45 anos! (de formatura…)

medicina-ufmgMarço de 1967. Primeiro dia na Faculdade de Medicina da UFMG… A aula que assisti é impossível de ser esquecida, magna, na melhor acepção da palavra. Entramos no grande auditório da Faculdade, no antigo prédio da Avenida Alfredo Balena e lá nos esperava uma penca de professores, vestidos com longos jalecos e até alguns em paletó e gravata. Assistimos uma hora inteira de peroração empostada, que culminou com um teste de conhecimentos médicos e perguntas diretas a membros da plateia. Teve gente que tremia, inclusive eu, confesso. De duas dessas perguntas de que ainda me lembro: “como diagnosticar a condição chamada flatus morbidus acutissimus? Qual a indicação terapêutica do hálux? No final, como a potestade que coordenava os trabalhos tinha falado em exercícios a serem cumpridos para uma próxima aula magna, acerquei-me dele cheio de respeito para saber qual seria exatamente a tarefa demandada. A resposta que ouvi foi taxativa e me trouxe de volta à realidade: “abre as orelhas, calouro”! Cesar Augusto de Barros Vieira era o nome dele – e se tornou um grande amigo meu, anos mais tarde,

É isso aí, era um trote, no qual ninguém matava, ninguém morria. O que poderia ser chamado hoje de bullying era apenas diversão, das mais engraçadas e sadias. A lição do dia foi aquela que me foi passada pelo “professor” Cesar (na verdade apenas quintanista de medicina): é preciso abrir as orelhas e a mente, para tudo, sempre!

Dos primeiros meses de aula duas lembranças eternas. O encontro, ao mesmo tempo desejado e temido, com os cadáveres na disciplina de Anatomia e a presença, que logo me chamou atenção fora do normal, de certa colega de turma.

Comecemos pelos defuntos. Aquele anfiteatro cheio de mesas de mármore ou aço inox, de pé direito alto, aquele cheiro de formol, as palavras cabalísticas gravadas em uma das paredes: hic mors gaudet sucurrere vitae – tudo era coisa de muita pompa e circunstância. Entretanto, se a morte se alegrava em me ajudar, a recíproca não era verdadeira. Eu achava aquilo uma decoreba, uma perda de tempo. Ali não se dissecava, mas se destruíam corpos.  Aliás, alguns já tinham dito a mim – e mesmo os professores da disciplina confirmavam – que depois era preciso aprender tudo de novo. E mesmo assim só aqueles que fossem se dedicar a certos ramos da medicina, como a cirurgia ou ao diagnóstico por imagem. Para os outros mortais, bastavam noções gerais, sem cadáveres, sem formol, sem picadinho de gente, sem todo aquele simbolismo horror show.

Mas de uma coisa não posso me queixar. Fui convidado por uma colega, Beth Borges (inesquecível, que nos deixou muito cedo!) a participar de seu grupo de dissecção, no qual já estavam dois ou três colegas meus do Estadual ou do Universitário e mais uma quarta pessoa, que até então eu só conhecia de longe – e que achava bonita como quê! Chuva na horta! Foi assim que conheci Eliane Machado Guimarães, recém-chegada de Volta Redonda e admitida no primeiro vestibular que tentou. “Gênia” verdadeira, nem precisou de passar pelo Colégio Universitário! Conversa vai, conversa vem, bisturi pra cá, tesoura e pinça pra lá – em poucos meses estávamos namorando.

Meu namoro com Eliane começou em outubro do nosso primeiro na Faculdade. Evoluiu para noivado três anos depois e para casamento em quatro. Eliane sempre foi uma pessoa muito dedicada aos estudos e às obrigações em geral. Eu havia me transformado em alguém com essas características depois daquele ano passado no Colégio Universitário. De maneira que nos demos muito bem. Em 1970, já noivos (costumes da época…) tivemos que resolver uma contradição familiar: eu havia ganho uma bolsa para os Estados Unidos, à qual ela concorrera também. Um verdadeiro e insuperável dilema estaria armado caso ela tivesse obtido a bolsa, pois teríamos que casar para viajar juntos. Coisas da época. Com muito custo, havíamos ganhado autorização apenas para visitar Eunice, tia dela, que era Promotora de Justiça em Cambuquira. E só… Mas resistimos, principalmente graças ao espírito cordato de Eliane com as coisas de família (eu, nem tanto…) e nos casamos em 1971, sendo felizes por muitos anos.

A tal bolsa para os EUA, virou minha cabeça. Até então eu não havia saído do Brasil e nem tomado um avião. Aconteceu tudo de uma vez só. Tampouco falava inglês, a não ser rudimentarmente e entendia menos ainda. Mas me virei por lá e até recebi elogios com as pessoas com que convivi, do tipo fine, handsome. Entre as minhas peripécias americanas, duas são de se contar para filhos e netos: assisti a um show de Tina & Ike Turner em Boston e, mais importante ainda, do quinteto de Dave Brubeck em pleno Central Park. Para quem nunca havia saído de BH…

Nos EUA, eu e meus colegas, de todas as partes do Brasil, nos dedicamos a explorar o lado B americano. Bebíamos todas! Mas a verdade é que da primeira Budweiser a gente logo esquece…  Experimentei também umas coisinhas menos publicáveis por lá, aliás oferecidas pelos adolescentes da casa onde eu me hospedara na primeira semana. Era tudo novidade para mim! Mas tive a cautela e o bom senso de recusar um convite para um mescal party, que seria celebrado num apartamento nas alturas, em Cambridge. Voo por voo eu já estava satisfeito com aquele da Varig.

Ali conheci de perto o que era o consumo. Só para dar um exemplo: na loja Macy’s, de Nova Iorque, me deparei com uma estante de café, com caixinhas de vidro, onde o produto que para nós brasileiros era uma coisa só, era organizado por origem, altitude, grau de torrefação, variedade etc. E tinha umas trinta caixinhas diferentes! Uau!

Comprei também, em Nova Iorque, uma bela bota, de couro camurçado, sola de borracha, de um tipo considerado sofisticado no Brasil. Quando fui calçá-lo, já no alojamento da Columbia University, é que vi o selo de fabricação: Made in Brazil, mais exatamente em Franca, São Paulo. Viajar para tão longe para comprar um sapato brasileiro, vejam só…

Esta viagem aos EUA aconteceu, na verdade, porque um colega de turma, José Maria Ribeiro Bastos, havia se candidato e conseguido a bolsa no ano anterior. Fazíamos, então parte de um mesmo grupo na faculdade. Mas aqui devo esclarecer que pertencer a grupos nunca fora o meu forte. Havia, sim, alguma sintonia entre eu, Eliane, Zé Maria, Celso Chiari, Dalton Luiz Ferreira Alves (que haviam sido, estes dois últimos, meus colegas no Estadual) e alguns outros. Era um pessoal bastante “cabeça”, com a liderança dividida entre o citado Zé Maria e um outro, que não identificarei, por motivos que logo se tornarão óbvios. Zé Maria era um sujeito com voz de barítono, filho de médico e um tanto conservador nas ideias. Bom moço que era, assumiu por conta própria o papel de proteger as colegas de investidas pouco cavalheirescas ou simplesmente deseducadas dos machos, o que lhe fez merecer o apelido maldoso de Galo Capão. As próprias vítimas potenciais, contudo, nunca admitiram que lhe tenham lhe delegado formalmente isso, alegando que sabiam se defender (como de fato pareciam saber).

O líder muitas vezes primeiro e único de tal grupo era o ignoto citado acima, um paulistano típico, mais velho do que a gente uns bons cinco anos, cheio de experiências na vida – havia sido até soldado da Guarda Presidencial em Brasília – pelo menos era o que nos dizia. Ele era um excêntrico de classe. Morava sozinho em uma pensão modesta da rua Piauí, namorava garotas liberais e geralmente muito cobiçadas e tinha como companheira de quarto uma jiboia, a qual chamava de Iara. Dedicava-se, às vezes, a dietas radicais, alimentando-se apenas de ovos por grandes períodos. Recolhia-se a misteriosos retiros espirituais, supostamente em grutas remotas, o que não era possível negar ou confirmar. Tocava também, creio que razoavelmente bem, um violino, sendo o parceiro ideal nas serenatas que às vezes fazíamos para nossas namoradas, formalmente declaradas, como no meu caso, ou nem tanto.

Na minha dificuldade em seguir grupos e líderes, meus contatos com essa turma não eram constantes. Além do mais, suas reuniões, geralmente feitas na rua Piauí, eram cercadas de densa nuvem de uma fumaça que cheirava a corda de cânhamo – hábito a que eu e minha namorada não éramos muito chegados. A experiência americana, facultada pelos adolescentes de Fall River, Massachussets, tinha sido o bastante para mim. Mas de uma forma ou de outra sempre nos víamos. Talvez tenha sido este o grupo que acompanhei mais de perto na faculdade. Pelos outros existentes – e como os havia! – eu e Eliane apenas bordejávamos, sem estabelecer laços mais profundos, mas respeitando e sendo respeitados pelos membros.

Pois bem, este grupo liderado pelo homem da jiboia representaria um bom case, de interesse de algum antropólogo ou sociopsicólogo que estivesse a fim de destrinchar a vida universitária dos anos 60, em plena revolução cultural, a partir das relações e costumes grupais dos estudantes. A trajetória dessa turma é notável. Zé Maria pendurou o diploma depois de formado, rompeu um noivado de muitos anos e mergulhou na vida loka holandesa, cercado, ao que se sabe, de muita droga e os devidos complementos. Voltou anos depois para BH para continuar sendo o careta de sempre. Chiari, o primeiro lugar no vestibular, dois décimos acima de mim, não conseguiu se encontrar na vida. Começou uma formação em Bioquímica ou Farmacologia, que não concluiu e acabou falecendo em um acidente misterioso na BR-3, que alguns suspeitaram que fosse auto-inflingido. Agnaldo Peres, que ainda não havia entrado na história, voltou para sua terra natal no Oeste de Minas, abandonou a faculdade e ninguém nunca mais se soube dele. E o cara de São Paulo, a grande liderança, o revolucionário dos costumes? Boa pergunta! Este tinha um pai rico, proprietário de clínicas de psiquiatria em São Paulo (com quem tinha, aliás, birras freudianas) e passou a administrar os negócios do pai. É o que me contaram, não posso garantir que seja verdade, mas não deixa de ser curioso…

Do convívio com esta turma restou meu aprendizado a respeito de “papos-cabeça”, os quais, depois de muitas tentativas acabei por rejeitar de vez. “Discutir a relação”-DR, por exemplo, uma modalidade amplamente praticada dos mesmos – nem pensar! Mas aquela turma era capaz de passar a noite nisso Principalmente se houvesse muita cerveja e alguma canabis no pedaço.

O ambiente cultural na BH dessa época era fraco, mas não chegava a ser um fracasso. Vivíamos, é claro, a muitas léguas e anos-luz do Rio ou de São Paulo. Mas foi em BH que vi, por exemplo, os primeiros vagidos de uma banda chamada Som Imaginário, formada por Zé Rodrix e Tavito (meu colega de Estadual anos antes), acompanhando Milton Nascimento, no Teatro Marília. Todos jovens, todos cheios de vida. No Diretório Acadêmico da Faculdade, o DAAB, de Alfredo Balena, havia programações culturais interessantes. Certa vez recebemos lá simplesmente Vinicius de Morais e Paulo Mendes Campos e pudemos papear com eles frente a frente, por horas. Havia professores que eram verdadeiros agitadores culturais, como Jota Dangelo e Angelo Machado, ambos da Anatomia. Quem viveu na BH dos anos 60 sabe da importância dos “Shows Medicina” no panorama cultural da cidade. Dangelo escreveu e dirigiu na ocasião um épico do teatro mineiro: Ó, ó, ó Minas Gerais, até hoje uma peça celebrada, mesmo fora do estado. Aliás, a vizinhança da nossa faculdade com o Teatro Marília, que pertencia ou ainda pertence, curiosamente, à Cruz Vermelha, sem dúvida facilitava nosso acesso aos programas mais cult na época, sem esquecer do velho Francisco Nunes, onde ainda rolava muita coisa.

 

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