Dez anos sem Roberto Andrade

ROBERTO ANDRADE0002Anos 50. O homem louro e alto, para nós crianças mais alto ainda, grande como uma torre, nos trazia o cheiro de currais e as histórias de lugares de nomes sugestivos: Uberaba, Barretos, Areias. A cada ano éramos apresentados a um novo primo, quatro evangelistas, meninas com os nomes começados por “B” e mais.

Anos 60. Os encontros nas Areias. Festas regadas a conversas, brincadeiras e a comida inigualável de Dona Teresa. Mas as tragédias nos espreitavam no meio da alegria: vovô Altivo, para começar. Depois José Marcos e Mateus. Vovó Terezinha e Dr. Cathoud. Nós meninos, começamos a sentir o cheiro da morte. Mas acima, bem acima, pairava nosso Tio, que representava a Vida em nosso cenário infantil. O cheiro dos currais e as histórias de lugares longe agora mudaram. Ele agora abria estradas e rodava por toda parte em sua camionete amarela. Sempre personagem de nossa infância.

Anos 70. Nuvens negras no céu… O jovem universitário buscava fugir da cidade nos finais de semana, pegar um ônibus na rodoviária de BH, rumo ao Povoado de Areias para encontrá-lo na Fazenda, sempre receptivo. Primeiro, o jantar copioso da Tia e o doce de leite de “bufa” com queijo idem. Depois a varanda, onde a conversa escorria mansa, às vezes enfática e até agitada. E íamos da literatura à agricultura, da ciência à política. No meio de tudo o ingrediente da Poesia que nunca lhe faltou. Entre um golinho e outro, no que eu me iniciava – uma récita de O Padre e a Moça. Nunca ninguém traduziu pela palavra falada este poema de Drummond, com tanta verve e com tanta emoção. E o sol nos alcançava ali na varanda, com a certeza de que aquelas conversas eram a essência da vida. Conversar é que era preciso; já viver, que fosse da maneira possível, nada mais.

Anos 90. Ele, agora, Patriarca, em seu refúgio nos altiplanos do Fama, entre o Jequitinhonha e o Mucuri. Lá estive por quatro vezes. Sua vitalidade custava a ceder, parecia não se abalar com o fumo e as muitas cachacinhas… Agora, uma Nova Fonte delas se descobria, nos alambiques de Novo Cruzeiro. Um cafezal a perder de vista. Toda a tecnologia da agroindústria capitalista presente. Dava gosto vê-lo discorrer sobre os micronutrientes e as tecnologias israelenses de irrigação minimalista. Parecia até que já nascera naquele meio. À noite, as conversas iniciadas na minha juventude, nas confortáveis cadeiras de espaldar alto, na varanda da Fazenda das Areias, ainda mostravam inesgotável fôlego. Só que eu, nos meus cinqüenta, já não encontrava disposição para encarar o sol chegar; mas ele, vinte e cinco anos mais velho, sim. Para dormir usava apenas um banco de madeira. E mesmo assim já amanhecia com profunda disposição para retomar a conversa, tivesse como temas O Padre e a Moça ou a flutuação dos preços dos insumos agrícolas, com a devida ressalva sobre suas discordâncias relativas às tecnologias médicas. Sujeito opinioso!

Frase sua que guardei: não lhe devo obrigações, apenas finezas. De meu Tio Roberto o que posso dizer é algo semelhante. Cumulou-me de finezas por toda a vida. Pela atenção que deu à criança e ao jovem estudante de medicina. Pelo convite para que eu batizasse a caçulinha Betânia e assim nos tornássemos compadres. Pelo exemplo permanente de saber dizer o que pensava, de forma tão desabrida, mas ao mesmo tempo atenciosa. Pela sua coragem em enfrentar os desafios que a vida lhe trouxe: perdas de filhos, mudanças de lugar e a sistemática destruição das coisas que produziu. Pela sua inteligência criadora e abrangente. Pela sua capacidade de carregar o Mundo dentro de si. Pela generosidade em se colocar abertamente para todos. Por não ser sovina em suas emoções e lembranças.

Para mim, sem medo do lugar-comum, ele vive. Sua passagem por nós é apenas um dos fatos de sua existência luminosa, que prossegue, apesar da dor e da decadência física. Meu e nosso amigo Roberto, obrigado pelas finezas e pelos privilégios que a convivência com você trouxe a mim e a todos que com você estiveram!

E como lembrança mais perfeita dele, o recital de O Padre e a Moça, de Drummond, que ele sabia fazer como ninguém. O livro aberto à sua frente era só para dar apoio, pois o texto lhe era conhecido de cor.

Nas fotos abaixo, eu, Roberto e João Queiroz Andrade, filho dele e um dos meus melhores amigos.

ROBERTO JQ E EU

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