Aquele homem

Que personagem! Por alguma razão, talvez por não desejar repetir sobre a terra o que a terra engolirá, não se casou, sem que isso significasse castidade ou celibato definitivos – aspectos, todavia, não declarados ao público em geral. Viveu uma vida de funcionário público modesto, depois de uma carreira como bancário, da qual se afastou muito antes de se aposentar, não tolerando, ao que parece, aquele ambiente de guichês, horários, gerentes e regras fiscais, além de motivos de saúde. Morou sempre em quartos de hotéis, variando na qualidade, sempre reduzindo-a, à medida em que ia ficando mais velho e com o salário encurtando cada vez mais.

Continuar lendo “Aquele homem”

Visita ao Velho

Sim, era preciso visitá-lo. Ele, o Velho Tio, fazia parte de nossa vida, desde a mais remota infância. Da minha vida, mais do que da dele, meu irmão mais novo, que teve menos convivência com tal figura, para mim tão marcante. Ele morava longe, cumpria fazermos aquela viagem longa, que deveria ser premeditada, porém sem termos tempo para tanto.

Fizeram uma cachorrada comigo, era como ele explicava a origem dos acontecimentos que o derrubaram, sem apelação, na cama que poucas semanas depois o acolheu na morte. Falava da passagem atabalhoada do velho cão de fila da fazenda pela porta da cozinha, onde ele justamente tomava um café e acendia o cigarro de palha habitual nas manhãs. E sem mais se viu jogado ao chão, gerando um doloroso calombo na coxa, que ele mesmo, no ato, diagnosticou como uma fratura de cabeça do fêmur.

Continuar lendo “Visita ao Velho”

Tributo a Ricardo de Freitas Scotti, com quem muito aprendi

Quando soube da passagem deste meu amigo, procurei logo saber informações biográficas mais detalhadas sobre o mesmo, pois gostaria de homenageá-la aqui neste espaço. O Conass, Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde, em cuja construção ele teve participação fundamental, me atendeu e me municiou logo sobre tal pedido, mas cheguei à conclusão de que não precisaria dispor de tais dados, pois o que realmente fazia sentido para o meu relato era o que a memória me trazia de maneira farta, sem outros adereços.

Continuar lendo “Tributo a Ricardo de Freitas Scotti, com quem muito aprendi”

Mais apontamentos para a História do SUS

Tenho escrito sobre tal tema aqui. Ver, por exemplo, o texto seguinte, publicado, por ora, apenas neste espaço [O SUS: histórias que ninguém contou – Vereda Saúde (veredasaude.com)]. Trata-se de assunto que está longe de se encerrar, pelo menos para mim, que acredito que tal história ainda não foi contada por inteiro e o que é pior, é muitas vezes narrada dentro de uma determinada ótica, que eu chamaria de triunfalista ou, para ser mais específico, uma narrativa de quem acha que em relação ao SUS tudo já foi conquistado e que se algo deu errado só pode ser culpa dos adversários, não de quem agiu dentro do sistema e sempre com as melhores intenções. O que segue adiante representa o produto de reflexões que fiz no início dos anos 90, no calor da fundação do SUS, portanto, como introdução à minha dissertação de mestrado na Escola Nacional de Saúde Pública. Eu que vinha da carreira universitária me colocava, então, como um “intelectual-dirigente”, utilizando terminologia gramsciana, embora admitindo que premido pelas contradições da realidade não me era possível sentir “completo” nem como intelectual, nem como dirigente, donde se tornava essencial buscar “um norteado” para as coisas, torná-las “confiáveis ao meu coração”. Com efeito, em trabalho anterior, inspirado em Gramsci, eu refletia que o modo de ser deste novo intelectual incluía o desafio de praticar uma pedagogia alternativa, na qual o ato de educar deveria ser fundamental, não só na vertente da academia, como da administração pública e também no parlamento, na assessoria aos movimentos sociais. Isso implicaria em romper com falsas totalidades impostas pelo pensamento dominante, ou mesmo aquelas do tipo “o povo tudo sabe”; promover o preparo dos homens, enquanto sujeitos ativos, para a participação política, para o questionamento das ideias, para a independência cultural, para a conquista da cidadania social; tomar como ponto de partida o senso comum das percepções e imagens, mas acima de tudo, submetendo-o  à crítica e à superação verdadeiramente dialética. Só assim o “homem comum” poderia se tornar, ele também, intelectual e dirigente, e o intelectual-dirigente seria capaz de superar a eloquência vazia do saber oficial, construindo um conhecimento verdadeiramente organizador e transformador sobre as coisas “vãs e mudáveis” da realidade social. Mais gramsciano, impossível, portanto. Mas vamos ao texto em questão, que trago aqui como um registro de ideias sem dúvida datado, mas que poderá ajudar, quem sabe e um dia, na escrita da verdadeira história da política de saúde no país, longe de qualquer virtuosismo, triunfalismo, academicismo ou derrotismo.

Continuar lendo “Mais apontamentos para a História do SUS”

E a Medicina, a que será que se destina?

Ao começar a escrever esta memória, lembrei-me de uma letra de música de autoria do grande Aldir Blanc, que aliás usei em meu convite de aniversário quando completei 50 anos idade, em 1998. Chama-se 50 anos – Bodas de Sangue e foi musicada pelo pianista Cristóvão Bastos, se não me engano. Dizia assim: Eu vim aqui prestar contas / De poucos acertos / De erros sem fim / Eu tropecei tanto as tontas / Que acabei chegando no fundo de mim / O filme da vida não quer despedida / E me indica: ache a saída. Posso até relativizar esta história de erros e acertos, tropeços, despedidas, sangue, prestação de contas. Não quero ser dramático. Mas de fato, aquilo que o também médico Aldir escreveu me leva a pensar no filme de minha vida, particularmente diante dos 50 anos que completei na prática de medicina – de uma determinada modalidade, mas sempre Medicina. Mas vamos lá.

Continuar lendo “E a Medicina, a que será que se destina?”

Família

Família, família / Papai, mamãe, titia / Família, família / Almoça junto todo dia / Nunca perde essa mania…

A conhecida letra dos Titãs, talvez de Arnaldo Antunes, um mestre de poesia, sensibilidade e ironia, tudo junto ao mesmo tempo, fala dos vários lados que toda família tem, seja como afeto ou tédio. Como todas as famílias, a minha é assim também. Aliás, como todas elas, a minha é também única. As coisas, com ela, são sempre as mesmas, mas sem que isso percam sua originalidade e um forte sentido positivo, de pertencimento, palavra que representa, afinal, a parte melhor e insubstituível de poder viver no seio de tal instituição, sempre criticada, mas ao mesmo tempo desejada. Não preciso dizer mais nada. Trago aqui uma galeria familiar pessoal extensa, que cronologicamente parte do passado até chegar aos novíssimos descendentes, meus netos, incluindo também aqueles que ao meu grupo mais próximo vieram aderir, como genros e nora.

Continuar lendo “Família”

É pouco, mas é o que me foi dado viver…

Fala por mim Luiz Vaz de Camões: Erros meus, má Fortuna, Amor ardente…

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Continuar lendo “É pouco, mas é o que me foi dado viver…”

Extraordinary people

Não são poucas as pessoas que marcam, de perto e de forma profunda, a vida da gente. Isso depende de como elas são observadas, claro, pois achar gente assim depende muito de saber prestar atenção naqueles que nos rodeiam. Selecionar algumas delas, para figurar dentro de tal galeria de “notáveis” pode não fazer justiça a muitos, ou até mesmo tratar indevidamente a alguns que talvez não o sejam. Vamos combinar, então, um conceito a ser aplicado no caso presente: notável, aqui, traz implícito um complemento: para mim, ou no meu entendimento. Mesmo assim, bem sei, pode ser uma classificação injusta, pois a muitos outros, cuja notabilidade também fosse digna de menção, talvez eu tenha falhado em percebê-la. Dito isso vamos em frente. Aqui vai uma pequena galeria pessoas, sejam colegas de escola e faculdade, companheiros da profissão, professores, alunos, gente, enfim, de quem me aproximei por razões diversas e que me deixou lembranças.

Continuar lendo “Extraordinary people”

Triste (mas nem tanto) Horizonte

Drummond se indagava: “por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua, branda: Volta lá.” Sem maiores pretensões de querer me comparar com o poeta-maior, devo admitir que às vezes tal pergunta também me passa pela cabeça. Assim como ele, vivi um tempo na cidade e depois me mudei, para voltar ali apenas esporadicamente. Neste aspecto, contudo, levo por assim dizer uma vantagem sobre ele, que viveu lá, ao que me parece, no máximo uma década, quando eu ali passei os primeiros 22 anos de minha vida. E, ao contrário dele, volto lá no mínimo duas ou três vezes ao ano, sem me fazer de rogado, por ainda ter na cidade filha, netos, irmãos, sobrinhos, e principalmente uma mãe. De modo que não me seria coerente proferir como ele um carrancudo: Não. Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser. Confesso que às vezes me sinto assim, meio gauche com a cidade, portador de duas alegrias quando vou até lá: a de chegar e a de sair, não sei qual das duas a mais significativa. Mas não posso negar que ali passei anos bem felizes, mas não somente isso, foi nela que pude fazer toda minha formação escolar, profissional, intelectual, amorosa, espiritual. No meu caso particular, com efeito, não dá para esquecer aquela urbe provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas e para tanto, realmente, nem preciso me esforçar. Penso que um pouco de minha sintonia (não direi admiração e nem mesmo amor…) com Belo Horizonte pude trazer à luz em meu livro de memórias Vaga, lembrança (ver link) e resgato aqui alguns trechos que falam da minha relação com esta cidade, afinal, detentora de um horizonte que definitivamente não me traz tristeza e muito menos algum amor mal resolvido ou destroçado. Aqui vai…

Continuar lendo “Triste (mas nem tanto) Horizonte”

Principalmente nasci em Itabira

Para mim tal cidade, já há muitos anos (ou décadas) não é mais nem mesmo apenas uma fotografia na parede como disse Drummond. A foto que me ornamentou paredes, feita por mim mesmo em uma câmara pré-histórica, nos anos 60, há muito se perdeu, em algum pacote de mudança ou roída pelos cupins, da mesma forma que fizeram com a maioria das capas de long-plays que eu guardava fervorosamente, sem nunca ouvi-los. Mas voltemos à cidade. Frequentei Itabira, onde nasci em 1948, na minha primeira infância, por volta de 1954 ou 1955, passando dias memoráveis na casa de meus tios Virgílio e Marita. Depois, talvez pelos compromissos de meu pai, iniciando negócios próprios em BH, ficamos- toda a família – por alguns anos sem aparecer por lá.

Continuar lendo “Principalmente nasci em Itabira”