Chico e a Revolução dos Cravos

Portugal entrou pra valer em nossa ultimamente. Lula esteve lá, Chico recebeu o prêmio que a horda fascista lhe quis sonegar e a Revolução dos Cravos fez 50 anos. Adoro este país, tanto que nos últimos 10 anos estive lá nada mesmo do que cinco vezes. E quero voltar outras tantas, ora se quero! Aqui mesmo no meu blog já publiquei diversos textos sobre essas minhas viagens (ver link). Sobre Lula e Chico não há muito o que dizer: a imprensa e muitos de nós já disseram tudo. Os direitistas de lá e de cá também, mas não vale a pena ouvir e muito menos valorizar suas perorações, caso para psiquiatras, quando não veterinários. Mas Chico, esta rara unanimidade – à qual me associo – na minha visão cometeu um equívoco décadas atrás, quando resolveu refazer a lindíssima letra de Tanto Mar, para acrescentar uma nota de desgosto com o rumo que a revolução tomara. Disse ele: já murcharam tua festa, pá. Tenho minhas dúvidas se foi realmente assim. A sobredita Revolução dos Cravos foi, na verdade um golpe militar (para o bem) que encerrou a ditadura salazarista. De fato, não só Chico Buarque ficou contente. Nós todos, o que amamos a Democracia, ficamos alegres e esperançosos de que no Brasil houvesse algo igual, sem militares, claro. Aliás, militares, como se sabe, costumam pegar e não largar mais sua presa… Mas pouco tempo depois, o nosso Chico coloca na canção seu sentimento de decepção. Ele se referia à derrota dos comunistas e dos militares de esquerda nas primeiras eleições gerais depois do golpe. ele não gostou de tais mudanças, mas na verdade apenas aconteceu o que é comum e até desejável nas democracias que fazem jus a tal nome: a fila andou e o poder mudou de mãos, fazendo rodízio entre centro, centro-direita e centro-esquerda – e vem sendo assim desde então. Melhor para eles… Chico, um gênio da melodia e das letras, prêmio Camões de 2019, pelo menos neste caso não teve a clarividência necessária a uma boa análise política. Mas ele, que produziu tantas coisas boas na vida, tem créditos de sobra, pode errar um pouquinho, está perdoado…

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Filosofia e Pipocas

Vai aí um novo conto de minha autoria (ou, pelo menos, uma tentativa de fazê-lo)… Começa assim: Eu vendo pipoca na rua, em portas de colégio, de preferência. Não nasci fazendo isso, pelo contrário, estudei, cheguei até o curso médio, fiz concurso para banco e nisso trabalhei alguns anos. Depois os donos, trambiqueiros como eles só, deram um tombo no mercado e eu fiquei desempregado. Eu e mais uns dois mil… Se você gostou desta introdução, siga em frente.

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Um conto (mais um…)

Tenham paciência. Estou aposentado, sem muitas coisa para cuidar. Assim, escrevo uns contos. Aqui vai mais um. Apresento-lhes QUADRILHA MODERNA, inspirado no poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. e vão desculpando a ousadia…

João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

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Não foi uma vida qualquer…

Viver mais de cem anos, para quem acabou de nascer, pode até ser considerado uma coisa fácil. Na atual geração muitos conseguirão isso sem maior esforço, graças às vacinas, aos cuidados médicos, às informações abundantes, à água tratada e à boa alimentação. Haverá sempre alguém que mesmo assim não chegará lá. Faz parte da vida… Mas outra coisa é ter nascido em 1919, quando mundo … Continuar lendo Não foi uma vida qualquer…

Confesso que escrevi

Neste meu aniversário de 74 anos, dia 15 de julho, ganhei um super presente de minha mulher, Keta Camarotti, e o compartilho com vocês. Nele estão reunidos meus escritos neste blog ao longo dos anos- ou pelo menos os que achei mais significativos. O presente fica ainda mais completo com o Prefácio que ela fez, do qual transcrevo o seguinte: “Através destas crônicas, percebo que … Continuar lendo Confesso que escrevi

Proteção à saúde e Modernidade

Como mencionado em post anterior, relativo ao Programa (ou Estratégia) de Saúde da Família: por onde e como andará a política de saúde inaugurada nos anos 90 e que já foi responsável pelo atendimento a mais de 100 milhões de brasileiros? Praticamente não existem menções a ela no site da Secretaria de Saúde aqui do DF e nem na página do Ministério da Saúde, a não ser afirmativas genéricas e pouco atualizadas sobre seu conteúdo e alcance. A SF ainda vive, por certo, mas é flagrante o descaso com que vem sendo tratada no atual governo, com uma enxurrada de portarias burocráticas que a desfiguram a cada dia, até não chegar a ser sequer mencionada entre as políticas vigentes. Dando sequência à abordagem histórica das práticas de saúde no Mundo Ocidental, em particular daquelas que convergem para a formação do conceito de Atenção Primária à Saúde, abordarei neste post os principais acontecimentos relativos a tanto, do final do século XVIII até o momento atual, período genericamente conhecido como Modernidade. Mas é preciso lembrar que política social, como a da saúde, é sempre um fenômeno complexo e determinado de forma múltipla, com seus componentes de legitimação, reprodução econômica, mobilização social, racionalidades humanistas, ideológicas, libertárias, partidárias, religiosas. Aliás, questão social é, acima de tudo, um fato político entranhado em uma vasta gama de mecanismos representativos, de ações estatais, do produto das relações entre Estado, sociedade e mercado, gerando dinâmicas próprias como as articulações entre público e privado; direito e benefício; legitimação e conquista social; mérito e universalização, entre outras. Simplificação, linearidade e enquadramento em fórmulas pré-fixadas e atemporais representam caminhos para o fracasso na explicação do processo político, dentro do qual se inserem as questões referidas no preâmbulo. A superação destes escolhos pode se dar mediante uma abordagem dentro da qual as políticas sejam discriminadas em termos, não só de seus fundamentos, conteúdos e orientações ideológicos e políticos, mas também dentro das implicações resultantes das interações e dos embates entre as forças políticas em cada momento histórico.

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Quem não conhece a História, embarca nos equívocos do passado (ou tenta reinventar a roda)

Programa (ou Estratégia) de Saúde da Família: por onde e como andará a política de saúde inaugurada nos anos 90 e que já foi responsável pelo atendimento a mais de 100 milhões de brasileiros? Quem a procurar, por exemplo, no site da Secretaria de Saúde aqui do DF, não encontrará sequer uma palavra ou simples vírgula sobre ela. Na página do Ministério da Saúde o que se encontra são afirmativas genéricas e pouco atualizadas sobre seu conteúdo e alcance, sem mencionar o fato de que o setor está entregue, nos últimos anos, a uma trupe circense de bolsonaristas da espécie “Capitã Cloroquina” e outros negacionistas e fanáticos pseudo-religiosos de igual estirpe. A SF não morreu (ainda) mas é flagrante o descaso com que vem sendo tratada no atual governo, com uma enxurrada de portarias burocráticas que a desfiguram a cada dia, até não chegar a ser sequer mencionada entre as políticas de governo. Por esses e por outros motivos, principalmente pela sua capacidade de adicionar valor à atenção à saúde, fato confirmado em grande parte dos países do mundo, mas desprezado atualmente no Brasil, é que vale a pena resgatar aqui um pouco da história de seus princípios. Recorro ao que escrevi, cerca de 2002, em minha tese de doutorado na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, cujo link vai ao final (ver Saúde da Família: Boas Práticas e Círculos Virtuosos). E vamos começar por uma regressão temporal radical, à época da Idade Média, prosseguindo depois em direção à modernidade através de outros posts que serão acrescentados a este.

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Zaire, uma vida que valeu a pena

Nunca deixarei de lembrar, com muito orgulho, o fato de ter feito parte das duas administrações municipais capitaneadas por Zaire Rezende em Uberlândia, ente 1983 e 1988 e depois entre 2001 e 2004, que representaram, para a cidade, o surgimento de um novo modo de operar a gestão municipal, em termos de saúde e de outras políticas públicas, revertendo nestes dois momentos, com maior sucesso no primeiro deles, o modo tradicional desenvolvimentista e especulativo de governar a cidade, como se ela fosse uma capitania hereditária e não um lugar de vida para cidadãos verdadeiros. Eu conheci este sujeito singular através de uma apresentação formal, feita por seu quase primo, ou marido de uma sua prima, José Olympio de Freitas Azevedo que já era meu amigo. Logo pude saber que era médico, como eu, embora mais velho; natural da terra e de família tradicional de Uberlândia; formado no Rio de Janeiro e que passara mais de vinte anos fora da cidade, trabalhando no interior de São Paulo, e que agora voltava, para continuar a clinicar, como gineco-obstetra em um dos hospitais da cidade, onde já tinha amigos e parentes médicos. O que eu não fiquei sabendo naquele momento é que ele tinha aspirações políticas, ainda não totalmente reveladas na ocasião, mas confirmadas para mim algum tempo depois. Zaire nos deixou neste 31 de maio. Foi uma pessoa que me marcou profundamente durante a vida, como chefe, como amigo, como exemplo de cidadão prestante, humanista e responsável – pra dizer pouco. Nas linhas abaixo, eis como eu o deixei registrado em minhas memórias.

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Antônio Conselheiro e Jair Messias: algo a ver?

Certa vez, em remoto país, um jornalista foi designado para cobrir acontecimentos que movimentavam os territórios interiores, nos quais despontava a figura de um líder terrível, seguido por massas por ele fanatizadas e uma verdadeira guarda pretoriana que o guardava de quaisquer perigos, tudo isso no âmago de uma realidade terrivelmente pobre e inculta. Recorro aqui à sua narrativa original. 

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