A História de Romário e Juliana

Aqui vai mais uma daquelas Histórias de Segunda Mão, ou seja, escrita a partir de temas que vou catar na literatura séria para inventar uma nova versão, geralmente ambientada em situações mais próximas ao dia a dia e à atualidade. Já fiz isso com Camões, Guimarães Rosa, José de Alencar, Leonard Cohen, Monteiro Lobato, Dostoievsky, Calderón de La Barca e também com a Bíblia, a mitologia grega, fábulas medievais e vai por aí a fora. Ainda não fui processado e muito menos condenado por tal atitude. Aliás, cabe lembrar que isso também faz parte da boa literatura, sendo que o próprio Shakespeare escreveu Romeu e Julieta inspirado em vários textos escritos antes dele, em toda a Europa e até na Índia. Aliás, por falar no grande bardo renascentista e de sua obra mais conhecida, aquela que fala dos jovens amantes de Verona, para mim, sua reinterpretação mais magistral é o filme hollywoodiano West Side Story (Amor, Sublime Amor, no Brasil) no qual a conhecida história é transplantada para a periferia pobre da Manhattan dos anos 50, dando-lhe um sabor totalmente contemporâneo, pertinente ainda hoje, 70 anos após seu lançamento. Pois bem, resolvi eu também contar tal história, desta vez localizando-a na periferia da cidade de Brasília, dentro, é claro, de um background cultural bem distinto daquele do filme de Robert Wise. Intitulei tal ousadia, por motivos até certo ponto óbvios, de A História de Romário e Juliana. Advirto que tomei algumas licenças poéticas, por exemplo, com o trágico desfecho da história – Wise também fez isso – deixando Julieta viva ao final, embora profundamente ferida, física e mentalmente. Aproveitem para dar uma olhada, acessando os links ao final, nas duas séries de Histórias de Segunda Mão que já foram aqui publicadas. Agradeço a atenção. Espero que gostem.

A História de Romário e Juliana

Assistentes sociais: aquelas mocinhas que o governo paga para virem aqui ter dó da gente…

A piada é velha e desgastada. Já me irritou muito, mas hoje acho graça quando a ouço na boca de alguém, tendo virado algo parecido e tão demodê quanto aquela outra desengraçada anedota, a história do pavê ou pa’cumê? De fato, sou um (e não uma…) dos tais assistentes insistentes, o que por si só já poderia me trazer – e com certeza traz! – uma enxurrada de piadinhas sem graça. Mas como sempre respondo: que se danem, não estou mais nem aí para coisas desse tipo.

Mas é bom começar com uma palavra aqui tão bem colocada como um pênalti cobrado pelo Vini Jr: NÃO! Não estou aqui e nem sou pago pelo Governo, seja ele qual for, para ter pena de alguém. Minha tarefa é bem outra, não sei se terão tempo e paciência para ouvir de mim o que significa ser assistente social num bairro de periferia, numa cidade desigual e violenta, como a essa nossa capital da República. Enquanto decidem se querem de fato ouvir, contarei uma das histórias que fazem parte do meu cotidiano aqui na Ceilândia.

Sim, Ceilândia, já ouviram falar? É – ou era – um fim de mundo projetado para ser o desterro de uma enormidade de migrantes pobres que ocupavam e favelizavam, como somente os pobres sabem fazer, algumas das chamadas áreas nobres do Plano Piloto de Brasília, ali pelos anos 70 ou 80. Depois de botarem sucessivamente a polícia e o serviço social em cima deles, tentando enquadrá-los e normalizá-los a ora a golpes de cassetete, gás lacrimogênio e baioneta, ora a tentativas de, digamos, convencimento discursivo e racional, encontraram finalmente uma solução mais pacífica e produtiva, considerada pelas autoridades da época também como mais humana: a deportação de tais viventes para o cerradão inabitado que ainda existia em lonjuras além-Taguatinga, lugar este que, aliás, já era uma espécie de finisterrae relativa ao grandioso projeto luciocostaniemeyeriano.  

Para completar, o tal nome – Ceilândia – que parece ter sido importado de alguma província estrangeira, provém simplesmente de uma sigla, CEI, que significava, na época, Campanha de Erradicação de Ilusões, digo de Invasões.

Antes que eu me esqueça e para início de conversa, meu nome é Wiliam, cognominado Cheique, por razões que não cabe explicar aqui, até porque na verdade nem eu mesmo sei exatamente o significado de tal alcunha, com a qual não nasci, mas com que fui agraciado desde a infância, ao que parece, por um vizinho de meus avós, metido a intelectual. Mas o fato é que tal alcunha pegou em mim, como um carrapato. Mas não me chateia, acho até chique ser Cheique, por pouco eu me chamaria Wiliam Cheiquespire, pena que só depois descobri tal ligação semântica e histórica.

Vamos em frente, então.

É preciso dizer preliminarmente algo que todo mundo sabe, mas não custa insistir: a vida nas periferias das cidades brasileiras, principalmente nas metrópoles, como aqui em Brasília, não é moleza… E Ceilândia, absolutamente, não escapa disso.

Para quem não está acostumado com o DF, aqui quase tudo é representado por siglas, além de nomes como quadra, setor, centro, área, superquadra, interquadra, comércio local, leste, sul, norte, oeste etc. A área de abrangência do meu CRAS (mais uma sigla: Centro Regional de Assistência Social) abrange variados setores aqui de Ceilândia, designados pelas letas do alfabeto (A, B, C, D etc). Deu pra vocês entenderem? Se acham que entenderam, mesmo assim eu devo dizer que talvez não o tenham conseguido, pois pode acontecer, por exemplo, que o setor “A” esteja mais próximo do “M” do que de seu suposto vizinho “B” – e assim por diante. Mas isso não importa, podemos prosseguir mesmo diante de tal incoerência.  

Pois bem em um suposto setor “M”, designação que não confere exatamente com a realidade, pois vocês verão que é melhor, nesta história, manter certas coisas não muito bem identificadas, residem candangos, digamos, de primeira geração, gente que chegou aqui, vinda de Minas Gerais, Goiás e outros estados centrais do país, nos primórdios da construção da capital. Eu diria que pertencem a uma classe média somente um pouco abaixo de “média” ou “baixa” e em sua maioria são católicos. Conservadores, como nas periferias brasileiras de maneira geral. Aqui surge um personagem do qual iremos nos ocupar daqui a pouco: Romário, que faz parte de um grupo, ou uma gangue (para quem é sincero, realista ou conservador) autodenominada como Monteiros, em possível alusão à letra que identifica o setor onde residem e certamente algo mais, a esclarecer.

No setor “C”, vizinho, apesar da distância no alfabeto, está um grupo chegado mais recentemente a Brasília, de emigração predominantemente nordestina, mais pobre do que os da área “M”, com raízes interioranas mais fortes, eis que chegados mais recentemente ao mundo da Capital Federal. Ainda costumam criar uns porquinhos em seus modestos quintais e sempre plantam algum milho, para colher em junho, no São João. Ali, por alguma razão, as igrejas evangélicas neopentecostais são mais abundantes do que na região vizinha e seus pastores estão por toda parte, engravatados, angariando dízimos e novos membros para suas congregações. Também aqui há um grupo de jovens, os Chapas, liderados por um filho de pastor da Assembleia de Deus, o Deusdeth Filho, também conhecido como Deth ou Detinho. O outro personagem de nossa história, ou melhor, a outra personagem, a Juliana, vem de tal meio.

Juliana, ao contrário de Romeu, é uma moça caseira e vigiada por um pai, um indivíduo de má catadura conhecido como Capucho, um tanto feroz, sendo a família devota da Igreja de Deusdeth, a Jesus é o Fiador. Ela não está ligada diretamente aos Chapas, embora um de seus irmãos seja membro ativo de tal grupo.

Romário e Juliana são colegas de classe no ensino médio da escola que atende seus respectivos setores de moradia, e nisso está a chave para grandes acontecimentos, para o bem e para o mal, que aqui se sucederão. Eles residem em locais próximos, embora situados em comunidades diferentes, embora, na prática, a moradia de ambos se situe no chamado Residencial Verona, marca de fantasia criada para juntar uma vasta área urbanizada formalmente, no lado “M”, de outra bem menos organizada, fruto de invasões sucessiva, nas bandas do “C”. Entre as duas está a Escola Classe Dona Conchita Roriz, onde ambos estudam, completando neste momento o ensino fundamental. 

Os alunos de tal escola, naturalmente, pertencem ao mesmo padrão social e econômico da dupla, que mais adiante vai formar um casal. Mas vamos devagar. Tanto no “M” como no “C” vive uma gente apenas remediada, ou mesmo pobre, ou seja, faxineiras diaristas, babás, pedreiros, cozinheiras, encanadores, bombeiros, que prestam serviços na grande cidade. Boa parte deles possui carro, velhos modelos VW, Ford ou Chevrolet, indispensáveis, ainda que precários, para enfrentar o deslocamento diário rumo ao trabalho na Zona Central, de mais de uma hora em ônibus igualmente desarranjados e sujeitos a um regime indiscriminado de enguiços e paralizações sindicais. 

Aqui começa, de verdade, a nossa história, com foco em alguns jovens coetâneos, entre eles, Romário, Juliana, Patrício, Rosalina e mais um, o tal Deth, filho caçula do pastor Deusdeth, da Assembleia de Deus, que ainda não havia entrado na história. Como no poema de Drummond, Rosalina amava Patrício; Romário achava Juliana muito jeitosa; Patrício, tentado trafegar em pista dupla, paquerava de com força a mesma Juliana, mas esta, por sua vez, não parecia, definitivamente, interessada em tais coisas, ainda mais fora do riscado conservador em que vivia. J. Pinto Fernandes não passou por ali e continuou fora dessa história. Nas reuniões e eventuais festas da igreja, Juliana sempre saía bem cedo, levada por seu pai, sempre casmurro e ciumento.

Professor Washington, o diretor da escola, recém eleito para o cargo por seus pares, por sua vez possuía ideias avançadas sobre a integração de seu corpo discente, que ele percebia estar muito dividido não só em termos urbanísticos e geográficos, mas também econômicos e espirituais. E assim resolveu organizar um baile, sem antever as consequências disso (porque elas, de fato, aconteceram).

Dentro do grande ginásio do Conchita Roriz até que as coisas correram bem. O Lasquinha, DJ local, que nem cobrou por seus serviços, puxou um som que era que nem os Bee Gees ou os Rolling Stones, trazendo também Lulu Santos, Skank, J. Quest e outros, deixando espaço ainda para vários Fulanos & Beltranos, de extração sertaneja. E tudo correu muito animado, perturbado apenas pela cena de um rapaz bêbado, um trapalhão sem noção, vomitando sem piedade no vestido da morena que ele chamara para dançar com ele I started the joke, na voz dos afinadíssimos garotos australianos. Mas mesmo isso não empanou o brilho do baile, pois lá dentro do ginásio tanto Chapas como Monteirosrespeitaram as regras washingtonianas, pelo menos enquanto houve som e luz. A verdade é que, por via das dúvidas, o diretor havia montado um esquema rigoroso de segurança, apoiado pelo policial Alexandre Ramalho, residente nas vizinhanças do território da escola.

Mas isso se deu apenas até o som ser desligado, em torno da meia noite.

Lá fora, na saída, Chapas e Monteiros esperavam uns aos outros, não se sabe de quem foi a ideia. O primeiro tapa na cara, o pontapé súbito na bunda de alguém, o nome da mãe ou de alguma irmã xingado aos berros ou sussurrado, a primeira risada de deboche, ninguém sabe e nem viu como começou. Em minutos, ou segundos, a confusão era geral e uma hora depois, na emergência do hospital da Ceilândia havia pelo menos uma dúzia de gente a sangrar e a ser radiografada e medicada. Ramalho, surgindo do nada, anunciou, com suas bravatas costumeiras, que aquilo não ia ficar assim, que passava da hora de parar com cenas como aquelas, acusando o grupo dos Monteiros de serem os responsáveis por aquilo, o que nem de longe seroa verdadeiro.

Acalmaram-se todos, nos dias seguintes, embora já há tempos habitasse entre eles uma sede de vingança e pancadaria. As ameaças de Ramalho, dirigidas aos Monteiros, não afetaram Romário, que a esta altura queria apenas corresponder aos olhares calorosos de Juliana dirigidos a ele na noite do baile. E assim ele se viu cheio de paixão e amor para oferecer a ela, esperando também reciprocidade. O fato é que dias depois estava ele aos pés da janela de Juliana, no quarto dos fundos do sobrado que ela habitava, arriscando-se a se atolar no córrego imundo que corria atrás ou ser mordido pelo cão da casa. E ali dedicava a ela, em palavras doces, seus melhores sentimentos. Juliana, medrosa e intimidada, procurava afastá-lo, mas ele, cheio de paixão, sem medo de nada, foi ficando por ali, munido apenas de seu telefone móvel, com o qual tentava se comunicar com ela.

Romário, que já era meu amigo, depois me contou que na verdade mandara uma mensagem de celular para Juliana, porque se o fizesse em voz alta seria certamente percebido pela família dela, uma gente ameaçadora, ainda mais em relação aos católicos do Setor “M”, como ele. A mensagem, que então me mostrou, dizia o seguinte: – Meu benzinho, que puta desgraça eu ser católico e você evangélica; eu Monteiro e você Chapa. Que tristeza, que merda! Isso me dá raiva mesmo, principalmente porque faz você ter medo de mim e até me desprezar. Mas fique tranquila, menina, tenho certeza que haverá um tempo, um dia, em algum lugar, em que a gente vai poder namorar, aproveitar a vida e se encontrar à vontade. E até casar, quem sabe, um dia…

Depois disso sumiu na escuridão da noite, prometendo voltar em outros momentos. Mas o fato é que os dois pombinhos passaram a se falar e se encontrar com mais frequência, fosse na escola ou na lanchonete do Verona, e em poucos dias se viram, ambos, assumidamente enrolados um com o outro.

Nem tudo nessa vida anda direito, como as pessoas comuns desejariam, é pena. Apareceram depois disso não poucos inimigos do casal: o terrível pastor Deusdeth, chefe da igreja de Juliana, a Jesus é o Fiador, que não gostava de católicos; seus filhos, entre eles o provocador e violento Deth; Capucho, o pai de Juliana e de Moab, outro membro da gangue dos Chapas e além deles, um pouco mais à distância, o próprio Alexandre Ramalho, que apregoava, para quem quisesse ouvir, que haveria de acabar com “aquela raça de Monteiros”. Para piorar, Patrício, outro filho de Deusdeth, não escondia da galera que sua vontade era roubar Juliana de Romário, a quem ele tratava como “aquele safado”, ou nomes piores. E quanto mais Romário e Juliana se mostravam apaixonados, agora em plena luz do dia, na escola e em lugares públicos do Verona, eles se lixavam se aquela turba que se agitava os ameaçava ou não.

Seja como resposta a tal estado de rivalidade e ameaças, ou porque tudo já estava armado e anunciado no íntimo da galera, as rivalidades se exacerbaram e as escaramuças entre os dois grupos cresceram, ao ponto de Ramalho ter providenciado, segundo afirmava, talvez apenas se gabando, uma viatura da Polícia Militar para manter a paz nas ruas, à custa de se fazer algumas prisões a esmo, atingindo agora tanto Chapas como Monteiros, embora com menos severidade no caso dos primeiros.

Romário e Juliana, claro, tinham olhos só um para o outro, fazendo todo esforço para se colocarem fora de qualquer confusão. Mas a vida não voltaria tão cedo totalmente ao normal, ali na confluência dos setores “M” e “C”, no Residencial Verona.

Ramalho, vendo baldados seus esforços de apaziguamento das gangs juvenis, foi buscar apoio, ou melhor, isso lhe foi oferecido por parte de um líder do tráfico local, portador de robusto prontuário policial, bem conhecido por ele e pela polícia em geral, o Messias, por alcunha JB, que temia ver naqueles conflitos de rua um ameaça à clientela de seus pontos de venda de maconha e cocaína.

A esta altura dos acontecimentos outro personagem adentrara ao cenário, este mais razoável e contemporizador, um frade, João do Socorro, também conhecido no meio católico como Freijão. Ele tinha contatos e conseguia dialogar com ambos os grupos rivais, mas a liderança atual dos Chapas, exercida por Deth, repercutindo as determinações de seu pai Deusdeth, rejeitava qualquer aproximação com ele e com os católicos em geral. Do lado dos Monteiros, Romário, que mantinha amizade respeitosa com Freijão e tomado pelo amor de Juliana se aproximou das propostas pacifistas do frade, mas mesmo dentro de seu grupo, os Monteiros, começa a sofrer críticas e desconfiança.

A esta altura, a panela de pressão explodiu. Em nova refrega de rua, um dos Monteiros, Rick, primo de Romário, recém emigrado de uma das cidades do Entorno do DF, topa na rua com o líder rival dos Chapas, o Deth e ali se enfrentam, raivosamente, rolando na poeira, ambos armados com punhais ou canivetes. Desgraça pouca é sempre besteira e assim o filho do pastor acaba esfaqueado e ferido de morte, após peleja incentivada indistintamente pelas duas facções, que fizeram uma roda em torno aos contendores. Romário tenta apartar a briga, mas não tem sucesso e inclusive termina ferido por uma canivetada, sabe-se lá de quem. Rick se safa rapidamente, porém Romário permanece na cena por um tempo, passando a ser suspeito da morte de Deth, não só em acusação por parte dos Chapas, mas também por Ramalho, que logo acorre ao local da briga. Como Romário se evadisse, o policial jura prendê-lo logo que ele aparecesse de novo.

A guerra rapidamente se espalha através do Residencial Verona e adjacências, fazendo com que a PM ocupe novamente várias ruas e praças, ameaçando todo mundo, até mesmo mulheres e crianças que nada tinham a ver com a situação de conflito.  É nessa hora que Romário, aconselhado por Freijão e por amigos, escapa de Ceilândia, sem saber para onde ir, talvez alguma vila ou cidade além da divisa de estados, como Girassol, Descoberto ou Padre Bernardo. Nos dias que se seguem, corre a notícia de que ele talvez também tenha sido morto por alguém, a mando de Deusdeth.

Juliana, no ateliê de costura em que trabalhava, em pleno expediente é avisada dos riscos que corria seu namorado e amparada pelas colegas de trabalho chora e lamenta com amargura o destino que a vida lhe reservara. Mas as colegas a advertem, para que ela maneirasse no choro pelo namorado, que talvez estivesse vivo, e que fosse mais intensa em relação à morte de seu irmão de fé e Chapa, o Deth.

Baixinho, pra si mesmo, Juliana suspirava: – não sou Chapa nem Monteiro coisa nenhuma, só queria ter paz e o meu amor ao meu lado.

Freijão, ainda tentando uma solução de consenso entre os dois grupos, é ameaçado pelos Chapas, e assim se afasta e parte em busca de notícias mais detalhadas sobre Romário, que ele tinha esperança de ainda estar vivo. Numa reunião da associação de moradores do Verona, realizada um pouco antes, o frade tinha sido interpelado por Deusdeth, que o acusou de comunista, de andar em companhia de bandidos e protegê-los, de fazer o jogo da mentira em conluio com o diabo. JB Messias, o chefe do tráfico local, também presente na reunião, junto com sua mulher Micaela Firmina, dá respaldo e constrange os participantes a apoiarem tais acusações.

O mais que sei é por ouvir dizer, pois não estive mais com Romário. Um amigo de Águas Lindas, a cidade vizinha onde ele se refugiara, me contou que o pobre rapaz fora cercado, na calada da noite, numa viela, por um grupo de estranhos, ao que tudo indica liderados por Patrício, também filho de Deusdeth e irmão de Deth, que o esfaquearam a sangue-frio, sendo seu corpo recolhido pelo rabecão do IML de Goiás somente no dia seguinte.

O policial Ramalho, aliás, primo do pastor Deusdeth, disse pra quem quisesse ouvir que Romário teve a morte que merecia e que se tivesse dependido dele teria deixado acontecer.

A notícia da morte de Romário, finalmente confirmada a Juliana, faz com que ela se recolhesse, em total estado de choque. Dois dias depois ela foi levada pelo pai até a emergência da cidade, com um quadro médico muito grave, que depois se confirmou como motivado pela ingestão intencional de soda cáustica.

Não. Juliana não morreu, mas ficou com lesões graves no esôfago, sendo submetida a tratamentos dolorosos e prolongados, que a levaram a perder quase a metade de seu peso original.

A missa de corpo presente para Romário, oficiada por Freijão, contou com apenas duas ou três dezenas de participantes, sendo notório que nos arredores da capela improvisada na escola Conchita Roriz havia vários paus mandados, tendo a frente Patrício e mais alguns capangas de Messias JB, com os presentes sendo ofendidos com gestos e aproximações ameaçadoras.

Pois é, desgraça pouca é bobagem. Mas de certa forma os acontecimentos narrados acima balançaram a rotina modorrenta (porém violenta) daqueles dois setores de Ceilândia. Tempos depois muita coisa mudou, ou começou a mudar. Mas isso é história para novos capítulos.

Hoje eu, Wiliam Shake, ou Cheique, encontro as anotações que transcrevi acima, no fundo de uma gaveta de minha sala do CRAS, tendo passado meia dúzia de anos depois desses acontecimentos. Eu tinha escrito isso como possível parte de uma dissertação na pós graduação em Política Social que eu então cursava na PUC de Taguatinga. A minha ideia era levar adiante uma reflexão teórica sobre práticas de negociação em situações de conflito social e eu queria fazer daqueles acontecimentos um case. Acabei desistindo, porque a orientadora que lá me arranjaram, uma velhota quadrada pra caramba, foi logo me questionando, quando leu o material, se eu estava me preparando para ser romancista ou especialista em política pública. Com tal receptividade acabei desistindo do projeto e fui fazer uma pesquisa convencional na literatura, com foco no mesmo objeto e assim acabei deixando essas páginas guardadas e quase esquecidas por todos esses anos. Somente agora redescubro tal material, ao arrumar minha mesa no CRAS, em rito de despedida, por estar, feliz e finalmente prestes a mudar de função e de local de trabalho.

De toda forma, posso acrescentar informações sobre alguns dos personagens mais importantes dessa triste novela.

Juliana foi consumida em vida pelos dolorosos tratamentos a que teve que ser submetida, dada a estenose gravíssima do esôfago que ela havia adquirido em função da tentativa de suicídio. Até quando soube dela, foi viver com parentes no sertão paraibano, tendo perdido mais da metade de seu peso ideal, além da bela fisionomia que enfeitava sua mocidade.

Deusdeth, depois de duas candidaturas frustradas a deputado, uma em Goiás e outra no DF, se enrascou em dívidas de campanha e desvio de fundos da igreja, além de processos de assédio por parte de maridos de algumas das fiéis de sua igreja. Seu corpo foi descoberto pelos urubus, algum tempo depois de ter desaparecido, no município de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, não muito longe da Ceilândia.

Patrício teve que se foragir por dívidas e processos por assédio e violência, inclusive contra mulheres e desapareceu do mapa, dizendo alguns, sem confirmação, que ele foi viver em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. 

JB, o Messias, acabou preso por tentativa de golpe financeiro e tráfico de drogas. fazendo cinco nos que está recolhido à Papuda. Já sua mulher, Firmina, se deu bem, pois se separou de seu infame marido logo após os acontecimentos aqui narrados e conseguiu, graças ao apoio de uma nova congregação neopentecostal surgida na área, um mandato na Câmara Legislativa do DF, com forte possibilidade de ser agora eleita, pela segunda vez, tendo como mote de campanha Uma Mulher de Deus no Poder.

Rick, o assassino do Deth sumiu no mundo, já procurei saber dele, mas ninguém dá notícias.

Frei João do Socorro, que passou a ser conhecido popularmente apenas como Freijão, pediu dispensa da ordem franciscana e casou-se com Rosalina, que tinha sido namorada de Patrício, tendo rompido com ele por razões mais ideológicas do que propriamente afetivas. Apoiado pela companheira, ligada na política como ela só, Freijão candidatou-se e agora é Deputado Distrital no DF, assumindo por esses dias seu primeiro mandato.

E eu, William Shake? Se querem saber, me tornei amigo muito próximo de Freijão e acabo de ser convidado por ele para assumir um cargo em seu gabinete. É claro que aceitei! Por que não aceitaria?

*** FIM***

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Histórias de Segunda Mão – Vereda Saúde

Segundas Histórias de Segunda Mão – Vereda Saúde

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