Que país é este?

<<Aqui não importa fazer o mal ou o bem: o pecado que nós nunca perdoamos é simplesmente o de ‘fazer’. Somos antigos, muito antigos. Faz séculos que carregamos o peso de coisas vindas de fora, já completas e aperfeiçoadas, nenhuma delas germinada de nós mesmos, à qual tenhamos dado afinação. Há muitos e muitos anos somos colônia. Não digo isso para me lamentar: em parte a culpa é nossa.>>

<<Abrir-se às maravilhas de um mundo moderno? Isso me parece o mesmo que levar uma velha centenária, arrastada em sua cadeira de rodas, a uma exposição da mais atualizada tecnologia. Ela não compreende nada, não se importa com nada, mas só anseia cochilar entre seus travesseiros e o urinol debaixo da cama.>>

<<O quer mais essa gente quer é o sono e ela sempre odiará quem a quiser despertar, ainda que seja para lhe dar os mais belos presentes e, cá entre nós, tenho muitas dúvidas que este novo estado de coisas traga muitos presentes para nós na bagagem.>>

<<Todas as nossas manifestações são oníricas, até as mais violentas: nossa sensualidade é desejo de esquecimento; nossos tiroteios e facadas, desejos de morte, desejo de imobilidade voluptuosa, ainda de morte; nossa preguiça, nossa comida: nosso ar meditativo é o do vazio.>>

<<.. a prepotência de certas pessoas entre nós, os que estão semiacordados; daí o famoso atraso de um século das manifestações artísticas e intelectuais.>>

<<As novidades só nos atraem quando sentimos que estão mortas, incapazes de dar lugar a correntes vitais; daí o inacreditável fenômeno de formação de mitos que seriam veneráveis se fossem antigos de verdade, mas que não passam de tentativas sinistras de mergulhar de novo num passado que nos atrái justamente porque está morto.>>  

<<Devia ter acrescentado o ambiente, o clima, a paisagem. Estas são as forças que, juntas, mais do que o domínio estrangeiro nos feneceram o espírito. Esta paisagem que ignora os meios termos entre a malemolência lasciva e a aspereza amaldiçoada, que nunca é mesquinha, prosaica, relaxante, humana, como deveria ser um espaço feito para acolher seres racionais.>>

<<Tudo isso formou nosso caráter, que assim permanece condicionado por fatalidades exteriores e por uma assombrosa insalubridade de alma.>>

<<Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro?>>

***

É impossível ler essas linhas sem pensar no Brasil, não é mesmo? Mas elas se referem a um lugar remoto, no tempo e no espaço: a Sicília do século XIX, recém integrada à Itália unificada. Tudo isso está em O Leopardo (Il Gattopardo), obra prima do italiano Tomaso de Lampedusa.

PS: Tomei a liberdade de fazer pequenas adaptações no texto original, para manter a “surpresa” a respeito do país em foco até o final da leitura.

 

 

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