Três Marias

A primeira delas é personagem da minha infância. Convivi com ela pelo menos até os dez anos de idade. Era uma daquelas pobres garotas nascidas na roça, negra ainda por cima, que alguma pessoa da cidade, supostamente bondosa, ou caridosa, pegava “para criar”. Tal foi o caso dela, sobre o qual minha mãe, que via em tal atitude algo muito honroso para si, não se furtava a dizer algumas vezes: “sei que me dá muito trabalho criar uma menina que nem é da família, mas é o que posso fazer por gente tão pobre”. E por falar em trabalho, vale a pena lembrar a quem isso afetava de verdade. Ela acordava antes de nós todos, para preparar o Toddy matinal, passar margarina nas fatias de pão, fiscalizar a nossa escovação de dentes, nos aprontar para a escola ou nos deixar prontos para começar o dia com roupas trocadas, fraldas retiradas, boca limpa. Não era pouca coisa, éramos quatro na ocasião, com disposições e manias diferentes, que às vezes faziam com que tais operações matutinas adquirissem uma morosidade enorme, a desafiar a paciência de qualquer um. Mas não a dela, que o máximo que fazia contra nós era ameaçar contar tais novidades para nossa mãe, sem concretizar, todavia, tal disposição a maioria das vezes.

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Vaga, lembrança (Memórias)

Resolvi escrever minhas memórias. Pretensão demasiada, talvez… Acontecimentos que vivi não foram poucos, claro, afinal quase são quase 75 anos de vida. Mas importantes mesmo foram: meu comparecimento à inauguração de Brasília em 1960; minha opção para o Colégio Universitário em 1966, deixando para trás a verdadeira zona de conforto do Colégio Estadual; minha bolsa de estudos nos States, em 1970; minha opção, junto com Eliane, de deixarmos outra zona de conforto, em BH, para ir para o Oeste, para o interior, em 1974; ter sodo Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia, em 1983 e depois em 2003; a opção por morar em Brasília, em 1991; minha participação, hoje meio esquecida, no Movimento Municipalista de Saúde nos anos 80; a construção de minha casa “definitiva” nas Taboquinhas, 2010-11; além, é claro – e principalmente – do nascimento de cada um dos meus cinco filhos, Daniela (1974); Mauricio e Fernanda (1976); Flavinho (2003) e Sophia (2006). Mas o que produzi de importante, de fato, em termos de alcance social ao longo de minha vida? Não se trata de modéstia, foram poucas coisas mesmo. Mas em três delas ninguém me tira o orgulho de ter participado, diretamente, com muita crença e afinco. Primeiro, o tal movimento municipalista, no qual ajudei a fundar duas entidades hoje da maior relevância na política de saúde no Brasil, os Conselhos de Secretários Municiais de Saúde de MG e Nacional (Conasems). Tem também o estágio dos alunos de Medicina da UnB em Ceres, depois de três décadas de afastamento da Faculdade deste tipo de atividade, lá encontrando pessoas certas para viabilizá-lo. Por último a criação e a operação do blog Saúde no DF, cujo slogan é A Saúde no Distrito Federal tem jeito! no qual, em cinco anos ininterruptos de funcionamento, já botei para circular mais de 300 matérias, todas de minha autoria. Só não me perguntem pela real repercussão e influência disso na política de saúde desta cidade. Um dia, quem sabe… Mas se você estiver interessado, vire a página e prossiga na leitura…

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Não foi uma vida qualquer…

Viver mais de cem anos, para quem acabou de nascer, pode até ser considerado uma coisa fácil. Na atual geração muitos conseguirão isso sem maior esforço, graças às vacinas, aos cuidados médicos, às informações abundantes, à água tratada e à boa alimentação. Haverá sempre alguém que mesmo assim não chegará lá. Faz parte da vida… Mas outra coisa é ter nascido em 1919, quando mundo … Continuar lendo Não foi uma vida qualquer…