De um diário alheio: Poesia
Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.
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