1964: há quem tenha saudades…

GOLPE 64Mil novecentos e sessenta e quatro: fatídico ano. No dia exato dos acontecimentos eu trabalhava em uma escola de datilografia (já fui professor desta arte, acreditem), que fez parte de uma das variadas tentativas de meu pai “abrir um negócio”. Eu escutava pelo rádio de uma sala ao lado os relatos da movimentação de tropas, com evidentes avanços dos mineiros do General Mourão sobre o Rio de Janeiro. Mas não me dava por vencido, achando que aquilo só podia ser intriga dos terríveis Diários Associados, sabidamente associados ao golpismo e às forças da direita. Achei que estes termos iam ficar sepultados, como relíquias de um passado, até que em 2015, meio século depois, ainda os vejo pulsar. Na minha impotência de militante encarcerado num sétimo andar, sendo obrigado a prestar atenção no téc-téc de meia dúzia de gatos pingados naquelas velhas Remington, fui ao banheiro e atirei pela janela uma garrafa vazia de guaraná no vão central do edifício. Foi uma catarse, se pudesse encheria aquela garrafa de gasolina, acenderia um pavio e a atiraria heroicamente sobre um carro de polícia.

Minha ficha só caiu, de fato, alguns dias depois, quando passei de ônibus próximo ao quartel da PM na rua Platina e vi a imensa fila de voluntários, muitos deles quase tão jovens como eu, querendo se alistar para combater a subversão. Desta palavra, pelo menos, acho que ficamos livres…. época, como fruto de minha aproximação com Mario Coutinho e Tiago Veloso, comecei a colecionar uma revista de propaganda da antiga União Soviética, impressa em rica policromia e de caráter encomiástico às conquistas do socialismo. Depois daquele fatídico abril, cuidei de levar tal material para esconder na chácara da família, em Contagem. Até que meu tio Virgílio, sempre vigilante, não só por ser simpatizante da UDN, mas por temperamento, se encarregou de botar fogo naquele perigoso pacote. Ele tinha razão, melhor assim. Mas confesso que minha impressão favorável sobre o socialismo na versão soviética demorou um pouco mais a ser queimada.

Realmente, quem viveu nos anos 60, não escapa de falar de política… Neste campo eu era portador de uma bagagem apenas convencional. Havia “apoiado” Jânio Quadros nas eleições de 1960, por influência direta de meu avô Altivo e meus tios maternos, todos de extração udenista. Mas em 1964 eu já estava “convertido” à esquerda, que na época era uma palavra com significado mais nítido do que hoje. Devo esta mudança no campo político aos meus amigos Tiago e Mario, já citados. O primeiro, aliás, irmão de Cid Veloso, que foi anos depois Reitor da UFMG e sobrinho de meu tio Lécio (casado com minha tia avó Aurea Goulart), era criado numa família de esquerda. Seu pai, Geraldo Veloso, era um comunista da velha guarda, mas acima de tudo um grande intelectual, sensível à música, à literatura e outras artes, que me brindou com grande camaradagem, por eu ser amigo de seu filho caçula. Este ambiente me fez muito bem e dele emergi não só mais amadurecido intelectualmente como também pretenso militante de esquerda.

Em 1964 Tiago, que já tinha seu irmão Geraldo Jr. militando no PCB, tratou no nos alistar no partido. Mas talvez pela nossa idade isso não se concretizou formalmente, embora tenhamos recebido algumas “missões”, de panfletagem, por exemplo. Creio que isso talvez tenha sido, também, uma espécie de quarentena, habitual nos movimentos clandestinos, em relação aos novos adeptos.

Na segunda metade da década o significado de “ser de esquerda” se ampliou, pois as dissidências habituais se ampliaram, a questão da luta armada voltou à tona e a repressão, inclusive interna, comeu solta. No Colégio Estadual todo mundo tinha tomado partido; os que não o faziam recebiam um rótulo certeiro: alienados. Eu era ligado, por laços de amizade, aos Veloso, sabidamente identificados com o PCB. Mas tinha amigos da Ação Popular (AP), mais próximos à Igreja Católica. Para mim, um semianalfabeto na política, a questão parecia simples: se nosso inimigo é a ditadura, por que não lutamos todos juntos? Não deu outra: a turma do PCB me acusou de fazer o jogo da AP – e vice-versa. Por pouco não caí na vala comum dos “alienados”. Aliás, curiosamente (ou nem tanto…) ser um dos tais alienados, naquele tempo, era mais confortável do que tomar partido, pois a facção contrária, sempre vigilante, massacrava com mais vigor aqueles que tinham posição definida, mesmo do respectivo lado do espectro, do que aqueles que não tinham.

Quando entrei na Faculdade, porém, por questão de simpatia pessoal, principalmente com o cara que era presidente do Diretório Acadêmico (DAAB) na ocasião, Zé Celso, me considerei como membro, ou melhor dizendo, simpatizante, da AP. Mas mesmo aí minha posição nunca se definiu por completo, pois os rachas eram galopantes e eu continuava, ingenuamente, pensando que o melhor seria unir forças contra os militares no poder. De toda forma, meu namoro com Eliane, agora firme e com convivência quase permanente, acabou me afastando da política, pois minha companheira, definitivamente, não era dessas coisas.

Em 1968 fora assassinado pela Polícia, no Rio, o estudante Edson Luiz, durante uma passeata. Isso mobilizou não só os estudantes de Medicina como todo o alunado da UFMG. Nossas lideranças, unidas finalmente contra um inimigo comum, resolveram “tomar” a Faculdade. Como veem, há pouca coisa nova sob a luz do sol. A primeira medida foi pichar, por cima do nome oficial do prédio principal, referência a um conservador odiado pela estudantada de então, Prof. Oscar Versiani Caldeira, o nome do mártir do momento, Edson Luiz. Ato contínuo, nós montamos – aqui me permito usar a primeira pessoa do plural com propriedade – uma barricada em frente à entrada do prédio, a partir de materiais descartados que abundavam em uma área dos fundos. Sui generis esta barricada, com macas, cadeiras de roda, armários de metal, mesas cirúrgicas, coisas assim.

Enquanto isso, a Policia Militar já nos cercava, sem entrar, ainda. A nota pitoresca foi o acoplamento de um eixo com rodas, provavelmente de algum veículo de tração humana, de transportar mantimentos ou roupa suja, com um tubo de chaminé ou coisa que o valha, de forma a figurar um canhão. Nós empurrávamos a tal trapizonga pra lá e pra cá, como se mirássemos os policiais ali em frente, fazendo com que eles, por via das dúvidas, se recolhessem atrás de árvores e de viaturas. Foi bem divertido, até que a tropa de choque chegou e invadiu a Faculdade, sem mais, distribuindo bordoadas e fazendo algumas dezenas de presos, todos liberados no dia seguinte, alguns sendo processados na sequência. A ditadura não só mostrava os dentes, mas agora já mordia.

Um ano antes, ainda primeiranista, eu fora manifestar “de roldão” na avenida Afonso Pena e no Palácio da Liberdade. O móvel era a falta de verbas para o ensino, particularmente no Pronto Socorro Amélia Lins, que pertencia ao Estado de MG. Não teve polícia e nem bombas. Fomos até acolhidos, por assim dizer, nos jardins do Palácio da Liberdade, onde passamos a noite sem que isso incomodasse ao governador de então, Israel Pinheiro, que parecia não ser adepto do cassetete, embora não fosse defensor de maior diálogo. Na etapa da Afonso Pena passei uma noite indormida debaixo da marquise do edifício chamado Lavourinha, na esquina com Tamoios. Com efeito, não é todo mundo que teve a experiência de acordar pela manhã, em colchões improvisados, com os pedestres vistos do ângulo de seus sapatos. E com uma fome terrível, saciada um quarteirão acima, na Padaria Boschi, na Tamoios com Rio de Janeiro.

Isso foi em 1967. Um ano depois o tom das queixas dos estudantes havia subido, deixando de lado questões locais, como o tal abandono do PS, em troca de temáticas mais abrangentes, nas quais as palavras de ordem tinham a ver com democracia, liberdade, repúdio à ditadura. Em cada um desses momentos aprendíamos mais um pouco – a primeira lição que a Faculdade de Medicina me deu, de abrir as orelhas, além da mente, ia sendo consolidada pouco a pouco.

Naquele ano de 1968, que demorou a acabar (ou nem acabou, como disse Zuenir Ventura), havia uma inscrição misteriosa pichada nos muros de BH. Sim, naquele tempo as pichações eram anônimas, como hoje, mas pelo menos diziam alguma coisa. Aquelas, no caso, proferiam: tudo certo, mas tá esquisito. E estava tudo muito estranho mesmo: gente desaparecendo, inclusive colegas nossos de Faculdade, artistas sendo perseguidos ou se auto exilando, políticos sendo cassados. Patrulhas reais, fardadas ou não, trafegavam livremente e faziam estrago entre as pessoas de esquerda.

Em uma manhã de dezembro minha mãe foi a primeira a me dar a notícia, eu ainda na cama: meu filho, agora é que se tem uma ditadura de verdade! Estava assinado o ato institucional cinco e o terror agora tinha a chancela do Estado. A raiva que se sente uma hora dessas é inimaginável! Quando vejo ainda hoje pessoas ansiarem pela volta dos militares ao poder, a sensação que tenho é mais de nojo do que de medo. Mas naquele tempo o que nos aguardava nas ruas, nos corredores da Faculdade, nos eventos públicos era tudo isso misturado: terror, desconfiança, medo, repulsa, revolta, nojo. Só quem viveu tempos assim saberá do que estou falando.

 

Enquanto isso, a esquerda deblaterava sobre as vírgulas de O Capital ou sobre a interpretação de parágrafos de Lenin, se dilacerando antes de concatenar alguma ação política organizada. A luta armada passou a ser a opção de muitos. Aí então é que a mão pesada da ditadura se mostrou com toda sua força covarde.

Alguns meses depois do fatídico dezembro, o que já era previsível aconteceu. Meu irmão João Mauricio foi preso na Escola Técnica Federal, onde estudava, depois de uma busca arbitrária e constrangedora, por parte de agentes militares e policiais, na casa de meus pais na rua Cristina. Até sabermos de seu paradeiro e se sobrevivia aos maus tratos que certamente lhe dispensavam, foi um sufoco. Neste momento, entra em cena um personagem essencial da família: meu Tio Virgílio, que tinha contatos entre autoridades de Minas, embora não fosse, nem de longe, o que se poderia chamar de agente da ditadura. Graças a ele pudemos saber que João estava recolhido ao DOPS, na Avenida Afonso Pena e que aparentemente estava bem – vivo pelo menos. A extensão dos danos que sofreu na ocasião só se soube depois…

João Mauricio esteve alguns meses preso, depois respondeu a processo em liberdade e finalmente foi absolvido de tudo o que lhe acusavam, graças ao trabalho de um notável advogado de presos políticos de então, chamado Geraldo Magela. Não sei se este cara já teve sua história contada, mas pelo que sei foi uma figura marcante, ao defender seus clientes como um leão, ao mesmo tempo que ironizava e tripudiava dos algozes e juízes da ditadura. Quem sabe Magela não merecesse um livro, ou um filme?

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