De um diário alheio: Poesia

Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.

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Poesia numa hora dessas?

Este é um título imperfeito. Por várias razões. Primeiro porque o que aí vai talvez não possa ser chamado de poesia, realmente. São apenas coisas escritas no calor dos acontecimentos, quando eu era usuário do tal do Facebook, me sentindo obrigado a produzir alguma coisa – qualquer coisa – sempre que acontecesse alguma coisa no mundo ou ao redor de mim. Depois, porque o título me foi dado por um amigo, de forma condenatória pejorativa, porque ela achava realmente que meus escritos não tinham nada a ver. Mas mesmo assim apreciei sua percepção e agora a aproveito, sem as devidas licenças do verdadeiro autor, para batizar esta série de desabafos que produzi ao longo do tempo. Meu consolo é que muitas das minhas críticas se justificam e que muitos dos criticados continuam às soltas por aí, a merecê-las. PS: Facebook para mim é coisa do passado. Casquei fora quando percebi que ali o produto (não remunerado) era eu mesmo.

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O homem nu

(Notícia de jornal: no sertão de Pernambuco, um homem vive nu, jamais aceitou vestir roupas. Escondido pela família, sem amigos e de temperamento esquisitão, se recusa a explicar seu comportamento, pedindo apenas aos repórteres que respeitem seu modo de ser) Parece mentira contar, mas li em jornal outro dia, que um homem vivia pelado, escutem só o que dizia: – Vão zelar de suas vidas, me deixem … Continuar lendo O homem nu

Dia da Criação (Porque hoje é sábado…)

No Centenário de Vinicius também quero dar meu pitaco, com este sensacional “Dia da Criação”, que conheço desde a infância, de um disco de poesia falada (onde estão eles, acabaram?) da casa de minha avó Dodora. Como dizia Stanislaw Ponte Preta, VM era um sujeito plural; caso contrário seu nome seria “Vinicio de Moral”. I Hoje é sábado, amanhã é domingo A vida vem em … Continuar lendo Dia da Criação (Porque hoje é sábado…)

Mesa dos cem anos

Mesa dos Cem Anos (Em memória de meu avô, Altivo Drummond de Andrade)  Em torno daquela mesa ou então em uma outra, de tênue matéria feita, na etérea carpintaria onde cola, pregos, táboas, não são coisas de pegar, ali te festejaríamos e festa grande seria, até maior que a outra que todo o mundo conhece pela voz de teu irmão. Vê-nos todos? Somos tantos, bem … Continuar lendo Mesa dos cem anos