O Kosovo onde é mesmo que fica?

KOSOVO 2.pngTem coisas que não mudam nunca. Outras vão piorando a cada diz que passa… Há cerca de 20 anos escrevi um texto-desabafo sobre a guerra que então se travava entre a Sérvia cristã e a Província separatista do Kosovo, de maioria islâmica. A tônica do despretensioso artigo, que iria apresentar como trabalho escolar da disciplina de Filosofia da Ciência no doutorado em Saúde Pública da Fiocruz, era expor e deplorar mais uma manifestação da irracionalidade e intolerância humana. Tentei fazer um paralelo entre três situações distintas: o consumismo das classes médias e baixas no Brasil, a violência no futebol e aquela (mais uma…) guerra balcânica. Não sei se consegui ser bastante claro em meus argumentos, por isso acabei não utilizando academicamente o tal exercício. Aliás, ficou escondido por duas décadas… Ao relê-lo, por estes dias, percebi que talvez ele tenha significado ainda pois afinal, as guerras étnicas não acabaram, o consumismo disparou (junto com a inadimplência…) e o futebol atual ainda é este horror em que se combinam grana, violência e  falcatruas diversas. Portanto, a meu ver, o artiguinho continua valendo… Leiam a seguir…

 

Sol escaldante em uma capital do norte do país. Além do calor, umidade, falta de ventos e para piorar um trânsito lento, quase parado. O motorista do taxi me chama atenção para o veículo ao lado, um fusquinha, igualmente empacado do tráfego, como nós. Lá dentro, quase não se vê o motorista, escondido atrás de vidros espelhados e… fechados (!) apesar da temperatura externa O taxista me diz «conheço este aí, sempre quis ter o que não pode; anda de vidros fechados neste calor todo só para os outros pensarem que tem ar condicionado no carro…»

 

 

Chovem mísseis sobre Belgrado. Pontes, edifícios públicos, torres de TV, quartéis destruídos. Como a pontaria dos pilotos da OTAN ás vezes deixa a desejar, um ou outro prédio de apartamentos, escola ou trem transportando civis é atingido: guerra é guerra, esclarece um civilizado general belga ou francês. Nada pode ser  tão parecido com o Inferno. A alguns quilômetros dali, um outro Inferno se encena. Neste não há mísseis, mas sim grupos para-militares; no lugar das sirenes nas madrugadas, os gritos dos milicianos encarregados da «limpeza»; não se percebe o sibilo das bombas, mas sim o matraquear de metralhadoras na noite e os corpos dos «etnicamente incorretos» abandonados nas estradas; não há abrigos anti-aéreos – a única chance é a passagem desesperada pela fronteira de um país ainda mais desgraçado pela miséria e pela marginalidade à nova ordem do Mundo.

 

….

 

Tarde de Domingo na grande cidade. Nas arquibancadas do estádio lotado os policiais fazem uso intensivo de seus cassetetes e bombas de gás  lacrimogêneo para conter a multidão, a maior parte de jovens, que se agride verbalmente e, quando possível, com o que estiver às mãos. Muitos já foram presos ou remetidos para o atendimento de emergência dos hospitais da área. Do outro lado do alambrado, rola a pelota, pachorrentamente. Festa de cores e tons: fumaça do talco e dos fogos de artifício, torcidas uniformizadas, a grama verde e bem cuidada. Os antigos uniformes dos times, «rubros», «alvis», «celestes», etc. transformaram-se em murais de propaganda de empresas multinacionais e nacionais, mas, ainda assim, o espetáculo tem beleza e brilho. Mas além-fosso, o pau quebra, de maneira selvagem e já quase fora de controle…

 

O que estes acontecimentos, tão díspares e tão distantes têm a ver uns com os outros? O mundo é tão vasto, tão diferente… Ou será que, na verdade, ele muito se repete, em fórmulas e fórmulas, cada vez mais previsíveis. Mas além do que é permanência e repetição, não persistirá e aumentará, sempre, uma tremenda complexidade?

 

O que têm em comum o biscateiro que conseguir comprar seu carrinho e já sonha (e mais do que isso, fantasia) com um ar condicionado; o jovem hulligan da periferia, satisfeito e aliviado após dar (e levar) porradas na morna tarde do futebol de Domingo; o kosovar que é fuzilado nas madrugadas de seu remoto cantão ou obrigado a abandonar sua casa, mas que amanhã – ou ontem – faria (ou fez) o mesmo com seu vizinho sérvio?

 

Sinais de um mundo ao mesmo tempo complexo, nas suas múltiplas relações inter-culturais, na inter-dependência, nas suas aparências contraditórias, nas suas repetidas fórmulas de canalizar o ódio e a violência, o espírito de imitação, a assimilação sem crítica do que vem de fora, a irracionalidade dos comportamentos, etc.

 

Este é ou deve ser o tal do mundo globalizado. É preciso entendê-lo melhor. Globalizar, seja os comportamentos políticos, econômicos, interpessoais, ou mesmo a própria Cultura, parece ter, no mundo atual, o estatuto de receita, meta inevitável, obscuro objeto do desejo individual e coletivo. Imita-se, aceita-se, incorpora-se o lixo e o luxo, o joio e o trigo, o ócio e o negócio,  colocados em um mesmo «saco comum», em que a forma é privilegiada, mas o conteúdo, na melhor das hipóteses, é considerado, de forma dicotômica (como tudo o mais, em tal contexto), ora como utopia, ora como mal-estar. O senso-comum é taxativo: «muito bom para mim e para os meus»; ou então: «perfeito, mas para outro tempo e outro lugar». Assim como a democracia liberal, assimilada «à moda da casa» pelos escravocratas do Império, o ar condicionado de fantasia, o hulligan que não vive no welfare state thatcher-blairiano, mas que só conhece o imenso mal-estar – «os punhos fechados da vida real» – sem identificar e entender, de longe que seja, suas causas.

 

Estilos de vida que caminham juntos, sim. Mas o hulligan tropical um dia será igual ao seu colega inglês ou holandês? A Favela Naval e a Invasão da Estrutural serão o nosso Kosovo? Nosso presidente continuará a desfilar pelo mundo em seu fusca de vidro espelhado e fechado, como se usufruísse o ar-condicionado da modernidade, da sintonia com a globalização? Aliás, certamente a tal da globalização pode ser até ser ruim para os outros; para nós, abençoados por Deus como somos, só trará os bons frutos – uma ou outra laranja podre será descartada… Ar-condicionado ou reflexo condicionado?

 

Tocqueville, há um século e meio, sabia das coisas e falava em «duas humanidades distintas», com suas vantagens e desvantagens, a serem entendidas dentro do quadro de suas diferenças e distâncias, não fora delas. As diferenças, os Kosovos e as Invasões do DF, os Morumbis e os Beverly Hills, dialeticamente nos mostram que não é descabido ter esperança – não de que o vinagre se transforme em mel – mas de que nós próprios (e os outros, os de fora) nos aceitem tal como somos. Assim seremos mais felizes? Conte essa para os generais da OTAN, e para Milosevic, como quem diz: «aceitemos melhor estes sérvios (ou estes kosovares, estes hulligans de subúrbio, estes bregas que sonham com ar condicionado, etc). Eles são apenas gente ainda mal aculturada, ou melhor, aculturada à sua maneira, entendidos equivocadamente por si próprios e pelos outros na sua «fidelidade a si mesmos», portadores do tal «milagre da identidade»? As coisas realmente são mais complicadas do que parece. Nós todos, por via das dúvidas, continuaríamos tendo precauções frente a kosovares, sérvios, Rambos e mesmo diante do Zé, aquele, do fusquinha-sem-ar. E evitaríamos trafegar nos lugares onde estes cidadãos mal modernizados estivessem presentes. Tal é o mundo…

 

O futebol é matéria para muita conversa e um pouco de reflexão. Nós inventamos os hulligans tropicais, mas esquecemos de inventar os bobbies educados, sem armas, pedindo «dá licença, cidadão» para te conduzir à delegacia da esquina, apenas para um pequeno esclarecimento. Ou será que o Rambo fez escola e já não se fazem policiais ingleses como antigamente? Pelo menos Carlitos, o vagabundo, já não tinha, há pelo menos oitenta anos, muita certeza disso. Mas o futebol… Lima Barreto, escritor nascido pobre, injustiçado em sua época e, além do mais,  mulato, tinha tudo para gostar do esporte bretão e no entanto o renegava. Já Olavo Bilac, filho e íntimo das elites urbanas conservadoras, entre uma e outra ausculta aos astros, achava o nobre divertimento um barato. Até aí, nada de estranho, afinal é preciso ter uma visão duplamente crítica, seja dos pressupostos da globalização e da modernidade, seja a respeito das nossas atitudes e valores, como nos lembra Roberto DaMatta, o prestigiado antropólogo brasileiro, radicado nos Estados Unidos. O «esquema» damattiano e de muitos outros intelectuais é mais ou menos o seguinte: relativizemos… Eu, modestamente, acho que é se deve ir mais além. Lembro-me de Umberto Eco, em seu livro «Viagem à Irrealidade Cotidiana», falando de futebol. Onde foi parar a glória deste esporte, feito de emoção, de arte, malícia, estratégia e beleza, muita beleza? Nelson Rodrigues reclamava da falta que lhe fazia, nos estádios, o pity histérico das mulheres torcedoras. Eu junto minha voz à de Eco para deplorar a perda da pureza e da beleza do esporte, da transformação de seus praticantes em out-doors ambulantes, movidos a bichos milionários, da invasão do complexo esportivo-industrial (a Nike esta aí, para não me deixar mentir), da impossibilidade contemporânea de alguém ver um jogo sem o ruído das intermediações da mídia, dos comentaristas, da tecnologia esportiva, da economia, da globalização (afinal, nada tão globalizado como o futebol), das projeções que a o inconsciente  da massa produz e da agressividade assim canalizada. Acho que Lima Barreto não precisava ser tão «relativizado» assim, pois talvez não estivesse tão equivocado – um profeta que via o futuro, quem sabe.

 

DaMatta, de sua torre californiana, propõe  «canibalizarmos a globalização». Afinal, se já o fizemos com o futebol, com as modas estrangeiras, com o carnaval e com tantas coisas mais, qual seria o problema? Seria a confirmação de nossa vocação de sermos os «pigmeus de bulevar» de que fala Chico Buarque. Mas isto seria assim tão incontestável e irreversível? Será que não dá para sermos canibais autofágicos de vez em quando, à maneira dos modernistas de 22, ingerindo, mastigando, deglutindo e expelindo alguns dos nossos elementos de atraso? Sim, porque qual será a vantagem de se ser uma nação de  «Napoleões retintos», de sábios portadores do «jeitinho», de heróicos malandros, de filósofos do «mamãe-eu-quero-mamar»? Isso nos tirará do atraso e nos impulsionará para o século XXI?

 

Alguns, como o nosso antropólogo, acreditam que, diante da globalização irresistível, talvez fiquemos mais conscientes da nossa singularidade e praticantes da nossa fidelidade ás origens. Eu me permito ser um pouco mais pessimista, ou, em troca, menos relativista. Assim como se pode falar em  «valores» tais como Democracia e Liberdade, porque não acreditar também na força da Ética, da Solidariedade, da Comunicabilidade, da Persuasão? A globalização pode ser vista apenas um fenômeno político e econômico, com decorrentes exclusão e mísseis na cabeça dos descontentes. Mas certamente seria possível procurar mais fundo na verdadeira mixórdia que ela provoca, para ver se muita coisa do que anda por aí não seriam espasmos de um mundo que dá sinais de esgotamento.

 

Enquanto isso, Clinton e Milosevic, caipiras e autoritários, farinhas do mesmo saco de arrogância e intolerância, persistem em sua barbárie; a galera dos subúrbios continua agindo como se seu real inimigo fosse o cara com a outra camisa, da outra horda; o  Zé compra um Chevette e agora ostenta um telefone celular, que fala de verdade (pelo menos nisso foi «incorporado»), mas não abre a janela do carrinho.

 

O Kosovo está (também) aqui entre nós.

 

 

 

 

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