Eduardo Gianetti: uma voz rara no Brasil atual

gianettiEstá difícil acreditar em alguém ultimamente, não só no Brasil como em outros lugares do mundo. Trump não seria um fenômeno isolado. A imprensa, que um dia foi guardiã das liberdades e da democracia não foge à regra geral. Os jornalões não se contentam apenas em formar opiniões, mas também em deformá-las e até produzi-las. Neste cenário inóspito é consolador ver alguém falar com isenção e com bons argumentos (argumento, esta matéria tão escassa nos dias de hoje). Eduardo Gianetti é o cara! Colaborador de Marina Silva na última eleição, ele não a poupa de  crítica : “ela precisa decidir se ela é uma líder de movimento, na linha do Gandhi, do Luther King, uma líder de causa, com uma força simbólica muito relevante, que é um caminho maravilhoso, uma coisa da maior importância… ou um outro caminho, se ela é candidata a chefe do Executivo. Isso requer definição programática, entendimento de que ela precisará desagradar alguns”.

Sobre o momento brasileiro atual: Eu acho que Brasil precisa completar o movimento esboçado desde 1988 de constituir um genuíno Estado federativo. Eu acho que o caminho do país é menos Brasília e mais Brasil. É fortalecer o poder local. Isso requer um redesenho da autoridade para tributar e uma definição de que apenas vai para o governo central o que for financiar atividades típicas de governo central e o que for para o desenvolvimento regional. O resto fica e é gasto perto de onde ele é arrecadado. Acho que essa é a revolução fiscal que o Brasil vai ter que fazer.

Sobre as revelações da Lava Jato: “Tenho muita esperança de que todo esse processo doloroso seja um caminho de profilaxia e de renovação das práticas políticas. Eu tenho forte convicção de que, se o câncer existe, é melhor conhecer e extirpá-lo do que continuar vivendo como se não estivesse lá. O câncer agora apareceu e está à vista de todos, na economia, na política e no combate à corrupção. O Brasil tem uma chance de dar um passo fundamental para ter uma vida pública mais transparente e mais condizente com as nossas prioridades”.

Sobre a era Trump: “É um complicador [para o Brasil]. O que mais me preocupa em relação ao Trump não são as medidas de economia que ele pode tomar nos Estados Unidos. É a instabilidade geopolítica que ele pode provocar. Eu temo que potências regionais como a Coreia do Norte, a China e como a Rússia se sintam nessa nova configuração tentadas a testar o seu poder regional. Por exemplo, invadindo áreas sobre as quais têm ambições. Testar, portanto, o isolacionismo do Trump. [Na Economia] é um indicador de desregulamentação financeira. Acho que ele vai cumprir a promessa de cortar o imposto dos ricos. E ele vai tentar conseguir autorização do Congresso para gastar no programa de infraestrutura… […] Mas o que isso pode provocar é um aumento do déficit público, com pressão inflacionária e, como resultado, o aumento do juro americano. Mas não vai ser nada brutal, como foi o início do governo Reagan, em que os Estados Unidos ainda estavam com um problema inflacionário que precisava ser debelado e isso requereu juros extremamente elevados. Esses juros levaram os países da América Latina a entrar em colapso com a dívida externa. [A vitória de Trump] é um fenômeno econômico e psicossocial também. Essas coisas estão muito ligadas. A Economist trouxe um artigo espetacular mostrando a correlação entre indicadores de saúde e a votação do Trump. É maravilhosa a correlação, é mais forte do que a que vincula o voto em Trump aos brancos sem formação universitária. São pessoas que estão com dificuldades muito tangíveis e muito ressentidas com os caminhos que as coisas tomaram nos Estados Unidos. Essas pessoas votaram no Trump”.

Gianetti é PhD em Economia pela Universidade de Cambridge (Inglaterra), onde também foi professor. É um raro caso de pessoa capaz de analisar com facilidade isenção temas como meio ambiente, filosofia, cultura e política. Publicou recentemente pela Companhia das Letras o livro Trópicos utópicos uma profunda análise dos dilemas brasileiros à luz da crise civilizatória que acomete o mundo atual. Ele foi também um dos assessores mais próximos de Marina Silva, na eleição presidencial de 2014, mantendo com a mesma relações de afeto e afinidade, embora distantes de concordar em tudo.

Vozes como a dele, infelizmente, são muito raras no Brasil de hoje, lamentavelmente dividido entre “petralhas” e “coxinhas”, tendo como pano de mundo os portadores, (muito mais numerosos do que estes últimos, aliás) de uma visão mal informada, para não dizer conservadora e retrógrada, da realidade nacional e mundial, além de, principalmente, não fundamentada em argumentos em evidências concretas.

Quem se interessar em ler a entrevista completa, segue o link: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/marina-silva-precisa-definir-o-caminho-que-deseja-seguir-afirma-eduardo-giannetti/

 

 

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