Grande Sertão, grandes Chefes

Depois de mais de 50 anos lendo e relendo Guimarães Rosa, em particular este Livro dos Livros que é Grande Sertão: Veredas, ainda me encanto, não só com a forma e o estilo, mas também com a sabedoria que ali se carrega, por exemplo, a respeito de ser, estar e conviver no mundo; de ajudar a compreender as lições que isso nos traz; de saber ir atrás do quem das coisas; ou saber fazer novas perguntas sobre a condição humana, conforme expressões do próprio JGR. Foi assim que me dei ao trabalho de procurar neste sempre encantador e surpreendente GSV, precioso manancial de ideias e reflexões sobre a vida vivida, algo fundamental na vida de hoje – e de sempre: os desafios da liderança. Se formos aos manuais clássicos veremos que isso implica, entre outras coisas, em capacidade de comunicação; relacionamento com os comandados; consciência de se estar em equipe; transparência e sinceridade; capacidade de ouvir e saber se pronunciar em horas certas – coisas assim. E mais: ser um personagem inspirador – este talvez seja o atributo mais significativo. Mas não é que no Sertão do Rosa encontrei elementos a ampliar e fazer pensar sobre tal conceito? Sim! Refiro-me às características pessoais de três personagens fundamentais na obra, os chefes Medeiro Vaz, Joca Ramiro e Zé Bebelo. É claro que ser chefe e ser líder são coisas distintas, como nos ensinam os manuais, mas isso veremos mais adiante.

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O Urucuia em Rosa

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira-rio? Ou está mais interessado em comer um bom surubim ou dourado na brasa? Tudo bem, não chegaria a recomendar leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte de Brasília. Passando Formosa, você logo estará em altos chapadões o que só perceberá ao fitar o horizonte ainda mais amplo que o de Brasília. Esqueça – ou finja que não vê – a feia periferia de tal cidade e principalmente as bandeiras deste Brasil que não é o nosso que estão por toda parte. Siga em frente, deixando de lado o latifúndio totalmente improdutivo que é a imensa área pertencente às Forças Armadas à direita da estrada. Na primeira encruzilhada, virando à direita (apenas no sentido literal, da estrada…), a cidade que você logo encontrará, Cabeceiras, indica a situação geográfica da região, parideira de grandes rios. Aqui, a água flui para o São Francisco; um pouco antes para o Paranã, afluente amazônico e, mais atrás, para os formadores do São Bartolomeu, que via rios Paranaíba e Paraná, acabam desaguando em Buenos Aires. Cabeceiras de um continente, meu senhor! Algum corguinho verdoso desses – sem maiores pretensões – vai acabar dando no Urucuia, que corre para o Velho Chico. São personagens de uma história que está para começar. Deixa que eu apresento este Urucuia, “rio vermelho” na língua originária, que aqui principia a correr mundo e é marcante personagem de Grande Sertão: Veredas. Nada como viajar por ele na voz do próprio Guimarães Rosa.

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Mais apontamentos para a História do SUS

Tenho escrito sobre tal tema aqui. Ver, por exemplo, o texto seguinte, publicado, por ora, apenas neste espaço [O SUS: histórias que ninguém contou – Vereda Saúde (veredasaude.com)]. Trata-se de assunto que está longe de se encerrar, pelo menos para mim, que acredito que tal história ainda não foi contada por inteiro e o que é pior, é muitas vezes narrada dentro de uma determinada ótica, que eu chamaria de triunfalista ou, para ser mais específico, uma narrativa de quem acha que em relação ao SUS tudo já foi conquistado e que se algo deu errado só pode ser culpa dos adversários, não de quem agiu dentro do sistema e sempre com as melhores intenções. O que segue adiante representa o produto de reflexões que fiz no início dos anos 90, no calor da fundação do SUS, portanto, como introdução à minha dissertação de mestrado na Escola Nacional de Saúde Pública. Eu que vinha da carreira universitária me colocava, então, como um “intelectual-dirigente”, utilizando terminologia gramsciana, embora admitindo que premido pelas contradições da realidade não me era possível sentir “completo” nem como intelectual, nem como dirigente, donde se tornava essencial buscar “um norteado” para as coisas, torná-las “confiáveis ao meu coração”. Com efeito, em trabalho anterior, inspirado em Gramsci, eu refletia que o modo de ser deste novo intelectual incluía o desafio de praticar uma pedagogia alternativa, na qual o ato de educar deveria ser fundamental, não só na vertente da academia, como da administração pública e também no parlamento, na assessoria aos movimentos sociais. Isso implicaria em romper com falsas totalidades impostas pelo pensamento dominante, ou mesmo aquelas do tipo “o povo tudo sabe”; promover o preparo dos homens, enquanto sujeitos ativos, para a participação política, para o questionamento das ideias, para a independência cultural, para a conquista da cidadania social; tomar como ponto de partida o senso comum das percepções e imagens, mas acima de tudo, submetendo-o  à crítica e à superação verdadeiramente dialética. Só assim o “homem comum” poderia se tornar, ele também, intelectual e dirigente, e o intelectual-dirigente seria capaz de superar a eloquência vazia do saber oficial, construindo um conhecimento verdadeiramente organizador e transformador sobre as coisas “vãs e mudáveis” da realidade social. Mais gramsciano, impossível, portanto. Mas vamos ao texto em questão, que trago aqui como um registro de ideias sem dúvida datado, mas que poderá ajudar, quem sabe e um dia, na escrita da verdadeira história da política de saúde no país, longe de qualquer virtuosismo, triunfalismo, academicismo ou derrotismo.

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A janela indiscreta

Eu bem vi que o porteiro tentava me avisar de alguma coisa. Não dei muita atenção, pensei que ele falava dos pivetes que andam por ali. Com estes já estou acostumado, não levam a melhor comigo. Mas dessa vez o perigo era outro, uma calçada escorregadia. E assim eu fui parar no chão. Ato contínuo, no Pronto Socorro. E agora em casa estou eu, com a tíbia partida, mínimo vinte dias de repouso forçado, me arranjaram até uma cadeira de rodas, para me locomover pela área na qual um simples degrau se interporia como uma muralha.

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Pereira procura

Tinha verdadeira mania em procurar por amigos antigos e parentes em geral. Quando viajava, então, este traço se exacerbava. Mas não raro os procurava também em lugares inusitados, como em listas telefônicas, placas de túmulos, ou mesmo em convites de formatura, através dos sobrenomes dos formandos. Certa vez, na formatura de uma neta como advogada, atazanou-a durante vários meses para que indagasse se um José Pereira Neto, que constava na relação de formandos, não seria descendente de um primo distante, com o mesmo nome. A moça tentou ignorar o pedido, mas ele não lhe deu descanso, até que ela lhe disse que perdera o colega de vista, irremediavelmente. Mesmo assim, quando podia, voltava ao assunto.

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Um dia na vida de R. Romanovitch

Muito estranhos aqueles acontecimentos. – Você é culpado – era o que uma voz lhe dizia. Ou melhor, quase gritava. Não era possível saber de onde vinha e nem mesmo quem era que assim lhe falava. Seria para ele mesmo? – se indagava, sem resposta. Aquilo era tudo realmente estranho, muito fora do normal. Ele morava em um quartinho alugado, em uma travessa de uma cidade desconhecida, na qual havia cúpulas de igreja coloridas, em forma de sorvete, além de estátuas e monumentos por todo lado. Fazia frio. Havia um grande edifício, não era possível saber se era museu, prisão ou quartel. O fato é que aquele cubículo que lhe abrigava estava distante de qualquer luxo; mais parecia um armário de que uma habitação.

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E a Medicina, a que será que se destina?

Ao começar a escrever esta memória, lembrei-me de uma letra de música de autoria do grande Aldir Blanc, que aliás usei em meu convite de aniversário quando completei 50 anos idade, em 1998. Chama-se 50 anos – Bodas de Sangue e foi musicada pelo pianista Cristóvão Bastos, se não me engano. Dizia assim: Eu vim aqui prestar contas / De poucos acertos / De erros sem fim / Eu tropecei tanto as tontas / Que acabei chegando no fundo de mim / O filme da vida não quer despedida / E me indica: ache a saída. Posso até relativizar esta história de erros e acertos, tropeços, despedidas, sangue, prestação de contas. Não quero ser dramático. Mas de fato, aquilo que o também médico Aldir escreveu me leva a pensar no filme de minha vida, particularmente diante dos 50 anos que completei na prática de medicina – de uma determinada modalidade, mas sempre Medicina. Mas vamos lá.

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Considerações sobre as eleições para o CFM em 2024

Meu amigo (há mais de 60 anos) Eduardo Guerra, também médico como eu e que já foi presidente do CRM-DF, sub Secretário de Saúde, além de outros cargos, preocupado com o andamento da escalada de ultradireita no movimento médico do país, inclusive em seu organismo principal, o Conselho Federal de Medicina, me manda um texto bastante elucidativo de sua autoria, sobre esta situação preocupante, não só para nós médicos como para a sociedade brasileira como um todo e a Democracia em geral, que prazerosamente reproduzo abaixo.

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Por serras, morros, rios, vales – e História: uma festa em Sabinópolis

A Cordilheira. Talvez seja exagero chamá-la assim. Suas alturas máximas pouco passam de dois mil metros e sua extensão – assim mesmo descontinuada em alguns trechos – não chega a mil km. Além disso, não serve de divisa a países, nem mesmo a estados, já que percorre, no sentido Norte-Sul, apenas uma parte da área central de Minas Gerais e da Bahia, não chegando a cortar seus territórios de ponta a ponta. Sem dúvida, entretanto, a Serra do Espinhaço, tem presença marcante na vida de muita gente, mesmo que muitos de seus habitantes nem se deem conta que ela existe. De toda forma, é considerada pelos geógrafos como a única real cordilheira do Brasil. Recorrendo à prestimosa Wikipedia, vejo que ela se situa no chamado Planalto Atlântico, formada há mais de um bilhão de anos a partir de terrenos da era proterozóica, o que a faz rica em jazidas de minerais diversas, entre eles o ouro e o ferro, que contribuem para dar a estas montanhas um estatuto de importância econômica – ao mesmo tempo de devastação da natureza. Em Minas, o tal do Quadrilátero Ferrífero, situado ao longo de sua sombra é prova disso. Mesmo quem não se liga em geografia conhece ou já ouviu falar de algum de seus núcleos populacionais históricos: Ouro Preto, Mariana, Sabará, Serro, Diamantina, Grão Mogol e já na Bahia, Rio de Contas, Brumado, Mucugê e Lençóis. De entremeio, relíquias coloniais como Santuário do Caraça. Isso para não falar da cidade de Itabira, onde nasceu uma vasta parentada minha – e eu mesmo.

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Família

Família, família / Papai, mamãe, titia / Família, família / Almoça junto todo dia / Nunca perde essa mania…

A conhecida letra dos Titãs, talvez de Arnaldo Antunes, um mestre de poesia, sensibilidade e ironia, tudo junto ao mesmo tempo, fala dos vários lados que toda família tem, seja como afeto ou tédio. Como todas as famílias, a minha é assim também. Aliás, como todas elas, a minha é também única. As coisas, com ela, são sempre as mesmas, mas sem que isso percam sua originalidade e um forte sentido positivo, de pertencimento, palavra que representa, afinal, a parte melhor e insubstituível de poder viver no seio de tal instituição, sempre criticada, mas ao mesmo tempo desejada. Não preciso dizer mais nada. Trago aqui uma galeria familiar pessoal extensa, que cronologicamente parte do passado até chegar aos novíssimos descendentes, meus netos, incluindo também aqueles que ao meu grupo mais próximo vieram aderir, como genros e nora.

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