O cadáver: presença ilustre, porém dispensável

vesaliusPor esses dias, reli com a atenção e o sabor de sempre, o conto O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Para quem ainda não o conhece ofereço algumas informações: ele é um escritor mineiro pouco prolífico, mas considerado mestre e pioneiro no gênero literário conhecido como realismo fantástico, que teve como outros expoentes latino-americanos Júlio Cortazar e Gabriel Garcia Marquez. Produziu suas obras, principalmente contos, entre as décadas de 40 e 50, lado a lado com uma carreira burocrática tradicional.

O conto trata da breve história de Simplício Santana de Alvarenga, conhecido profissionalmente como Zacarias, o pirotécnico, que um dia é atropelado por um automóvel e acaba fazendo companhia, mesmo morto, ao grupo de moços e moças que passeava no veículo. E assim Zacarias passa a circular pelas ruas da cidade, possivelmente a Belo Horizonte dos anos 40, na condição de cadáver que se recusava a entrar para o mundo dos mortos, preferindo circular entre os vivos.

O que me traz aqui é outro cadáver, este realmente morto, mas que no meu tempo – não sei se ainda agora mesmo – insistiam (insistem?) em manter vivo nas aulas de anatomia. Já ouvi dizer que isso já está superado alhures, na Europa ou nos Estados Unidos, por exemplo, países civilizados que já baniram o dito cadáver, tal qual o conhecemos, das aulas de anatomia nos ambientes acadêmicos.

O que afirmo aqui, e que parecerá totalmente desarrazoado, é a seguinte: cadáveres são desnecessários nas aulas sobre o corpo humano, por razões de ética e humanitarismo, em primeiro lugar, mas também por razões pedagógicas. Esperem os leitores que vou me explicar…

Para começar, recorro às palavras de um antigo mestre, na Faculdade de Medicina da UFMG, João Amílcar Salgado. Em síntese aproximada, dizia ele que o jovem entra para uma escola de medicina aspirando lidar com gente. E de saída lhe dão um cadáver. Mais adiante, o mesmo corpo lhe é oferecido, só que agora cortado em fatias microscópicas. O estudante não perde as esperanças de ver gente, mas no segundo ano são colocados à sua disposição urina, fezes, sangue e outros líquidos corporais. Mas gente, que é bom, nada… Depois vêm o sapo e o cachorro nas aulas de fisiologia. No terceiro ano o infeliz imagina, mas logo se vê frustrado, que finalmente vai conhecer o raro objeto chamado gente. Agora parece que vai dar certo, pensa ele, mas o que vê são radiografias, imagens, laudos, papéis manuscritos e principalmente livros que falam de tal objeto. Quando, finalmente, ele vislumbra um corpo humano vivo e não decomposto em líquidos, lâminas, chapas, prontuários, etc. entre ele e tal objeto do desejo se coloca o professor, intermediando um contato que ele tanto gostaria que fosse direto e próximo.

É força de expressão, já se vê, mas tem sua sabedoria, certamente.

Para quem nunca assistiu a uma aula de anatomia no estilo cadavérico, aqui vão algumas informações. Corpos humanos em formol estão para os corpos reais, digamos (com todo respeito) frescos, assim como as passas estão para as uvas (ou como as ameixas pretas em conserva para aqueles lindos pomos sumarentos que costumamos comer na época do Natal). Imaginem, então, que se ofereça a alguém, que nunca viu uma uva ao vivo (Ivo viu, mas a nossa hipotética persona não viu), uma passa seca e se peça a tal pessoa que imagine a fruta como ela é na vida real, nas videiras. Com todo seu sumo, sua casca lisa e acetinada, ou mesmo seu sabor e cheiro, totalmente diferentes daquele mirrado corpinho de uva que ali se apresenta. Missão impossível, não?

Pois é assim que se ensinava – e talvez ainda se ensine – a anatomia: em corpos que estão longe de representar o real.

Eu já pensava coisas como essa há muitos anos, antes de conhecer o processo chamado de plastinização, criado na Alemanha há alguns anos e desenvolvido por uma empresa chinesa, que inclusive expõe corpos humanos perfeitamente dissecados e evidenciados em suas estruturas mais íntimas, em cores vivas e diferenciadas, de forma bastante próxima ao real. Aliás, os leitores já devem até ter comprado ingresso, para ver uma exposição assim, em algum shopping center.

Confesso, sinceramente, que a anatomia que eu gostaria de ter aprendido nos meus anos de faculdade me seria muito mais duradoura e eficaz se eu tivesse tido contato com imagens assim, todavia frutos de uma tecnologia que ainda não existia no meu tempo de estudante.

Agora vêm alguns detalhes mórbidos. As tais “passas” de gente são trazidas a um grande anfiteatro, onde um bando de estudantes, como abutres, se debruça sobre eles e começam a picá-los. As carcaças são duras e muitas de suas estruturas internas mais delicadas, como veias e nervos pequenos e mesmo médios simplesmente se fundem, se engruvinham ou simplesmente desaparecem sob a ação do formol. Mas toca a cortar e a picar assim mesmo. Com algum tempo, a massa informe que se tem em mãos pode ser músculo, gordura, nervo, gânglio ou qualquer outro tecido, mas não é possível identificar o que seja. E como o tédio fatalmente sobrevém, começam as brincadeiras escatológicas, como cortar partes daquele corpo inerte e levar para casa, na melhor das hipóteses, ou colocar na bolsa das incautas colegas, na pior delas.

No final do dia, esgotados e enojados pelo cheiro do formol e pelo dantesco espetáculo da decomposição natural que fatalmente já está presente, os infelizes alunos corriam à biblioteca – ou à internet – para consultar os livros ou sites, onde as imagens são mais reais e pedagogicamente aceitáveis. E aí, sim, aprendem alguma coisa.

Mas há outra questão, ainda. Frequentar um anfiteatro de anatomia é algo que tem um enorme valor simbólico. Ali se processa um vero rito de passagem, no qual aqueles estudantes, até há pouco tempo nada mais do que adolescentes cheios de vida e alegria, entram na vida adulta sob a égide da morte, da podridão e do mau cheiro. Mas é preciso suportar tudo, assim como cabe aos recrutas militares (ou mesmo aos calouros universitários) se submeter a todo tipo de brincadeira e violência por parte dos já iniciados. E a iniciação, agora, tem seus sacerdotes na pessoa dos professores e monitores, que costumam não poupar os pobres iniciantes de conversas escabrosas, quando não de contato íntimo e indesejado com os corpos mortos. Nada disso impede, entretanto, que os trotes e os cadáveres sejam apreciados por alguns, que veem nisso condição necessária e inescapável ao cumprimento do tal ritual de passagem, sem questionar sua racionalidade e sua humanidade.

Não é a toa que os dísticos que costumam ornar as paredes de tais salas são taxativos, em lindo e incompreensível latim: hic mors gaudet succurere vitae. Ou, pior ainda, morituri mortui… Que os mortos se alegram de ajudar a vida, ou então, que anunciam estar esperando por aqueles que ainda não morreram. Mais mórbido, impossível, mas bem no estilo dos shows de horrores que ali ocorrem cotidianamente.

Já nos meus tempos de estudante, costumava ouvir de professores e médicos já formados que todo aquele conhecimento anatômico tinha que ser reavivado alguns anos depois. Outros já diziam que ele era simplesmente dispensável, diante do alto custo e pouco benefício de tal estratégia pedagógica.

Vamos aos fatos, e eles são os seguintes. Um conhecimento anatômico profundo, no nível de detalhar aquilo que vagueia entre a artéria e a veia (um dito repetido nas missas mórbidas rezadas naqueles anfiteatros de horror), interessa a bem poucas especialidades médicas, tais como, cirurgia ou radiologia e imagens. Para as demais, clínica, pediatria, psiquiatria, por exemplo, bastaria uma visão geral da estrutura do corpo humano, no mesmo nível que geralmente é oferecido aos nutricionistas ou educadores físicos, por exemplo. Mas mesmo para aqueles que têm a anatomia humana no centro de seus interesses, como os cirurgiões, o verdadeiro aprendizado se dá em animais, como o cão ou o porco, bem como no acompanhamento de cirurgias reais (realizadas em pessoas vivas). Algumas informações podem vir das referidas “passas”, mas não no primeiro ano de medicina, mas somente quando o aprofundamento dos estudos cirúrgicos se fizer necessário, isto é, provavelmente apenas na residência médica, alguns anos depois. Para o pessoal da imagem, o verdadeiro aprendizado se dá com imagens (simples assim), a serem confrontadas com a visualização de ilustrações do corpo real, em peças plastinizadas, por exemplo.

Minha diatribe ainda comporta mais uma pequena seção antes de ser encerrada de vez. Alguém já se perguntou de onde vêm os cadáveres que vão parar nos anfiteatros de anatomia?  No meu tempo vinham, em sua maioria, do chamado Hospício de Barbacena, instituição que já de muito faz parte de uma memória de vergonha e horror na saúde do Brasil. Aqueles cadáveres, ou melhor, aquelas pessoas, simplesmente não tinham (ou quem sabe isso não lhes era facultado) quem reclamasse seus corpos. E como, afinal de contas, morriam? Sobre isso, bem pouco era dito…  Alguns suspeitavam, inclusive, que a mortalidade crescia em certa época do não, coincidente com a abertura do calendário letivo nas escolas de medicina. E desde então já se sabia existir um verdadeiro tráfico de cadáveres, operado não só por funcionários de tais asilos como pelos poderosos bedéis das faculdades – gente que lidava com aquilo que ninguém aceitaria lidar, por isso mesmo autoconsiderados indivíduos especiais e até superiores aos comuns. Estes viam nos pobres corpos nada mais do que uma mercadoria preciosa, sem prestar contas a ninguém.

É preciso argumentar mais?

Meus respeitos aos mortos que compareceram e talvez ainda compareçam, por muitas gerações, aos anfiteatros de anatomia para socorrer os vivos e aprendizes. Mas penso que já passou da hora de os liberarmos para uma pós morte digna.

Ah sim, não precisam me lembrar: a tal da plastinização também utiliza cadáveres, insumo que na China deve ser muito abundante. Há quem diga que lá boa parte dos corpos submetidos a tal método provém de pessoas condenadas a morte, geralmente jovens e íntegros. Nada é perfeito…

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s