Ainda Fidel

ainda-fidel-imagemFidel Castro não precisou sair da Vida para entrar na História. Ele, com todas as maiúsculas possíveis, viveu e fez mover a história desde os anos 60. Ao contrário do que muitos agora andam falando, a tarefa de julgá-lo é supérflua e, mais do que isso, grande demais para a dimensão moral de alguns de seus juízes de última hora.

Ele mesmo havia dito, nos anos 50: a história me absolverá. Pode ser que não o faça, de maneira total. Mas certamente o abrigará, como já abriga, como um dos grandes personagens do século 20.

Sua morte é fato consumado, claro, e é de admirar que ela não tenha ocorrido há mais tempo, dado os riscos que sempre correu e a possível vida atribulada que levou em boa parte de seus 90 anos. Ela nos faz refletir sobre pelo menos três questões, muito presentes no momento atual: o conceito de democracia; os rumos da esquerda; o exercício de uma liderança forte e personalista.

Aqui fala um homem comum, antes de qualquer coisa. Um médico e professor aposentado, com algum tempo de sobra e, por isso, se metendo a analista político. Tudo o que disser nas linhas seguintes, combinemos, será “salvo melhor juízo”. E certamente o haverá.

A primeira coisa que os detratores de Fidel e de Cuba dizem é: ali não há e não houve democracia, desde o advento da revolución. E não estão descobertos de razão, pois partido único, sucessão familiar, falta de eleições diretas para presidente, limitações à liberdade de expressão – como de fato ocorre em Cuba, queiram ou não os defensores do regime – são atributos de uma ditadura, muito mais do que de uma democracia.

Quando estive na Ilha, no início dos anos 80, já havia me surpreendido com a quantidade de policiais e militares em geral nas ruas – e olha que só foram vistos aqueles explicitamente fardados. Em muitos lugares éramos abordados por jovens que não queriam apenas dólares ou roupas melhores, mas também nos revelar sua vontade de viver em um ambiente de liberdade de expressão e de poder circular, inclusive fora do país. Em muitas pessoas que conversei o medo de que algum vizinho, membro dos Comités de Defensa de La Revolución, cometesse alguma indiscrição de fundo político ou ideológico.

Ao mesmo tempo, víamos nas ruas, seguras o bastante para se andar até tarde, uma moçada saudável, crianças indo para a escola, em magotes, com seus lencinhos vermelhos ao pescoço. Uma geração anterior de baixinhos sendo substituída, já visivelmente, por latagões espadaúdos e bem nutridos. O pediatra negro, na policlínica de Alamar, que nos mostrou mais di que uma criança atendida, uma lista de pacientes atendidos diretamente em suas casas por uma equipe, de forma prioritária e diferenciada, dadas suas condições especiais de saúde. Tudo isso e muito mais colocavam em cheque uma visão mais negativa da sociedade cubana. A realidade era assim e ao mesmo tempo, diversa: a de que ali vivia um povo bem mais respeitado do que nas “democracias” tão apregoadas aqui no Brasil e alhures.

A democracia está presente em Cuba dizem os fidelistas, só que com formato especial, adaptado a uma lógica revolucionária. Pode ser… Mas quando olhamos no espelho dos processos democráticos, que julgamos serem puros e verdadeiros, vemos encontrar um Trump, um Fujimori, um Putin, uma Le Pen… O próprio Michel Temer, quando enche a boca para falar de sua presidência, não deixa de ter razão em afirmar que está onde está por força de trâmites da democracia. É dentro dessa, também, que se abrigam o Brexit e as restrições à imigração na Europa e em outras partes do mundo, bem como os bombardeios estrangeiros impiedosos na Síria e em outras partes do mundo.

Ou seja, acusar Cuba e os Castro de faltar com a democracia é terreno movediço. De fato, em nenhum lugar do mundo ela é completa e exercida de forma pura.

Os rumos da esquerda. Clovis Rossi escreveu por esses dias que a esquerda morre com Fidel. É força de expressão, claro, mas acredito realmente que parte dessas idéias, muitas já moribundas, acaba de ser levada ao túmulo. Com efeito, penso que precisamos, ou melhor, o mundo ainda precisa da esquerda. Mas que ela seja uma força política capaz de renascer das cinzas da sua acomodação e do conforto de suas muitas certezas, para adquirir a capacidade apreender o que as pessoas realmente pensam e aquilo a que efetivamente aspirem. Longe disso, no panorama brasileiro e também fora dele, pontificam os intelectuais, ditos “de esquerda” que preferem falar de um mundo tal como gostariam, mas não como ele realmente é. Um caso praticamente perdido de “wishfull thinking”, a ser encaminhado diretamente aos psiquiatras…

Assim com o jornalista espanhol Juan Arias, acredito ainda na esquerda, mas “uma esquerda sensível aos sofrimentos do mundo e às vítimas do capitalismo totalitário […] hoje mais necessária do que nunca, pois pairam sobre a humanidade nuvens carregadas de desinteresse pelo respeito à vida e pelas pessoas e mesmo povos inteiros que foram postos de lado. […] Uma esquerda que sirva de contraponto à cultura do poder pelo poder, esse poder que não se preocupa em olhar para trás para ver se alguém tropeçou e ficou no meio do caminho. Uma esquerda capaz de entrar em sintonia com um mundo em transformação, com seus novos problemas e novos lamentos de dor”.

Tenho muitas dúvidas de que seja uma esquerda assim, realmente, a que domina a ilha de Cuba há quase sessenta anos. Aliás, que fique claro não ser possível existir governo democrático sem uma oposição política.

Em relação aos governos petistas no Brasil, penso da mesma forma. No caso brasileiro, auguro uma oposição de esquerda mais comprometida com as vítimas do que com os carrascos e que não se transformasse em uma igreja em que somente seus fiéis alcançarão a salvação, bem no estilo das igrejas pentecostais com as quais o PT alegremente se associou.

Quanto ao modo Fidel Castro de liderança política, meus questionamentos são ainda maiores. Este é um caminho perigoso de exercício do poder, muitas vezes surgido como seqüela de grandes revoluções que quase sempre desandam em totalitarismos. Queiramos ou não, trata-se de uma rota que vai dar em Stalin, em Mao, em Enver Hoxha, nos Kim Jong, em Mussolini e Hitler. Fidel, com sua vida misteriosa, sua eternização no poder (mesmo tendo deixado de ser poder…), seus artigos no Granma, seus discursos de sete horas, seu eterno uniforme de guerrilheiro, não fez nada para derrubar o culto à sua personalidade – muito pelo contrário. Quando tratou de sua sucessão, escolheu o próprio irmão (mais Coréia do Norte, impossível). Jaqueira em cuja sombra não nasceu nada? Independente de serem democráticas, ou não, são práticas que apenas contribuem para a uniformização de pensamento, pela recusa ao questionamento do mandatário, pelo comportamento em manada – nada mais distante da liberdade humana.

Uma recordação histórica: em 1960 Jean Paul Sartre foi a Cuba e se encantou com Fidel e com a revolução que ela conduzia na ilha. Escreveu até um livro sobre isso, Furacão sobre Cuba. No prefácio do mesmo à edição brasileira, Fernando Sabino, sem deixar de lado os encômios, naturais e quase obrigatórios àquela ocasião, coloca seu pezinho atrás em relação ao futuro do movimento, temendo pela sua transformação em descarada ditadura, conforme exemplos já na época conhecidos.

Ele tinha toda razão.

Mas mesmo assim, em meio ao torvelinho de amores e ódios a Fidel, prefiro lembrar do mesmo pela frase do homenzinho com quem conversei, num dia remoto de 1982, na parada de ônibus do Parque Lênin, em Havana: – Amigo, Yo vendia mi fuerza de trabajo em los cañaverales. Ahora, tengo empleo, comida, casa. Mis hijos van a la universidad. Y usted pregunta se me gusta Fidel?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s