Viagem a Portugal (IV): no Douro, em Amarante

img_0023O rio Douro não tem, possivelmente, nada a ver com ouro. Este, os portugueses vieram buscar no Brasil. Ele nasce na Espanha, com o nome de Duero, palavra que não tem outro significado em castelhano a não ser o de nomeá-lo. Dos altos picos da Serra de Urbión, a mais de dois mil metros de altitude, ele rola através do norte de Portugal para buscar o Oceano Atlântico. São quase 1000 km de percurso fluvial, entre as montanhas e o mar português. Tal encontro se dá próximo à cidade do Porto, mais exatamente entre Vila Nova de Gaia e Matosinhos.

De onde viria seu nome? Há versões que seja do Celta (um povo que andou por ali), língua na qual dur significa água. Mas dar o nome a um rio a partir de seu próprio e obrigatório elemento, realmente parece estranho. Há também quem defenda que venha de duris, do latim, que significa nada mais do que “duro”, numa alusão às altas e pedregosas escarpas que lhe marcam a paisagem em alguns trechos. O nome não importa, o Douro é mais do que tudo isso.

E tem mais: seu forte declive, com curvas apertadas, rochas salientes, correnteza violenta, com “rápidos” e “saltos” repetidos deram a este rio a fama de indomável. Mas a modernidade quis diferente: ele hoje se compõe como uma verdadeira escadaria de represas de geração de energia ou de fornecimento de água para irrigação e consumo.

A natureza pedregosa que cerca o Douro já fornece o elemento principal para a obra humana que o rodeia em toda parte: os caprichosos terraços de pedra, incontáveis, que se erguem desde a margem do rio até os planaltos, servindo não só para abrigar as videiras, mas também facilitar o trato com a terra, oferecer caminhos, reter a água das chuvas. Esta parece ser a verdadeira marca registrada da região, mesmo fora do curso exato do grande rio. E de longe se vê, sob a forma de trilhas horizontais e paralelas, quase contínuas.

A UNESCO, que certamente não entende de vinhos, mas sim de cultura, escolheu a região do Douro, dita vinhateira, como Patrimônio da Humanidade, na categoria de paisagem cultural. E as videiras estão realmente em toda parte. Mas desde logo chamam atenção pela sua distribuição por assim dizer minimalista, sempre em pequenas divisões, alternadas com casas, casinhas, edículas, barracões, igrejas, armazéns e, às vezes, verdadeiros palácios, que um dia serviram de moradia a famílias abastadas, que viveram do negócio vinhateiro.

De fato, o que se vê é uma distribuição muito harmônica entre a obra humana em tijolo e pedra, a cultura da uva e de algumas frutas, além da paisagem img_0035magnífica. Acessar o Douro, a partir de Lamego, por exemplo, é caminhar por um longo e quase sempre suave plano inclinado, onde as curvas da estreita estrada mostram uma surpresa a cada volta. Sempre as videiras, os terraços, as casas brancas, mas sempre, também, a beleza que ali se instalou há séculos e se recusa a sair, pois tem quem a conserve e aprecie.

Aqui, a profusão de “lugares”, no sentido português, é estonteante. Há para todos os gostos, seja com o nome de famílias, de pessoas, de árvores e, principalmente, de coisas ou qualidades que nem suspeitamos o que seja, guardadas que estão pelos mistérios de uma língua que é também nossa, mas que às vezes parece misteriosa. Albufeira, Almeirim, Alcobaça, Alcácer, Aljubarrota, Aveiro são apenas alguns exemplos, provavelmente de origem moura, para ficarmos somente na letra “A”.

E de curva em curva chegamos às margens, para se ver as águas do Douro de perto, sem tocá-las, contudo, pois o modo “encaixado” do rio o coloca sempre uma dezena de metros abaixo da ponte que lhe é mais chegada. Ela é verde, quase acinzentado, mas de bom e limpo aspecto em toda parte. Nada de lixo e entulho no rio, que aqui é respeitado.

Com pouco estamos em Peso da Régua (Portugal e seus nomes estranhos…). A cidade é apenas vista do outro lado do rio, mas vale, se não uma parada, pelo menos uma menção, pelo nome e pela sua importância vinhateira e turística. Há um comboio regular que circula entre esta cidade e o Porto, sempre margeando o rio, viagem de sonhos img_0032que um dia hei de fazer. A parada, ou melhor, a menção a Peso da Régua pode ser breve, com todo respeito. O que há de distinto ali, de fato, é a paisagem do Douro, com as casas brancas encarapitadas nos morros, as vinhas, os terraços de pedra, tendo o Grande Rio como eixo. Há também os armazéns de vinho do porto, com suas trademarks gritando nas paredes: Burmester, Dow’s, Graham’s. Mas isso, sinceramente, para mim é o que importa menos. Vinho do Porto (que nem sempre é do Porto, como nos exemplos presentes) é coisa para inglês ver (e beber). Com tanto vinho bom no Douro e em todo Portugal é incrível que haja quem beba tal xarope, que sabe a Biotônico Fontoura…

O Douro tem substância para fechar, em si, toda uma narrativa. Se mais não escrevo é porque me falece o talento…

Mas esta parte da jornada ainda nos reservou duas surpresas, uma apenas interessante e outra realmente bela, belíssima.

A primeira fica a uns quarenta km da margem do rio, já no planalto, ou melhor, em um vale convergente. Atende pelo nome de Marco de Canavezes e é uma cidade igual a muitas outras do caminho, nem grande nem pequena, nem feia nem bonita – mas certamente asseada. Seu atrativo principal? Nenhum outro de maior relevância a não ser este: aqui nasceu a “nossa” Carmen Miranda. Tem até estátua dela na praça. Está de bom tamanho, não?

Seguindo adiante, ainda aproveitando o dia claro, ao longo do vale do mesmo rio que banha Canavezes, o Tâmega, vamos encontrar a bela surpresa referida acima, que, aliás, nem fazia parte do plano original da viagem: Amarante. Aproveite-se a boa lição: nunca desprezar o que não está programado; às vezes o melhor vem exatamente daí…

Amarante tem como padroeiro alguém muito conhecido e imitando, toponimicamente pelo menos, no Brasil: São Gonçalo. Aqui ele é padroeiro dos casamentos e cumpre aos enamorados vir fazer seus votos nesta cidade. Ela não é grande, fica à margem do rio Tâmega, tem uma parte moderna e outra antiga. Até aí, tudo igual a boa parte dos lugares por onde passamos. Mas Amarante oferece mais…

Há uma rua estreita e sinuosa que acompanha o Rio, uma igreja na entrada, outra na saída. Quando a ruazinha corta o rio um primeiro impacto é oferecido pela a delicada e elegante ponte de pedra, em arco,que atravessa o Tâmega. Nela a História marca presença. Aqui, os amarantenses (amarantinos?) contam, com muita honra, que as tropas de Napoleão esbarraram e foram impedidas de chegar a Lisboa. E isso lhes custou caro, pois não só a ponte como boa parte da antiga vila foram depredadas e saqueadas pelos selvagens gauleses.

O Rio Tâmega, por si só, é personagem. Limpo como só aqui se vê. Margens rodeadas por relva aparentemente natural, com chorões, oliveiras, carvalhos e choupos aqui e ali. Patinhos em fila, nas margens e na água. É pequeno para navegação, salvo de uma ou outra canoa, romântica apenas. Lixo? Nenhum!

Ao chegar à ponte de pedra já citada, avista-se a cidadela medieval verdadeira, dominada pela Igreja de São Gonçalo e outras construções religiosas, um grande mosteiro, por exemplo. Quem acha que já viu tudo na região “cis” vai se admirar mais ainda na parte “trans”. Ao redor e nos fundos do templo e do mosteiro se abre uma teia de ruelas, altamente curvilíneas, com passagens de travessas pouco maiores do que um corpo. Casarões graves, gelosias que escondem segredos, portas que já não se abrem. E tudo em tom cinza, de pedra. Mas quando se chega na pracinha próxima as azaléias oferecem cor ao cinzento dominante. Afinal, estamos na Primavera e as glicínias também se fazem presentes.

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No final da noite, um caldo quente de “grão” (de bico), um prato de massa, acompanhado de um vinho da casa, sem marca (aqui se dispensa tal predicado) completa o dia.

Este é um lugar pra se voltar muitas vezes.

Do Douro, aliás, do “Doiro”, falou o poeta Miguel Torga muito melhor do que eu sou capaz.

“O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.”

Miguel Torga in “Diário XII”

 

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