Pequena história cubana

plaza-de-la-revolucionEra 1982 e um brasileiro ir a Cuba representava uma aventura arriscada. Mas mesmo assim fomos, eu e Eliane, minha companheira, numa viagem sinuosa, passando primeiro pelo México. O visto, então, era um procedimento totalmente clandestino para nós brasileiros. Nada de carimbos! As próprias marcas do grampeador usado para prender em nossos passaportes um papelucho eram vistas com suspeita pelos agentes da ditadura. Ouvi mesmo falar de gente que teve que se explicar à Polícia Federal, já no desembarque, por conta daqueles dois furinhos…

A experiência exótica já começava no avião da Cubana de Aviación, um Yliushin russo de velha cepa, com rodas que incluíam, além dos três trens de pouso habituais, mais um extra, traseiro, que só tocava o chão quando o avião já estava quase parando na decolagem. Na poltrona da frente um escritor uruguaio famoso, creio que Mario Benedetti, comunista, perseguido em seu país e certamente bem acolhido em Cuba.  Boa parte dos passageiros era formada por cubanos de Miami, beneficiários de uma medida de boa vontade do regime, visitando parentes que ficaram para trás. O almoço era carne de porco em arroz, com muita banha, bem no estilo do interior do Brasil. As aeromoças não depilavam as axilas, sem deixar de ser bastante simpáticas.

Mas tudo isso é folclore, e não tem nada a ver com tal pequena história prometia no título desta crônica…

Um dos passeios obrigatórios em Havana, pelo menos na visão dos agentes de turismo, era uma visita ao Parque Lênin, nos arredores da capital. Um belo espaço, sem dúvida, com mata tropical e lagos, além de prédios para eventos culturais. Bustos diversos por toda parte, de Marx, de Lenin, de Martí, de Ho Chi Minh e outros nomes da esquerda mundial. Mas um tanto abandonado, sem uma barraquinha, por exemplo, onde se pudesse tomar uma água mineral ou uma cerveja. Isso foi em 1982; as coisas devem ter melhorado desde então, no esforço de tornar Cuba em lugar mais atrativo para turistas.

Chegar ao Parque Lênin foi fácil, pois uma van da agência de turismo nos deixou lá. Voltar foi um pouco complicado, pois o pacote só oferecia transporte de ida, coisas de Cuba na ocasião.

Assim, nos conformamos em caminhar um pouco, em pleno sol de meio dia de Havana, até um ponto coberto onde a guagua (ônibus) passaria, sabe-se lá quando. Tudo deserto em volta, não só na pista da grande avenida como na calçada onde estávamos. Mas eis que surge, do nada, um homenzinho mulato, com uma sacolinha a tiracolo, bem no estilo daquela que os trabalhadores brasileiros usam para levar suas marmitas. Ele nos olha de alto a baixo e, à maneira habitual dos cubanos, sempre muito amistosos e “dados”, logo puxa conversa, querendo saber em que língua estávamos conversando.

Sem deixar de acolhê-lo, também, continuamos a falar em português, desafiando-o a descobrir qual seria nosso idioma, afinal tão próximo do dele. Com mais um pouco seu rosto se iluminou e ele: portugués, lo he visto! Aí, já estávamos amigos.

Contou-nos que era pedreiro, prestes a se aposentar, e que já havia trabalhado em misiones internacionales na África, em Moçambique e Angola, onde aprendera um pouco do português. Mas gostaria de ter aprendido mais, para melhor conversar com estes dois brasileiros, que honravam o país com sua visita.

Tinha algumas informações sobre o Brasil, não sobre futebol, que não era a sua praia – e nem da maioria dos cubanos, diga-se de passagem. Mas em matéria de música, tinha boas informações: seus ídolos, confessados com entusiasmo, eram Roberto Carlos e Nelson Ned… Lembrava-se também daquela guapa muchacha, que usa saias “aqui” (mostrando o meio das coxas) e tinha um longo cabelo rojo e encaracolado. Elba Ramalho! acudimos – e seus olhos brilharam mais uma vez. E nos brindou, num português até aceitável, cantarolando o refrão: oi tum tum tum, bate corazao

Falamos de tudo um pouco, menos de política, o que poderia não ser de bom tom. Falou dos filhos, da mulher e nós contamos das nossas crianças, cujo nome ele até quis saber. Falamos do tempo, do calor que fazia – antigamente não era assim – ele comentou. O capítulo das comidas, quase se transforma num tratado de gastronomia comparativa intercultural. Muito agradável o tal sujeito.

Lá pelas tantas, o pudor foi vencido e resolvemos arriscar: o que você acha de Fidel? Gosta dele?

Ele nos olhou sério, muito sério. Pensei: pronto, desandou a conversa… Antes que me arrependesse de vez de tal indagação, talvez capciosa, ele completou, ainda sério e já meio emocionado, em palavras que tentarei reproduzir em espanhol, por terem se fixado em minha memória, estando ainda presentes trinta e tantos anos depois.

Amigo, Yo vendia mi fuerza de trabajo em los cañaverales. Ahora, tengo empleo, comida, casa. Mis hijos van a la universidad. Y usted pregunta se me gusta Fidel?

Pano rápido. A guagua já chegava e ele iria tomar outra direção.

 

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