Viagem a Portugal (III): Rumo ao Norte

Visitado o grande epicentro de História que tem como lugar simbólico Aljubarrota – lindo nome! – e  onde se situam Óbidos, Alcobaça, Batalha e Tomar, é hora de seguir adiante.

Mas talvez seja mais adequado, enquanto é tempo, corrigir a frase acima, pois que todo este país, embora pequeno, é vasto palco de acontecimentos marcantes, não só de impacto local como, muitas vezes, universal.

Melhor dizer: vamos continuar respirando História, agora em paragens diferentes, mas dessa mesma terra generosa e acolhedora, o antigo Condado Portucalense. E há muito o que ver e sentir por aqui, dado seus diversos e sucessivos ocupantes, ora visigodos, ora mouros, ora espanhóis, depois, finalmente, lusos. Todos eles construindo física e simbolicamente os alicerces desse país singular, ao mesmo tempo moderno e eterno.

O certo agora, para início de conversa, é que a paisagem de fato mudou, com residências e mesmo aldeias, para não dizer cidades, mais esparsas do que na região litorânea, que há dois dias percorremos. O que está presente por toda parte – e isso nos faz lembrar o Brasil – são as florestas de eucalipto, não tão extensas como as nossas (pois nem há lugar para tanto), mas ainda assim onipresentes.

Aqui se confirma o que já se havia percebido nos dias de véspera: a abundância, na estrada, de placas indicativas de sítios, o que torna a viagem curiosa por um lado, mas um tanto confusa, por outro, pois quase nunca é possível saber qual o destino final ou mais relevante da via que estamos trilhando. Pior ainda se tentamos comparar as indicações que as placas nos dão com o GPS do carro – aí não bate nada com nada. E quando se fala em lugares, eles se mostram de todas as qualidades, ou seja, cidades, vilas, freguesias e, até mesmo o que ali se chama simplesmente de “lugar”. Lugar de Almeidas, pode ser um exemplo.

E se a curiosidade se impõe e há sinal de internet disponível (se não uma enciclopédia…) nos é possível saber que em cada um desses sítios pode ter nascido alguém de fama, um Vasco da Gama, um Fernão de Magalhães, um Eça de Queiroz, um Antero de Quental ou até, quem sabe, um Cristiano Ronaldo… Parafraseando De Gaulle, quando falava da França e seus muitos queijos, certamente deve ser tarefa difícil governar um país com tantos e tão variados toponímicos. Da mesma forma, seria exigir demais que os mapas disponíveis – ou a sinalização das estradas – pudesse nos ajudar de forma muito eficaz.

No rumo do Norte português, como já em outras partes percorridas, sempre duas opções se mostram. De uma parte, as estradas vicinais, mais simpáticas e acolhedoras, independente de nos exigir maiores cuidados dado o trânsito intenso, que inclui automóveis, tratores, carroças e até mesmo ovelhas conduzidas a pé por seus pastores e cães de ajuda, que descobri mais tarde serem sabujos portugueses, raça tipicamente lusitana. Se alguém deseja ir mais rápido ou, por outra, por não ter conseguido encontrar o caminho vicinal (porque este, logo se percebe, tem sua manha, se fazendo, muitas vezes, de difícil…) a solução é pegar as autopistas padrão União Europeia. Mas faça xixi antes, porque você não encontrará nem uma moitinha disponível, em tais estradas, contornadas, a poucos centímetros dos acostamentos, por cercas de aço intransponíveis. Além do mais, talvez o padrão “União Europeia” vigente não recomende, ou mesmo proíba, a custo de multas pesadas, a prática de tal ato fisiológico na beira da via. Mas uma coisa é certa: é raro se encontrar um posto de gasolina ou qualquer tipo de “mijódromo” desses que abundam no Brasil. Aliás, tirando os eucaliptos, a paisagem é um tanto devastada e monótona e nem mesmo moitas, de qualquer porte, você poderá encontrar. Não duvide…

As auto-bahns portuguesas se mostram, curiosamente, um tanto escassas no movimento de veículos, o que induz a suspeita de que talvez tenham sido de fato superdimensionadas (como alguém já nos havia chamado a atenção antes). Ou então é a crise econômica do país, fruto da famigerada austeridade, que aqui também se deplora, tomando como referência obrigatória a da Grécia e de outros países da União. O remédio amargo merkeliano também parece ter paralisado a economia por aqui. Quem sabe isso não explicaria o fato de se viajar tantos km sem topar um reles caminhão?

De toda forma, quem puder que escolha as vias pequenas, não só porque saem mais em conta – ou de graça, melhor dizendo – e permitem muito mais do que ver a paisagem. Ou seja, ver as casas das pessoas, a cara delas, suas ovelhas e seus cães, seus calhambeques, seus quintais com cerejas, figos, parreiras e tudo mais. Sim, porque as tais auto-estradas fazem verdadeiramente tabula rasa da paisagem, chegando ao ponto de esconder atrás de enormes tapumes os “lugares” humanos atravessados por elas, supostamente a guisa de protegê-los do ruído dos motores. Mas eu diria: o verdadeiro Portugal se mostra é nas estradinhas.

Mas estávamos no caminho do Norte. É bom lembrar que em Portugal se vai do extremo Sul ao extremo Norte, para não falar na travessia do Leste ao Oeste, em distâncias modestas, que no Brasil não chegam nem mesmo ao tamanho de estados como São Paulo ou Minas Gerais. Em tal caminho nosso primeiro destino é Coimbra, o que nos custará no máximo duas horas de viagem, a partir de Batalha. Mas o tamanho do país relativiza isso – a sensação que se tem é de uma grande travessia.

Coimbra do choupal, ainda és capital do amor em PortugalConinbriga dos Romanos. A sensação que a chegada à cidade nos causa é de certo espanto. Parece que ali as pequenas montanhas que a cercam parecem se abrir em despenhadeiros sucessivos, dando lugar a uma paisagem de morros maciçamente ocupados pela presença humana. Mas tudo muito organizado, como sempre acontece em Portugal. Não aquela ocupação aleatória e desorganizada dos morros, deixando ruas íngremes por onde a água escorre e devasta – isso é no Brasil. A cidade é densa, movimentada, agitada mesmo. O ar poluído pelo tráfego. A vida campestre ficou para trás. Com dificuldade, orientamo-nos mal e mal por ruas estreitas e sinuosas, seguindo o vetor do rio Mondego, apenas atravessado aqui e ali por alguma ponte. O tempo que até ontem esteve fresco hoje se mostra um tanto abafado.

Seguindo as placas, mas não sem antes errar algumas vezes (sempre o excesso de informações) conseguimos escalar a colina que domina o miolo da cidade, no alto da qual está ela, a gloriosa Universidade, onde a “lua é a faculdade e o livro é uma mulher”. Também diz a canção que “só passa quem souber” e penso que no quesito “orientação” fomos redondamente reprovados em Coimbra…

Mas estar lá em cima, apreciando os morros cheios de casas tão arrumadinhas e claras; as ruas íngremes; a curva graciosa do Mondego; a sombra azul a Oeste que pode ser o Atlântico; os prédios com meia dúzia (ou mais) de séculos de idade; pisar em calçadas onde tanta gente importante já passou (até mesmo o Salazar, mas em compensação também o Boaventura …) – tudo isso terá bem valido a vinda até aqui. Mas não ao ponto de esperar muitas horas para conhecer o fado coimbrense e as festas estudantis, até porque o calor está demais. Vamos em frente…

Mas como sair deste labirinto? Entrar nele já foi complicado e sair, no lusco fusco da quase noite, se revela pior ainda. A primeira tentativa foi de pousar em Figueira da Foz, poucos km adiante, onde o Mondego se lança ao mar. Mas qual! As muitas cidades, vilas, freguesias e lugares presentes nas placas acabaram nos desorientando, de maneira que, quando nos demos conta, estávamos no rumo de Viseu, em sentido Nordeste, quase exatamente contrário ao que pretendíamos.

Em Viseu, que não tinha entrado em nosso programa, não ficamos mais do que uma noite, o que justifica apenas comentários breves, sob pena de passarem por inverídicos ou pouco sinceros. Mas tomamos ali um bom vinho e comemos uma boa carne, antes de nos recolher a um hotel simpático e econômico, em plena rua principal. O ponto alto, contudo, foi a feira semanal de Viseu, que como quase tudo em Portugal remonta a séculos de tradição, no caso, o dezessete. Nada de muito especial, mas foi adorável trafegar entre aquelas barracas onde se podia encontrar de tudo: de galinhas a ferramentas agrícolas; de roupas made in China a azeitonas colhidas ali mesmo; de doces típicos portugueses a gadgets eletrônicos; de chouriços a louças de uso diário. Mas, enfim, o tal Portugal profundo que tanto procurávamos mais uma vez se mostrou. E dele nos lembramos nos dias seguintes, nas “merendas” de beira de estrada que fazíamos habitualmente, ao saborearmos um vinho local associado ao pão português massudo, às azeitonas coloridas e miúdas e ao chouriço, delícias adquiridas na feira de Viseu.

Para não deixar meus leitores na mão, vamos ao que dizem os alfarrábios, no caso a Wikipédia. As origens da cidade de Viseu remontam à época castreja (?), tendo ganhado, com a chamada romanização, grande importância, por se constituir como confluência de estradas romanas. Os nomes de seus arredores são saborosamente lusitanos, vejamos alguns: Reigoso, Oliveira de Frades, Benfeitas, Vouzela, Moselos, Orgens, Alcafache, Mangualde, Abrunhosa – e por aí vai. Cabe lembrar que Viseu alinha-se num eixo que correspondeu à via romana que vinha de Mérida, na Espanha, a Olissipo (Lisboa), a Cale (Vila do Porto Cale, que deu nome ao pais) e Bracara (Braga), pólos bastante influentes na época. A região é ainda o provável berço do herói Viriato, que viveu entre 181 e 139 a.C. e foi liderança da tribo lusitana, um dos primeiros a enfrentar os romanos na Península Ibérica.

Para completar, Viseu foi possessão visigoda, muçulmana e depois cristã – mas isso, em Portugal, é apenas rotina. Vamos adiante. O Douro nos espera.

De novo na auto-estrada vamos nos abstraindo da paisagem – ou melhor, vê-la sem maior aprofundamento. Mas dá para sentir que trafegamos em terras altas (para o padrão português), que declinam suavemente para o Norte. O rio Douro nos espera logo adiante, mas antes de atravessá-lo não custa nada conhecer Lamego, um dos seus portais e entrada.

Aqui em Lamego, mais uma vez, tudo é história. Descubro que é cidade antiquíssima, do tempo românico, tendo sido reconquistada, desta vez dos mouros, para o domínio luso em 1057 (!) por certo fidalgo Fernando Magno de Leão, cuja importância para a pátria não sei se seria diretamente proporcional ao nome, tão adjetivado. Em Lamego teria sido feita, ainda, a aclamação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal e também ali se estabeleceram as regras definitivas de sucessão monárquica lusa. É uma cidade agradável e limpa, como outras, com maior destaque para sua parte moderna, salvo a graciosa escadaria barroca que dá acesso á grande Catedral no alto da colina que domina a cidade. Para não ficar só no sagrado, ou melhor, buscando associar outro lado ao sagrado, a cidade e região são também conhecidas pela sua gastronomia, nas qual se destacam os presuntos,  um cabrito assado com arroz de forno e a produção de vinhos, sejam eles “do Porto” ou um outro, muito especial, espumante, denominado Raposeiras, que nos caiu muito bem logo adiante. Em Lamego fomos apresentados à “Bôla”, um pão de milho e trigo entremeado com chouriços. Delícia! Quem nos ofereceu foi um grupo de senhoras e senhores sessentões que faziam, junto à Sé, um piquenique, vindos todos em um ônibus de sua cidade de Tarouca, nos arredores. E junto a nós cantaram e dançaram o “vira” com grande alegria – nossa também!

Ah, o Douro está próximo. Mas este merece um capítulo a parte…

Em tempo: as fotos ilustrativas foram todas feitas em Lamego, por mim e Carmen. Havia fotos em Coimbra e Viseu também, mas no momento estão perdidas em algum escaninho virtual.

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