritor – já é um exagero! Quem pode, pode…

Na rua da Alfândega, logo adiante de Saramago e sua oliveira, uma paineira – sim, uma paineira – árvore que julgava endêmica do Brasil colore o ambiente com sua florada quase carmim. Como esta, realmente, eu nunca havia visto por aqui.

É hora de pegar a saída, rumo ao Norte, à Leiria, ao Minho… Aqui, mais uma vez, a gente vê como o Brasil está distante, além mar, além séculos… Estamos nas primeiras horas da manhã, atravessando uma zona de moradias coletivas adensadas e nos indagamos o que é feito daquele famoso tráfego matinal que atazana os paulistanos, os brasilienses, os cariocas e tantos mais por aqui? Simplesmente, o que vemos é que fluxo e contra-fluxo de veículos se equivalem. Será feriado nacional?  Não! Isso é apenas rotina na Grande Lisboa, pelo visto agora e confirmado na volta, dias depois, só que ao crepúsculo. É que os carros, quando possuídos pelas famílias, estão nas garagens dos prédios, de onde só sairão, talvez, nos finais de semana ou nas noites de lazer. Aqui tem metrô, ou Metropolitano como dizem, para todo mundo, sem miséria, sem tucanagem, sem restrições. E ele chega até ao Aeroporto!

A viagem está apenas começando. Mas já antecipo o que deve orientá-la em todo percurso. Fala Saramago: “O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

Próxima parada: Óbidos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s