Quando eu fazia a 4ª série do Grupo Escolar Francisco Sales, em Belorizonte, fui escalado pela minha professora para declamar, na festa junina daquele ano, um poema cômico, que começava com a frase Era e não era e se desenrolava com uma série de imagens satíricas e verdadeiramente contraditórias e surrealistas. A frase de abertura ficou na minha cabeça, por todos esses anos, quase 70 na verdade. Recentemente a milagrosa internet, municiada com apenas essas quatro palavras, me trouxe o tal poema de volta e assim descobri que ele era da lavra de um cidadão de Piracicaba, Tales de Andrade, tendo sido escrito em dialeto caipira nos idos de 1918. Não resisti, assim, em criar esta sátira sobre fatos atuais aproveitando este jeitoso oxímoro: era e não era. A seguir vai o poema original.
Era uma vez e não era
Uma eleição pra presidente
Seu pai bem que queria
Aquela boca tão boa
E era pra ele o presente.
Aquele sujeito atoa
Cara que a todos repele
Mal dava conta na vida
De satisfazer a Michele.
Pro filho o tempo passava
E todos fazendo o “ele”
Só lhe faltava apelar
Ao chefão Edir Macedo
E outros de sua laia
Que se puseram a orar
Mas Edir achou estar cedo
Fosse ouvir o Malafaia.
Mas este aí mal o olhava
Orando que o mundo acabasse
Em água, fogo ou Papuda.
Ele foi correr na praia
Gastou um monte de grana
Quem sabe o Master lhe ajuda?
A tanto agradeceria
Sem se fazer de gostoso
Tão esvaziada a sacola
Ai Vorcaro generoso!
Buscando um cara de lei
O Trump nem lhe deu bola
Que falasse com o Rúbio
E este indicou o Milei.
Aí lhe doeu a cachola
Dou uma coçada no púbis
E lhe veio triste nova
Seu pai ia pra cova
E ele se se lascaria.
Aquilo era estúrdio,
Mas o que mais se daria?
Saiu assim na carreira
E muito se revoltava
Melhor: a nada voltava
Ficou sem eira nem beira.
Dessa vez correu pra trás
E nisso se deu bem mal.
Foi procurar um apoio
Na bandeira de Israel
Que para seu desencanto
Logo vestida, rasgou
Benjamim Netaniahu
Lhe mandou ao beleléu.
Mas logo o pior chegou
O homem de nove dedos
Estava em sua cacunda
Por pouco, por muito pouco
Já chutava sua bunda.
Apostou numa pesquisa
Que um sujeito aloprado
Lhe disse ser garantida
Nela, ele bem na frente
Deixando de ser azarado
Na eleição pra Presidente.
Quando viu, já era tarde
No pleito daquele mês
Como assim pôde ser fácil?
Perdeu ele de lavada
Mais uma maldita vez
do tal de Luiz Inácio.
***
Agora o original
Era e não era
Imaginem vanceis;
Eu andava viajando
Andava correndo mundo;
Mas um dia…
Assim de surpresa,
Arrecebi uma triste nova:
Meu pai ia pra cova
E eu ia nascê.
Aquilo era estúrdio,
Mas que fazê!?
Saí na disparada.
Mas voltei
voltei pra trais
Puis perdi uma capa!
Uma capa que eu não levava,
Mais valeu…
Topei com uma arve de figo
Carregadinha de pesco maduro;
Trepei por ela em riba,
E toca a apanhá as maçã!
Mas veio o dono do feijoá
E berrô:
ò tinhoso!
Como é que está apanhando
Pimentão, mangarito e buxa,
No sapezá aieio?
Eu ia arrespondê
Mas o marvado
Agarrô num moio
De repoio
E me assentô na testa
Uh! festa!
Me esbandaiô o joeio!
