Estes meus textos sobre a natureza em Brasília, como já comentei, procuram de certa formar resgatar plantas geralmente pouco lembradas nas descrições paisagísticas que são abundantes por aqui. Mas tem mais, um motivo mais pessoal e até afetivo: muitas delas me provocam curiosidade, por algum motivo, não importando se é coisa autóctone, endêmica ou exótica. Assim, hoje coloco aqui em foco a cerca viva que separa o prédio onde moro na 316 Norte da Escola Pública vizinha. Quando comprei o apartamento alguém me alertou sobre o risco de ir morar bem ao lado de uma escola, um ambiente barulhento, segundo o prestimoso conselheiro. Mas qual! Nunca me importei, ao contrário, tenho a maior alegria em escutar em boa parte das manhãs e das tardes, aquela algaravia infantil, que bem me lembra o cantar alegre de um viveiro, como está na canção de Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Mesmo quando o viveiro se agita, com um ilustre e ignoto tocador de berimbau, ao que parece um professor de artes, que acrescenta ao tal cantar o seu ritmo monocórdico. Eu achava aquilo meio chato, até meio destoante do ambiente, quando fui observar de perto a sessão musical e vi um bando de 20 ou 30 crianças absolutamente fascinadas com a marcação, acompanhando com aquela verdadeira dança que é a capoeira. Lembram do famoso Flautista de Hamelin? Pois é, só que neste caso, em total bom e harmonioso sentido. Empolgação em grau máximo e assim deixo o bom rapaz do berimbau perdoado de seu tom monocórdio. Mas eu falava aqui era de natureza, de outra natureza, por suposto. No caso, de uma cerca viva…
A tal cerca, na verdade uma tela de arame robusto, não é daquelas que veda totalmente o acesso à visão de fora. Ao contrário, na maior parte de sua extensão permite ver o que se passa intramuros (e vice-versa), como foi o caso da aula de capoeira da qual falei acima. O que me parece notável nela é a sua cobertura vegetal, não totalmente contínua, mas que bem oferece uma visão de como de fato se organiza o paisagismo em nossa cidade, longe das regras burle-marxianas ou acadêmicas. Afinal, naquela extensão que talvez não cobrisse 100 metros encontrei um conjunto vegetal variado, digno de ser comentado, pela sua insuspeitada associação entre alimento e farmácia e também por estar em sintonia com seu entorno escolar e mais ainda, com o que eu chamaria de Espírito de Brasília. Voltando ao título acima, citando Fernando Pessoa: Deus quis que a terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse – da mesma forma, no lugar do oceano, esta cerca.
A tal cerca de fato poderia estar mais bem cuidada (mas quem neste país consegue tal feito?), mas mesmo assim me parece notável. Em primeiro lugar pelas espécies que eu observei ali, entre elas os pés de malvavisco, de ora pro nobis, de pitanga, de guaco, de amora, de mamão, manga e goiaba. Isso tudo em um trajeto de menos que 100m.
Para quem não liga muito em natureza, aqui vai uma breve descrição de algumas delas (ao final do texto incluirei fotos).
O malvavisco (Malvaviscus arboreus) é um arbusto tropical, apreciado por suas flores vermelhas (ou rosadas) que, ao contrário do hibisco tradicional, permanecem semi-fechadas, lembrando pequenas sombrinhas. Possuem grande quantidade de néctar o que faz delas um ímã natural para beija-flores e borboletas, garantindo vida e movimento aos lugares onde florescem. Têm floração longa, praticamente o ano todo, com maior abundância na primavera e verão. Ah sim, são comestíveis em estado cru, dando às saladas um colorido luxuoso.
Ora-pro-nóbis, de nome científico Pereskia aculeata, é uma cactácea trepadeira folhosa, originária das Américas, com ampla distribuição nos três continentes, inclusive no Brasil. É uma planta rústica, perene, resistente à seca, cultivável tanto à sombra como ao sol e até mesmo em vasos. Tem folhas verdes e saborosas, ricas em proteínas e vitaminas, que lembram o gosto da couve-manteiga. Seu nome, em latim significa “rogai por nós”, havendo controvérsias sobre sua origem, mas certamente com algum componentes ligado à religião católica.
O guaco ou erva de bruxa (Mikania glomerata) é uma planta medicinal utilizada tradicionalmente contra problemas. É também conhecido em outras regiões como guaco-cheiroso, cipó-almecega, cipó-caatinga ou erva-de-cobra, sendo espécie nativa do Brasil, cultivada em todo o território nacional. Já era conhecido pelos indígenas, que a utilizavam para combater o veneno das serpentes, sendo aplicado sob a forma de macerado das folhas (cataplasma) aplicado sobre as picadas. Suas folhas emanam um aroma intenso e agradável.
A pitanga, Eugenia uniflora, todo mundo certamente conhece, aquelas bolinhas globosas e carnosas, de cores que variam do vermelho, ou do quase preto, até o alaranjado e o amarela, dependendo do grau de maturação. É famosa pelo seu sabor, ao mesmo tempo ácido e adocicado, sendo um excelente ingrediente pra coquetéis alcoólicos ou não. no Tupi antigo a palavra pitanga (‘ybapytanga) significa simplesmente fruta vermelha.
Não entrarei em detalhes sobre mamão, amora, manga e goiaba, por dispensarem apresentações mais formais.
E o tal espírito de Brasília?
Ao falarmos dessa cidade é inescapável a lembrança relativa a algumas das promessas que rodearam seu nascimento. Dom Bosco, embora haja controvérsias a respeito de sua famosa profecia, apontou um lugar onde jorraria leite e mel. Para Lucio Costa, seu criador concreto e verdadeiro, seria uma cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país. Niemeyer não teria deixado por menos, ao falar de uma flor naquela terra agreste e solitária, cidade erguida em plena solidão do descampado, como uma mensagem permanente de graça e poesia, uma cidade que ao sol vestisse um vestido de noivado. Com Vinicius e Tom a poesia lhe chegaria em forma ainda mais pura: grandes extensões sem mágoa, no círculo infinito do horizonte, no ar puro do cerrado, plantada no deserto como uma cidade muita branca e muito pura. JK, o fundador, como bom político emendou: deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã o do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.
Melhor do que isso só se todos esses sonhos e devaneios tivessem, de fato, sido cumpridos e correspondidos nos trâmites da inteira verdade.
Pois é, difícil separar Brasília de tais visões líricas, oníricas, sem deixarem de ser futuristas e otimistas. É certo que um dia tudo isso teria capotado (para usar uma imagem de Chico Buarque), sabe-se lá por qual motivo, mas de minha parte continuo acreditando que uma parte de tais sonhos ancestrais ainda persistam em algum lugar. Nesta escola da 316 Norte, por exemplo.
As muitas escolas públicas da cidade, por exemplo, seriam o complemento obrigatório daquelas máquinas de morar imaginadas por Le Corbusier e adotadas por Lucio e Oscar, na qual se associariam conforto e contato com a natureza. E a escolinha da 316 está lá, digna e confortável, de fato, além de rodeada de prédios de apartamentos igualmente dignos e confortáveis, servidos por comercio variado, área verde a perder de vista e transporte à porta. Mas há um detalhe que talvez os criadores e fundadores não suspeitassem: parte de seus alunos, talvez a maioria, são buscados por gente de aparência mais simples, em veículos modestos, outros tantos levados nos simpáticos ônibus amarelinhos para algum destino remoto. Conclusão: a escola não está ali para atender a todos, democraticamente, já que uma parcela dos moradores da quadra ou vizinhança, ou seja, da famosa classe média, opta por pagar escolas particulares, alhures, com certeza.
Acontece que seguramente dentro do espírito fundador, escolas, centros de saúde, parques e outros equipamentos urbanos foram concebidos como instrumentos democratizantes, nos quais patrões e empregados, bem como seus filhos, seriam acolhidos no mesmo espaço e com as mesmas prerrogativas. Mas os fatos mostram que isso não se realizou.
Aliás, percebi alguns aspectos de tal irrealização no Cité Radieuse, que visitei tempos atrás, icônico edifício projetado no pós guerra por Le Corbusier, o grande influenciador de Costa e Niemayer, em Marselha, na França. Ali há pilotis, como aqui no Plano Piloto, espaços amplos, áreas arborizadas, parque infantil, andares superpostos e muito vidro, comme d’habitude. Sua ocupação humana, todavia, é bem diferente do que ocorre aqui em Brasília, ou seja, com andares separados para residências, comércio e escritórios, tudo em uma mesma unidade, como ali se contivessem as variadas funcionalidades que uma cidade normal oferece. Vou direto ao final da história: nos dias de hoje La Radieuse virou um museu a céu aberto, com pouquíssima gente morando lá, presença marcante de Air-Bnb e congêneres, preços estratosféricos de aluguéis e a maioria dos espaços comerciais ocupados por empresas de design e arquitetura. Ou seja, aquilo era modernidade em estado de exagero, mesmo para a ilustrada República Francesa. Ah sim, o devaneio corbusieriano é também conhecido por lá como Maison du Fada (literalmente Casa de Loucos).
Não quero comparar o destino da tal Cité Radieuse, com a evolução real da vida em Brasília, mas cito tal fato aqui apenas para demonstrar como boas ideias não vencem e nem se realizam apenas por serem boas ideias. Há muitos outros fatores em jogo.
Mas voltando à escolinha da 316 Norte – aliás, uma baita escola – creio que ali subsista, embora um tanto adormecido, como um resquício de sonhos generosos, um pouco daquele espírito iluminado, gentil, futurista, profético, poético, puro e florido trazido por uma geração passada que muito bem sonhou sobre o cenário do cerrado. Um lugar onde os moradores vizinhos podem descer e colher um pouco de guaco para fazer um chazinho, uma braçada de ora-pro-nobis para a salada do jantar, uma cesta de pitangas para fazer uma caipirinha ou um refresco, mediante um singelo passeio por um corredor lateral, em algum final de tarde. De quebra, o cantar passarinheiro das brincadeiras infantis, a marcação do berimbau do professor de arte, o aroma sadio das folhas de guaco e, quem sabe, os eflúvios de uma escola humanizada e democrática, prenúncio risonho de um futuro que um dia poderá nos acontecer. Espero que ali exista também uma potente associação comunitária de pais a comungar, de forma coerente, ideais de liberdade, respeito, democracia e pedagogia libertadora com os mestres. Seria exigir demais?
GUACO

PITANGA

ORA PRO NOBIS

MALVAVISCO

