O Camicego

CAMICEGOCrianças na literatura, literatura sobre crianças, literatura para crianças. A associação dos dois termos, ou seja, da infância e da literatura é por demais vasta e me falece a competência necessária para tratar disso aqui. Fico com uma definição que se tornou clássica, que narro a seguir.

Alice Dayrell Caldeira Brant, que escreveu sob o pseudônimo de Helena Morley, registrou passagens seguidas de sua infância, na Diamantina de finais do século dezenove, em singelos caderninhos. Já idosa – e avó – lia para suas netas aqueles relatos, que encantavam as garotas. Seu genro, o intelectual mineiro Abgar Renault, foi o primeiro a ver valor naquilo e a convenceu, não sem alguma relutância, a publicar seus relatos em livro. Minha vida de menina, lançado no início dos anos 40, foi sucesso absoluto de público e de crítica e até hoje tem edições novas se acumulando. Polêmica da época: alguns viram no livro, sem lhe depreciar o valor, uma possível reescrita dos diários infanto-juvenis, por parte de uma Alice já adulta e madura, tal a sua qualidade formal. Quem saiu em defesa da diamantinense foi Guimarães Rosa, ao dizer que a polêmica não se justificava, porque, na opinião dele, se fosse obra de criança já seria, sem dúvida, excepcional; mas se vigorasse a hipótese de uma reescrita ex post facto, a obra seria igualmente marcante, pois, segundo ele, não haveria caso, em toda a literatura internacional, de uma recriação da infância revestida de tal magnitude e emoção…

Sem dúvida, falava quem podia, pois a história do menininho míope que vivia nas brenhas do Mutum, apaixonado pela mãe e pelos irmãos – aquele Miguilim eterno – também representa, sem dúvida, uma recriação da infância como muito raramente se vê na literatura.

Fico, assim, coma definição de JGR nesta despretensiosa abordagem, ou seja, falo de uma maneira específica como a literatura vê a infância, não como mero objeto narrativo, mas como verdadeira recriação de uma etapa da vida, a que a ninguém é dado viver de novo…

E meu objeto presente é Monteiro Lobato, que possui lugar inarredável e de proeminência em meu Panteão de divindades da prosa literária, ao lado de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Garcia Marquez, Vargas Llosa, Mark Twain, John Steinbeck, entre outros.

Mas, por incrível que pareça, não vou falar de O sítio do Picapau Amarelo e seus eternos e marcantes personagens. Sobre eles, muito já se disse e eu não teria nada a acrescentar. Mas como a boa literatura sempre nos oferece surpresas, falarei de um pequeno conto de Lobato, publicado em 1920 e recém-descoberto por mim, que não só representa uma espécie de avant première do ambiente e dos personagens de O Sítio, como perfaz, de maneira magnífica, aquela recriação da infância de que nos falava Rosa.

A pequena joia denomina-se “A morte do Camicego” e muito provavelmente tem sabor autobiográfico. Três irmãos estão reunidos em brincadeiras habituais nos vários cômodos de uma grande casa de fazenda e um deles, Edgard, insiste em amedrontar os outros irmãos com alusões a um monstro imaginário, o Camicego. Ele consegue grande efeito sobre sua irmã Marta, um pouco mais velha, com cinco anos, embora Guilherme, com apenas dois aninhos não se impressione muito com o bicho, mais inclinado à perseguição das guloseimas que abundavam no ambiente doméstico.

Edgard dizia que o Camicego tinha um bico “assim”, o que se não chegava a ser explicado com palavras, certamente o era com uma careta formidável por parte do narrador, “com os lábios abrochados em bico e olhos esbugalhados”. Marta, menina medrosa, tinha apenas uma pergunta: e come gente? Ela, com efeito, ao se dar com algum bicho ou ser até então desconhecido, queria sempre saber de seu grau de antropofagia…

E era grande o Camicego? Edgard não deixava por menos: sim! Era grande como um guarda roupa, mas ainda assim foi crescendo, crescendo, chegando a ficar do tamanho do morro defronte à casa!

Em um dia de brincadeiras, em que o temível ser ainda não tinha comparecido, apareceu-lhes um morcego morto. Edgard, talvez já enfastiado com a brincadeira que já lhe teria consumido toda a verve aterrorizadora, logo identificou o bicharoco como sendo o famigerado Camicego. E ato contínuo, assistido pelos irmãos, tentou fazer-lhe uma necropsia, no que foi impedido pela empregada negra – adivinhem quem, ela mesma: Nastácia.

Estava, assim, desfeito o medo diante do misterioso monstro.

E assim arremata Lobato sua pequena obra prima: “Datou daí a morte do Camicego. Não amedrontava mais. Se Edgard o relembrava, os outros riam-se, porque a imaginação dos guris passou a encarnar o monstro na figura triste do morcego morto,  a estorricar-se ao sol do telhado”.

E à maneira das fábulas antigas, dos quais foi também exímio intérprete, puxava a moral de tal história: “os homens, crianças grandes, não procedem de outra maneira. Os seus mais temerosas camicegos saem-lhes morcegos relíssimos, sempre que uma boa vassourada da crítica os pespega para cima da mesa anatômica.”

A narrativa presente ainda oferece vários elementos da construção posterior da literatura infantil por parte do autor, não só com a entrada em cena da cozinheira Anastácia, o imaginário infantil levado a sério, a incapacidade da gente grande em compreender e se relacionar com as fantasias infantis, o ambiente rural repleto de surpresas e potenciais aventuras, etc.

Grande Lobato, eminente crítico e combatente histórico contra variados camicegos da vida brasileira!

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