Uma voz d’Além-Mar

ANA MOURAEntendo de musica quase tanto quanto entendo de vinhos. Sei diferenciar o que é muito ruim do que é, pelo menos, bom. No meio do caminho costumo me perder… Entre um Chico Buarque e um Xororó, por exemplo, sei bem onde coloco meus ouvidos. O mesmo se dá quando tenho que escolher entre um Chapinha e um Clos de Torribas. Mas pensando bem, tanto em termos musicais como enólicos o melhor mesmo é descobrir coisas novas. E justamente agora me vem de Portugal, terra de ótimos vinhos, uma nova (para mim, pelo menos) e encantadora voz: Ana Moura.

Mais uma fadista? Até certo ponto, sim, mas penso que ela vai além, embora aqui valha ressalvar que também não entendo muito de fados. Não sei que rótulo dar a ela. Aliás, poderia dar uma olhada no google e ver como os verdadeiros críticos a classificam. Mas não é isso que importa aqui.

Ana canta fados, como canta também música de bailaricos aldeões (do tipo “vira”), toadas tribais angolanas, baladas românticas, modinhas (se é que o nome é o mesmo lá…), world music – e vai por aí a fora. Canta também em inglês, com alguma pronúncia lusa, formando um sotaque gostoso que deve ser o mesmo que apresentava Fernando Pessoa. Sua versão de Lilac Wine não fica nada a dever a Nina Simone, embora menos uterina. E se não fosse o bastante, já cantou com Rolling Stones, Herbie Hancock e Prince. E se apresenta com frequência em salas e arenas nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Brasil e sabe-se lá onde mais.

Ana tem menos de 40 anos, começou cantando rock ainda na adolescência, tem pais ligados à música e nasceu – assim como Pedro Álvares Cabral – em Santarém, Portugal. Isso – agora sim! – é o que me diz o google.  E detalhe importante: ela é tremendamente linda e sexy, além de super simpática e acolhedora com o seu público. Suas apresentações são marcadas por grande empatia com um público apaixonado, frequentemente convocado por ela a cantarem juntos, com total correspondência. E ela, esbelta, sensual, calorosa não deixa por menos, se movimenta e dança o tempo todo no palco, em longos vestidos colantes, cheios de brilho, mas sem deixar de lado o bom gosto, com muita sensualidade, sem nenhum deslize vulgar.

Ana Moura está na estrada há quase duas décadas, pois começou cantando muito jovem, em barzinhos e sua aldeia natal. Quant o a mim, tenho que admitir que cheguei meio tarde a seu fã clube, pois  acabo de conhecê-la há, por artes de um desses spotify da vida.

Ana apenas canta, ao que parece não compõe. Sua interpretação por vezes é grave e mesmo teatral como convém aos fadistas, na tradição de uma Amália Rodrigues. Mas ao proferir uma frase clássica do fado, do tipo “de quem eu gosto nem às paredes confesso”, com os olhos fechados, o rosto crispado e a voz de contralto que parece sair do corpo todo, não apenas da garganta, é a própria efigie da sensualidade e da beleza. Digna de uma Ellis Regina. Ana é de fato uma Deusa! Não há como escapar de seu carisma.

O bom gosto com que escolhe seus “temas”, como ela mesma diz nas gravações ao vivo, é coisa notável. Ver a lista (nem sempre disponível) dos compositores e letristas que ela prestigia em suas interpretações, por si só nos induz a querer saber mais não só a respeito do que mais produziram e produzem musicalmente, mas ir mais fundo na cultura portuguesa, seja no campo tradicional ou no pop.

Selecionei para os meus leitores alguns momentos de Ana Moura, para que possam apreciar seu talento e ter uma medida de minha súbita paixão por ela. Insiro aqui também um link para uma entrevista dela a Jô Soares no longínquo ano de 2011. Não sou ciumento, aproveitem à vontade.

  1. Desfado

Esta canção foi composta por Pedro da Silva Martins e gravada por Ana Moura no álbum Desfado, de 2012. Infelizmente, é raro encontrarmos créditos das músicas na internet. Coisas modernas, mas, sem dúvida, desrespeitosas com aqueles que compõem músicas e escrevem letras, tão importantes (ou mais, às vezes…) do que os que cantam.

A canção é um fado rápido e dançante (seria um “fadão”, no modo de falar brasileiro, assim como tempos “batidão” e “sambão”…) e foi considerada a melhor canção portuguesa de 2012, recebendo inclusive um Globo de Ouro. Em Portugal, o álbum Desfado, no qual Desfado está incluída, já tem sido considerado um clássico, tendo se mantido no topo das paradas desde que foi lançado e recebeu Discos de Platina cinco vezes seguidas.

A letra reflete uma barafunda existencial, de um pobre ser para o qual o destino quer que não creia no próprio destino e cujo fado é “não ter fado nenhum”. Para tal sentidor, tristeza é sinônimo de alegria e alegria, por sua vez, equivale a uma grande tristeza. E também se percebe uma desilusão amorosa quando profere: “esperar que um dia eu não espere mais um dia, por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente”. O refrão é precioso: “ai que saudade, que eu tenho de ter saudade, saudades de ter alguém, que aqui está e não existe, sentir-me triste, só por me sentir tão bem, e alegre sentir-me bem, só por eu andar tão triste”.

Saudades de ter saudade… Querem coisa mais pungente do que isso?

E finaliza, em apoteose que lembra um verso camoniano: “Ai que desgraça esta sorte que me assiste / Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada / Na incerteza que nada mais certo existe / Além da grande certeza de não estar certa de nada”.

Não deixe de ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=TZurR7xGk4c

  1. Meu amor foi para o Brasil

Uma canção deliciosa, com Letra de Carlos Tê. Tem toada mais dramática, um fado típico, às vezes lembrando o andamento de um tango. A letra define o sentimento de uma mulher abandonada por alguém que emigrou para além-mar, deixando “promessa de carta de chamada” e na barriga da pobre saloia uma semente, logo convertida em “flor espigada” que “quer saber do pai ausente e ela não lhe sabe dizer nada”.

E tem maus presságios a pobre mulher deixada para trás, ao imaginar que o homem que ela ainda espera: “Anda perdido no meio das caboclas / Mulheres que não sabem o que é pecado Os santos delas são mais fortes do que os meus / Fazem orelhas moucas do peditório dos céus / Já deve estar por lá amarrado / Num rosário de búzios que o deixou enfeitiçado”.

E dá asas à imaginação, com seu amor tão longe, do lado de de baixo do Equador: “O meu amor foi seringueiro no Pará / Foi recoveiro nos sertões do Piauí / Foi funileiro em terras do Maranhão / …  / O meu amor já tem jeitinho brasileiro / Meteu açúcar com canela nas vogais / Já dança forró e arrisca no pandeiro / … / Anda perdido no meio das mulatas / Já deve estar noutros braços derretido / Está em São Paulo e trabalha em telecom / Já deve ter “doutor” escrito num cartão / À noite samba no “Ó do Borogodó” / Esqueceu o Solidó, já não chora a ouvir Fado / Não sei que diga, era tão desengonçado / Se o vir já não quero, deve estar um enjoado”

Que modo mais gentil e doce de falar das diferenças de pronúncia entre o Brasil e Portugal: “meteu açúcar com canela nas vogais”.

Quem souber que me explique o que é “trabalhar em telecom”…

O desengonçado, ao que parece, vai se transformar em um enjoado – eis uma imagem realmente engraçada e curiosa…

Agora, não deixe de ver e ouvir a graciosa Ana Moura nesta canção: https://www.youtube.com/watch?v=Pey1B0DPZj0

  1. Dia de folga

O tema lembra um pouco a nossa A Banda, de Chico Buarque, mas o ritmo aqui é o de um bailinho de aldeia lusitana. Não está de todo longe do convite à dança que também uma boa marchinha propõe a todo mundo.

“Manhã na minha ruela,sol pela janela / O Sr.Jeitoso dá tréguas ao berbequim  / O galo descansa, ri-se a criança  / Hoje não há birras, a tudo diz que sim  / O casal em guerra do segundo andar  / Fez as pazes, está lá fora a namorar  / Cada dia é um bico de obra  / Uma carga de trabalhos, faz-nos falta renovar baterias, há razões de sobra  / Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga  / É dia de folga! / Sem pressa de ar invencível, saia, saltos, rímel  / Vou descer à rua, pode o trânsito parar  / O guarda desfruta, a fiscal não multa  / Passo e o turista, faz por não atrapalhar  / Dona Laura hoje vai ler o jornal  / Na cozinha está o esposo de avental  / Cada dia é um bico de obra  / Uma carga de trabalhos, faz-nos falta renovar  / Baterias, há razões de sobra  / Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga  / É dia de folga! / Folga de ser-se quem se é  / E de fazer tudo porque tem que ser  / Folga para ao menos uma vez  / A vida ser como nos apetecer  / Cada dia é um bico de obra  / Uma carga de trabalhos, faz-nos falta renovar  / Baterias, há razões de sobra  / Para a tristeza ir de folga e o fado celebrar  / Cada dia é um bico de obra…”

Aqui a moça feia pensa que a banda tocava pra ela; lá dona Laura vai ler o jornal enquanto o marido cozinha; A gente sofrida despede-se da dor e vai carregar as baterias no fado; o faroleiro desiste de contar vantagens e os guardas abrem mão das multas. Xangrilá é aqui – e lá!

Aqui um dicionário de português lusitano nos ajuda. Bico de obra significa embaraço ou dificuldade e berbequim é uma ferramenta manual de se fazer furos na madeira, talvez corresponda ao que no Brasil se chama de pua ou verruma.

Bom proveito¹: https://www.youtube.com/watch?v=KjN0BoDO_Sw

 

  1. Agora é que é

Outra música com jeito de bailarico de Aldeia, com uma pitada de non-sense e possível mensagem política.

“Faltam palavras P’ra loucura do momento Alguém mentiu no juramento Alguém nos trouxe este pesar Salvem as pratas Pela porta do jumento Já não temos muito tempo E ainda havemos de dançar Não houve balas Nem vontade de atirá-las Não faltam bate-palas A quem nos traz tanto penar Houve promessas E agora faltam peças Levam louças e sanefas Cuidado, querem voltar! Agora é que é Agora é que é! Ou fazemos malas Ou fazemos marcha à ré Agora é que é Agora é que é! Ide lá buscá-las E quem caiu ponha-se em pé! Houve canasta E uma gente muito casta Um ar sisudo é quanto basta Cair nas graças da vizinha Vinham de fato Engomado na gravata À mesa com quatro facas E uns alarves na cozinha E houve festa De gente que se detesta Eu não tenho um T na testa Que bem os via na vidinha Foi-se a saúde Com os galãs de Hollywood Maracas e alaúde E agora toca a dançar! Agora é que é Agora é que é! Ou fazemos malas Ou fazemos marcha à ré Agora é que é Agora é que é! Ide lá buscá-las E quem caiu ponha-se em pé! Já não me lembro Se foi num dia de Setembro Já nem sei se era membro Ou se lá estava por azar! Abram as comportas Que frio vem dessa porta Tanta gente a dar a volta E o Baile vai começar!”

Refrão inesquecível, que nos remete à política: “ou fazemos malas, ou fazemos marcha à ré”. Para um país em total marcha ré como o nosso é perfeito…

Com vocês: Ana Moura! https://www.youtube.com/watch?v=0gMXqdjU42s

  1. E agora a Musa no programa do Gordo…

https://www.youtube.com/watch?v=3YLlYfa3Gj0

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