Cinquenta anos em cinco minutos

calendario-aztecaUm dia desses, por algum motivo (que não sei qual é, mas é algo que me vem à mente com muita frequência ultimamente), comecei a me lembrar de uma fase da minha vida em que as coisas aconteciam com velocidade e intensidade incríveis.

Lembrei-me, por exemplo, daquela Copa do Mundo perdida na Inglaterra, coisa que no Brasil ninguém achava possível acontecer, pois afinal de contas nos considerávamos invencíveis, depois de dois campeonatos mundiais sucessivos.

Foi também o momento que decidi deixar de lado uma vida de descuido como estudante medíocre que era, para mergulhar a sério no desafio do vestibular – que acabou me sorrindo ao final, como uma sorte grande.

E me despedi da esbórnia da maneira mais adequada: num carnaval de clube, entre louras & morenas, tendo como hino absoluto aquele vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval, recomendação esta que procurei levar a sério.

Consegui arranjar minha primeira namorada, que era bem bonitinha, um pouco mais nova e muito mais baixa do que eu. Para ela cantei em serenatas memoráveis o grande hit da ocasião: se você quer ser minha namorada, de Vinicius e Lira, canção que simplesmente dizia tudo o que um jovem romântico poderia querer dizer para sua amada. Pena que durou pouco…

Eu, que ainda não amava os Beatles e nem conhecia os Rolling Stones mudei completamente de idéia quando fui apresentado ao disco que estourava nas paradas de sucesso daquele momento: Revolver. E troquei aquele “minha namorada”, que já estava ficando batido, por here, there and everywhere (forever…).

Para meu desapontamento, entretanto, pude saber que os caras de Liverpool haviam decidido fazer, justo naquele momento, sua despedida das turnês. E embalado por aquele será que um dia eles vêm aqui, cantar as canções que a gente quer ouvir, de meu colega de Colégio Estadual, Tavito, eu, no fundo, esperava um dia poder assisti-los pessoalmente. O show de Paul McCartney que assisti muitos anos depois, em companhia de meia dúzia de adolescentes, entre filhos, sobrinhos e enteados, já terá valido alguma coisa na realização deste sonho.

Da política eu já sabia alguma coisa, por exemplo, que estávamos começando a viver um pesadelo com os militares no poder. Mas naquele ano, qualquer ilusão de volta à normalidade democrática se desfez, quando um general de plantão escolheu outro para substituí-lo, o que fez surgir a expressão popular de que havia, agora, no cenário nacional, um príncipe herdeiro. E não lhe faltaram votos na eleição fajuta que se fez logo depois, quase trezentos, em um Congresso manietado (alguns de muito bom grado, aliás).

Assim, viajando em tais recordações, resolvi fazer uma pesquisa na internet para ver o que mais tinha acontecida na mesma ocasião. Ah, o Google, não sei como posso ter vivido mais de 40 anos de minha vida sem conhecê-lo…

Já que estou meio musical hoje, esta é um primeiro tema que a pesquisa me trouxe. Aquele ano foi todo pontilhado por lançamentos de long plays e singles que mudaram o rumo do rock e do pop, para sempre. Beatles, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Rolling Stones, Bob Dylan, Beach Boys, Joan Baez, Neil Young, Leonard Cohen, Tom Jones (!), Mammas and the Pappas, além de muitos outros, eram arroz de festa na ocasião. Isso para falar apenas dos principais. Acho que tanta gente boa e duradoura jamais esteve reunida em um só momento antes. Ano glorioso na música, aquele.

Gente que já era “grande” manteve a posição por muitos anos, como Frank Sinatra, Ray Charles, Aretha Franklin, Orson Welles, Nina Simone, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Barbara Streisand, Tony Bennet, Arthur Miller, Ernest Hemingway, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Ellis Regina, Jair Rodrigues, entre outros.

Na política internacional a situação não augurava coisa boa. A Guerra Fria estava no auge e a cada mês explodiam artefatos atômicos, da Sibéria a Utah; dos desertos centrais da Ásia aos atóis do Pacífico. E o clube se ampliava, com a entrada da França, do Reino Unido e até da China. No Vietnã choviam bombas e napalm, sem nenhuma esperança que aquilo fosse se resolver logo.

Ah, o Vietnã… E pensar que aquele era um cenário quase “romântico” de guerra, em estilo “clássico”, perto do que acontece hoje na Síria, no Iraque, em Gaza, no Afeganistão…

A Guerra Fria se estendia também para o espaço sideral, com os primeiros voos de contorno da Lua e da própria Terra, ainda não tripulados, ou então tripulados por pobres cães e macacos. Alguns dizem – e não deve ser só teoria conspiratória – que os primeiros tripulantes humanos, na verdade, foram e não voltaram. Uma parte das peripécias de então tinha por objetivo somente fazer os artefatos espaciais se esborracharem no pedregoso solo lunar – e já era um sucesso.

Mas em compensação o movimento de direitos civis pipocava nos EUA e em toda parte, tendo como liderança ninguém menos que Martin Luther King. As grandes marchas civis haviam apenas começado e já tomavam conta do mall de Washington e de muitos outros espaços públicos.

Entrementes, na África do Sul a política de apartheid apertava suas garras, enquanto por aqui ninguém sabia quem era Nelson Mandela. Mas, apesar disso, o primeiro transplante de coração foi realizado neste país. Ainda na África, uma após outra, as colônias britânicas, belgas e francesas foram se transformando em países autônomos – ou nem tanto – persistindo dúvidas, até hoje, se assim lograram melhorar as condições de vida de sua população.

Terremotos, tornados, enchentes, erupções vulcânicas, incêndios aconteceram em todo o mundo, não sei se com frequência menor ou maior do que ocorrem hoje. E fiquei impressionado, também, com a quantidade de aviões que caiu, nos cinco continentes, matando milhares de pessoas. Nisso, os avanços tecnológicos relativos às máquinas que voam devem ter sido aprimorados.

Estava lendo e divagando sobre tais coisas quando me dei conta de algo terrível. Tudo isso aconteceu em 1966, ou seja, há exatos cinquenta anos. E, no entanto, parece que foi outro dia mesmo. Oh céus! O que é isso? – eu me pergunto. Eu, na ocasião com esfuziantes 18 anos de idade, dispunha de uma fartura de minutos, horas, dias, meses e anos pela frente. Agora eles me parecem tão escassos…

Esta, de fato, é a pior das noticias que eu poderia ter lido. A de que a vida passa muito rápido. Melhor então não perder tempo com coisas supérfluas. Como pesquisas vãs no Google, por exemplo…

 

 

 

 

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