Um périplo Rosiano, com partida (e chegada) em Brasília

O que Brasília tem a ver com Guimarães Rosa? Não é pouco, como poderia parecer à primeira vista, pois pelo menos dois fatos a respeito disso podem ser citados. Primeiro, um dos contos daquelas Primeiras Histórias, intitulado As Margens da Alegria, é ambientado nesta cidade, ainda nascente, onde uma criança tem seu primeiro contato com algumas curiosidades de um mundo que também começava a existir para ela: uma viagem de avião, uma terra muito diferente da sua, um formigueiro humano a cavoucar e abrir caminhos no mato até então fechado, a força das máquinas pesadas desvirginando o cerrado, e mais um tucano e um peru assassinado… Em segundo lugar um fato geográfico: o grande mundo do vale são-franciscano, território de Grande Sertão: Veredas praticamente envolve nossa cidade, já que um dos rios que se recolhem à sua bacia, o Rio Preto, praticamente nasce entre nós. Isso para não falar do Urucuia, que é dado à luz bem aqui perto, na vizinha Formosa. Aliás, boa extensão de terras à leste do próprio DF, fronteiriças a Goiás, já pertencem à bacia do rio São Francisco. Mas tem mais… Os largos chapadões sulcados pelo fluxo milenar das águas que escorrem do Planalto desde os tempos do oceano primitivo; as veredas de buritis e as aglomerações de macaúbas; o cerrado em suas variedades; os ribeirões envoltos pela mata ciliar; as estações do ano bem demarcadas; o céu azul sem nuvens durante metade do ano; as noites frias fazendo par aos dias quentes constantes por aqui, mostram que há muitas coisas que nos fazem também viventes no verdadeiro Grande Sertão. 

Assim é possível, como procurarei demonstrar, realizar um bom périplo rosiano tendo como pontos de partida e de chegada a nossa cidade. Tomemos, pois, para começar, o caminho da BR 020, que saindo daqui de Brasília, via Eixão Norte, vai dar à Bahia e a todo o Nordeste do país, embora ainda na vizinha Formosa caiba tomar outro rumo, mais ao Leste. E assim, rodados uns 70 ou 80 km vamos encontrar, à esquerda, uma placa a indicar Cabeceiras, nome aliás muito apropriado, por indicar uma formação geográfica que intermedeia o nascedouro de dois dos afluentes do Chico: o Urucuia, do lado esquerdo da estrada e o Preto, à direita, que chega ao grande rio através do afluente Paracatu. É por aí vamos adentrando cada vez mais no Sertão Rosiano.

Podemos dividir, didaticamente, esta viagem em sub trechos: (1) Planaltos formadores do Urucuia, entre GO e MG; (2) Margens remansosas do Urucuia, no Noroeste de MG; (3) Parque Nacional do Grande Sertão Veredas; (4) Terras altas da Chapada Gaúcha (você não leu errado, o nome é este mesmo!) e da Serra das Araras; (e) Planície beira rio em Januária e Peruaçu; (f) Trajeto beira-rio até a cidade de São Francisco. Deste último ponto, pode-se optar: seguir até Montes Claros e depois Pirapora ou ainda, pela mesma beira do rio do Chico, alcançar São Romão e a mesma Pirapora. Ou, se a pressa for grande, retornar ao DF.

Estaria assim percorrido todo o Sertão Rosiano? Calma, longe disso, mas se pode dizer que teremos percorrido parcela significativa do mesmo, incluindo seu limite Norte, na fronteira com a Bahia, no atual Parque Nacional e até certo ponto também o limite Oeste, nos chapadões entre Minas e Goiás, onde se situa o próprio DF. Para o Leste e para o Sul, há territórios importantes que ficarão de fora da presente jornada, sendo assunto para outros momentos, futuros.

Para quem ainda não leu o Grande Sertão: Veredas, ao qual referirei doravante como “GSV” (e seu autor “JGR”), vai aí um tira-gosto:

Um homem recebe um visitante para uma longa conversa. Deste último, nada se saberá, exceto que vem da cidade, enquanto o anfitrião, também narrador, mora na roça. Mas se aquele se trata de pessoa letrada, com certeza interessada na longa conversa de que participa como bom ouvinte, pois não proferirá palavra, o anfitrião tem prosa rústica, porém articulada e fluida. Ele começa falando de generalidades, como de uns tiros que o visitante teria ouvido um pouco antes de chegar e aproveita para declarar seu gosto pelas armas, mas só para treinar a pontaria, pelo menos nos últimos tempos, pelo que se depreende. Fala das pessoas que lhe são vizinhas, da simplicidade e do modo tosco destas em relação às coisas do mundo; de um compadre que mora distante e que lhe traz inspiração espiritual, em relação à qual é muito respeitoso; de mulheres que ele paga para rezar para ele. Por que este homem precisaria de tantas orações assim? Já nesse momento o leitor começa a penetrar no universo denso e profundo da longa história que se desenrolará. Aqui e ali, já de início, o narrador coloca em pauta algumas dúvidas que tem, por exemplo, da presença de Deus na vida dos homens e também da contrapartida oferecida aos viventes por ninguém menos que o Diabo. Será que este de verdade existe, indaga repetidamente? Deixa no ar, em certo momento, uma frase que repetirá em vários momentos da conversa, a ser esclarecida só ao final: o diabo, na rua, no meio do redemunho.

Cabe aqui também uma definição de Sertão, nas palavras do próprio JGR:

Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.

Vamos recordar alguns dos acontecimentos do GSV ocorridos nesses caminhos que deveremos percorrer, ou seja, o Vale do Urucuia (a que eu chamo de Rio Personagem do grande livro). Ali vivia Otacília, a noiva querida e futura esposa de Riobaldo; seu amor mundano Nhorinhá e sua mãe, a feiticeira Ana Duzuza; aconteceram grandes périplos e batalhas; juntaram-se ao bando de Riobaldo os Catrumanos, personagens improváveis, associando primitivismo quase neandertaliano, miséria material e enorme bravura; nas vizinhanças da Bahia se forma o terrível lugar Liso do Sussuarão. Ainda com foco nessas paragens são marcantes as narrativas do livro relativas a paisagens, florestas, plantas e vida selvagem. O Urucuia e os urucuianos são citados no Grande Sertão: Veredas quase cem vezes, para se ter uma ideia. Riobaldo o tratou como meu rio de amor.

Isso tudo na banda Oeste, esquerda, do São Francisco. Na banda direita, do Leste, nasceram e foram criados Riobaldo e o próprio Diadorim e também o chefe Zé Bebelo, sendo nessas mesmas paragens do levante que a dupla de amigos/amantes, Riobaldo e Diadorim, se encontrou pela primeira vez, ainda na infância, e outra vez mais, já na idade adulta, respectivamente na barra do rio de Janeiro, próxima à atual represa de Três Marias e no Guararavacã do Guaicuí, na foz do rio das Velhas, vizinhanças de Pirapora.

Em certo trecho do livro o próprio narrador, Riobaldo, admite: O São Francisco partiu minha vida em duas partes.

De um lado e de outro, nas duas margens do rio, acontecem os extraordinários eventos que compõem a trama de GSV, dos quais não falarei aqui, para não dar spoiler a quem ainda infelizmente não o leu. E ainda existe também uma terceira margem… Os bons entendedores, entenderão.

Comecemos a viagem, então…

  1. Nos planaltos formadores do Urucuia

O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.

Neste fragmento do GSV já se mostram alguns elementos dessa nossa jornada: as nascentes do Urucuia em terras altas, a agricultura pujante em suas margens, as florestas portentosas que um dia o rodearam, tudo isso dentro de um sertão e dos gerais sem tamanho.

Urucuia: para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente. A proposta é ir ao encontro de tal rio-personagem e de suas personagens-pessoas.

Por essas terras altas demais, acima dos mil metros, os tais montões oestes, é que começaremos de fato nossa viagem, nas cercanias da cidade de Formosa, a 60 km do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome, transformada em polo do agronegócio e sede de um território economicamente desigual, dominado pela política mais conservadora, o que as bandeiras do Brasil desfraldadas do alto dos galpões da beira da estrada bem atestam.

Esqueçam esta parte bandeirosa, pois logo adiante, no povoado de Bezerra, às margens da BR 020, cerca de 100 km de Brasília, vamos encontrar as primeiras águas matrizes deste rio Urucuia, em um pequeno e precioso Lago Azul, uma de suas múltiplas nascentes, o anuncia, entre os municípios de Formosa, Buritis e Cabeceiras, em Goiás. Os fazendões e margens de bom render anunciados por Rosa já aqui mudaram de feitio, dominados pelo maquinário agrícola pesado e os exatos compassos dos pivôs centrais.

É bom dizer, entretanto, que aqui o sertão não virou propriamente um mar, mas um oceano de soja. É este o nosso instrumento no concerto das nações – fazer o quê?

Comentário técnico: sabem o que é uma dolina? Não se preocupem, até outro dia eu não sabia também. Recorro à Wikipedia: é uma depressão no solo característica de solos calcáreos, formada pela dissolução química das rochas abaixo da superfície, com formato geralmente circular podendo ou não ser ocupadas por água, sedimentos, solo ou vegetação. E existe tal formação em nosso caminho, quase às margens de um Urucuia ainda recém-nascido, sendo uma das muitas nascentes dele. Fica dentro de uma capoeira de mato (rodeada de soja e pastagem por todos os lados…) e tem sua água totalmente transparente, profunda, de tonalidade azulada e povoada por milhares de lambaris. Um espetáculo inesquecível, um bom começo para nossa jornada.

Como disse JGR, o gerais corre em volta, esses gerais sem tamanho. Nada mais acertado, aqui já dá pra ver e sentir, os horizontes largos, sulcados de forma ampla pelos vãos que se formaram quando o oceano primitivo escorreu. Este Sertão, parte dos tais Gerais, aliás bem distantes e diferentes das Minas, é quase do tamanho do mundo. Não é à toa que o Rosa também disse, com razão: o sertão está em toda a parte. É bonito o sertão? Depende. Tem que saber olhar, ou olhar do jeito certo. Esta região, por exemplo. Aqui se abre um anfiteatro, amplo, sem tamanho. Dependendo da época do ano está tudo verde, verdíssimo, mesmo nas áreas não cobertas pela soja. A vegetação do cerrado, formada por pequis, jatobás e muitas outras espécies é ainda está presente, principalmente na beira das estradas, mas certamente ameaçada. Mas o que chamará mais a atenção da gente são as grandes chapadas que se debruçam sobre os largos platôs e vales, como se fossem grandes mesas, talhadas a pique, de tonalidade verde escura, sem outro recorte que não seja suas largas reentrâncias, que faz delas algo como uma grande mão espalmada sobre uma superfície horizontal. E de entremeio a elas, o Urucuia, que por aqui ainda é modesto, realmente nem parece ser o responsável, ao longo dos milênios, por tal modelagem titânica.

Nesses tais montões oestes nasceu, além do próprio rio Urucuia, uma cidade: Buritis. Tudo ali começou tarde, até os anos 50, por lá nem se chegava de automóvel. Porém, com a construção de Brasília, tudo mudou, a princípio timidamente, mas depois, com a expansão da fronteira agrícola, numa explosão sem tamanho. Rodeada de soja por todos os lados, é uma cidade ordenada, clara, limpa, plana e, sobretudo, muito rica. Agências de veículos e tratores, postos de gasolina, comércio de todo os tipos, drogarias, clínicas de médicos e dentistas, lojas e cursos de informática, escolas de inglês. Nada é perfeito: por ali também tremulam as bandeiras verde-amarelas por toda parte. Há de tudo por ali e tudo parece estar em franco progresso. Outra cidade do mesmo tipo e com história parecida é a Chapada Gaúcha, situada mais adiante. Falaremos dela depois.

Cabe lembrar que em Buritis uma graciosa capela, de idade indefinida e estilo vagamente barroco, bem conservada apesar de tudo, faz lembrar que de fato ali é Minas Gerais.

O nome Buritis vem, com certeza, desta palmeira, Mauritia vinifera, sem dúvida a mais linda de todas em tal categoria, também personagem do Grande Sertão de Rosa. Mostram-se geralmente dispostas pela natureza sob a forma de veredas, ou seja, verdadeiros caminhos traçados pelos cursos d’água, aos quais são afins. Deveriam estar por toda parte aqui neste pedaço de Sertão, mas vão se escasseando nos dias de hoje. Mas para lembrar que ainda existem, dois desses buritis, é verdade que um tanto tímidos, foram plantados pela Prefeitura Municipal de Buritis, na praça onde se situa seu prédio sede. E não há muitos mais, pelos arredores da cidade, pelo menos.

  • Nas margens remansosas do Urucuia

Como os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. O Urucuia é um rio, o rio das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbus, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias.

Os chapadões, dominantes, aos poucos cedem espaço ao vale propriamente dito. A vegetação mais rala deles, já quase substituída pelas lavouras mecanizadas, aos poucos se transforma em cerrado, forte e grosso, onde pontificam o jatobá e a sucupira branca. É ainda tudo verde, agora mais variegado, criado que foi diretamente, pela própria natureza, que não aprecia a uniformidade das lavouras. E descemos dos tais chapadões oestes acompanhando o curso de águas, entre as quais a de um São Miguel, que ao Urucuia aflui no município de Arinos.

Aqui de fato é Sertão.

Urucuia, o Rio-personagem, finalmente. Em Buritis ele é pouco mais que um riacho, a correr, apressado nas beiradas da cidade. Daí pra frente, encorpa. De Arinos em diante já se afigura como o descreveu Rosa, um rio que não dorme, que não quer ir a nenhuma parte, senão chegar a ser mais grosso e mais fundo, que rebebe o encharcar dos brejos, que recolhe e semeia areias. E por ele e com ele seguimos em frente, no rumo de Riachinho e da própria cidade que ele batiza.

Descido dos chapadões que lhe deram origem, o Urucuia escoa, finalmente, como quem não quer ir a nenhum lugar, apenas chegar ao encontro do Chico, em seu caminho bordeado pelo cerrado, que por aqui, nessas beiras, é quase uma mata fechada.

Há um primeiro lugar a nos chamar a atenção: Sagarana, no município de Arinos. Mas não se açodem: este nome veio depois, e não antes do primeiro livro de Guimarães Rosa, que tem este nome. Algum desavisado poderia pensar que foi ali que Guimarães Rosa achou tal designativo, mas foi exatamente o contrário que aconteceu. Alguém que leu o Mestre, talvez em algum livro em que faltavam páginas, entendeu que aquele lugar tinha alguma coisa a ver com o título de tal livro. Mas isso é falso: Sagarana, o livro, na verdade, traz histórias que se passam na região central de Minas, em torno da cidade natal do escritor, Cordisburgo ou talvez na região de Itaguara, onde ele viveu por algum tempo. Isso se não for fruto da imensa imaginação do Rosa, enriquecida no balcão do armazém de seu pai, o senhor Florduardo Pinto Rosa, em Cordisburgo

Tudo bem, tudo é sertão e alguém pode dar a algum lugar o nome que quiser. O problema é o ambiente fake e de gosto duvidoso que impera na tal Sagarana, onde dominam a paisagem estátuas grotescas de santos, feitas de concreto armado; uma falsa ruina colonial; versos trôpegos e de pé quebrado pregados na tal ruína; uma igreja monstruosamente desproporcional ao lugar, além de uma inusitada cúpula geodésica diante da qual, alguém mais lúcido certamente indagaria: o que isso está fazendo aqui? Sem resposta, diga-se de passagem.

Justiça seja feita, todavia: em uma passagem minha anterior por lá, em janeiro de 2025, junto a um amigo, filmando um documentário, conheci e entrevistei uma figura realmente notável, o Agemiro, em cuja companhia apreciei um excelente café, com bolo de fubá e requeijão que sua diligente esposa Petronilha nos ofereceu. Portanto, valeu a pena ter ido lá, mas quanto ao restante o melhor talvez seja guardar um silêncio obsequioso.

Riachinho, poucos km adiante, é a próxima parada. Acreditem, é uma cidade planejada em pleno sertão. Ruas largas, uma avenida central com um belo canteiro central, rotatórias de quando em quando, muita vegetação, a maior parte natural do cerrado, uma bela moldura formada pelas bordas da chapada vizinha. Lugar de agronegócio pujante, principalmente pecuária de corte, mais do que láctea.

Em Riachinho, ou melhor, logo adiante de sua mancha urbana, já na rodovia asfaltada, é hora de apreciar, de perto e novamente, o Urucuia em seu estado remansoso e preguiçoso. Na ponte próxima à cidade a parada é obrigatória e logo ali em baixo o Urucuia escorre, mais grosso e mais fundo em seu mister de recolher e semear areias. 

Urucuia, a cidade, a próxima parada, bem à beira rio, poderia ser um bom lugar, mas não é. Cidade pobre e descuidada, crescida em torno de uma rodovia, dominada pelas lojas de adubo, ração e farmácia veterinária, sem outro atrativo que não seja a barranca do rio, maltratada e poluída pelo lixo dos bares beira-rio e pelo som sertanejo de tais estabelecimentos, bastante precários, por sinal.

Para não dizer que não há nada de relevante e significativo ali, registre-se a presença de uma balsa que transita gente e veículos bem em frente à cidade, atravessando o Urucuia, presa a um cabo de aço e assim movida pela própria força das águas, graças a movimentos especiais em cada margem, executados manualmente por um exímio balseiro. Sem consumo de petróleo ou de kilowatts elétricos.

  • Parque Nacional do Grande Sertão Veredas

Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em campim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais. O senhor vê! o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo. Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares.

Falar de buriti é uma excelente abertura para o que vem a seguir. Estamos de retorno ao planalto urucuiano, o andar de cima, que neste ponto do trajeto, rodeia o Urucuia pelos dois lados, embora cada vez mais afastados um do outro. De fato, subindo aos poucos, vamos alcançar uma enorme chapada, totalmente plana, onde se situa um polo agrícola de primeira linha, tendo como centro uma cidade que atende pelo estranho nome de Chapada Gaúcha. Aqui é como estivéssemos em mar alto e quase se pode demonstrar, agora em terra firme, a esfericidade do planeta. E isso vale para todas as direções cardeais.

E pra todo lado vemos extensas veredas de buritis que surgem a cada momento e se estendem a todas as direções. Isso quando os tratores do agro não as dizimaram, claro.

Ah, o buriti… Existem diversos gêneros botânicos que atendem por este nome, aqui o preponderante absoluto é a Mauritia flexuosa (ou Mauritia vinifera ), existente em vários estados do Brasil, particularmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. Ele é, sem dúvida, uma autêntica marca registrada do Grande Sertão. Ele representa, para os sertanejos que vivem ao longo de suas veredas, não só alimento, com seu doce ao mesmo tempo doce e azedo e sua madeira utilizada para robusto escoramento de casas e currais, além dos estípites de sua folhagem, também estruturais e usados na fabricação de mobiliário e utensílios domésticos, para não falar de suas fibras, usadas em tecelagem e artesanatos diversos. E como se não bastasse, de seus coquinhos ainda se produz um vinho muito apreciado e embriagante, donde seu sobrenome vinífera. Além disso, os buritis são de grande importância na manutenção dos cursos d’água, que eles costumam acompanhar de perto, formando fileiras, que no sertão se chamam veredas.

E esses gaúchos? Eles estão aqui há quase 50 anos, tendo chegado por força da política de assentamento rural dos governos militares. Os mineiros, que não gostam de briga, os receberam bem, até porque quase não havia gente por aqui quando tais forasteiros vieram. Mas o fato é que eles chegaram e tomaram conta. Não é raro em ver, pelas esquinas e nas calçadas em geral, mormente nos finais de tarde, uma roda dos ditos cujos ajuntados em círculo, com suas cuias de chimarrão.

Bá, tchê, aqui tem lugar pra todo mundo!

Chapada Gaúcha e Buritis fazem parte da chamada fronteira agrícola do país. Sua formação econômica tem muita coisa em comum, por fazerem parte daquele desenvolvimentismo agrícola, de fundo altamente tecnocrático, tecnológico e concentrador, que recebeu especial estímulo durante os governos militares. Enfim, nada – ou muito pouco – de agricultura familiar. Acredito que tenha sido também um processo tardio, em relação a outras áreas contempladas com tal projeto de desenvolvimento, já que nesses dois lugares, as dificuldades de acesso sempre foram muito fortes. O curioso nisso tudo é que ali se criou um mundo que poderia ser chamado de roça sem roça, ou seja, um empreendimento agrícola típico, mas que não passou pelas fases tradicionais, digamos, da subsistência, da enxada, da família de agricultores para depois chegar ao trator, à empresa agrícola, aos fortes empréstimos bancários, à alta tecnologia, onde não faltam drones e computadores.

Essas duas cidades, quando comparadas às cidades que foram menos bafejadas pela dinâmica do agronegócio, como Arinos e Urucuia, na parte baixa do vale, mostram um forte contraste com elas. Nestas aí, o mundo ainda é, por assim dizer, da roça, ou caipira ainda, enquanto nas outras é globalizado, tecnológico e até certo ponto cosmopolita. Aqui são observadas aquelas famigeradas bandeiras do Brasil hasteadas por toda parte. Talvez tenham sido mais abundantes no passado recente ou tenham sido corroídas pelo intemperismo, ou, quem sabe, estão guardadas em alguma gaveta à espera de nova oportunidade de serem desfraldadas. É a hipótese mais provável…

As partes baixas do sertão urucuiano, de onde viemos há pouco, parecem estar menos sujeitas à devastação provocada pelo agro. São vastas extensões de cerrado onde a presença humana é menos notada. No trecho seguinte de nosso caminho, até junto ao rio São Francisco, por quilômetros a fio não se verão muitas casas, vendas, pastos, currais algo assim, mas apenas um cerrado grosso e em muitos pontos impenetrável. Próximo a Arinos uma exceção relativa: uma grande usina de placas solares, com seus equipamentos complementares de torres, fios, transformadores etc. Aqueles elétrons capturados na radiação solar são enviados além fronteiras do sertão. É o progresso, pelo menos não estão retirando nada daqui e o que é melhor, sem poluição.

Curioso constatar que é em tal território nominalmente gaúcho que se situa um dos marcos do sertão que ora visitamos: o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, unidade de conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes, que abrange territórios de MG e BA, numa área demais de 200 mil ha, entre as bacias dos rios São Francisco e Tocantins, sendo esta última amazônica. Aqui existem florestas, savanas, cerrado e cerrado denso, com extensas veredas que podem formar lagos ou mesmo rios. O parque engloba grande parte da bacia do rio Carinhanha, também são-franciscano, que divide MG e BA. Há uma longa lista de espécies animais protegidas dentro da área do PNGSV, como lobo-guará, onça-pintada, jaguatirica, onça-parda, tamanduá-bandeira, pato-mergulhão, emas, gaviões-de-penacho, além de diversas variedades de tatus. Se tivermos sorte poderemos observar algumas delas nas estradas da região, se não tiverem sido atropeladas antes de nossa passagem.

É hora de seguir em frente, agora no rumo de Januária. Acabou o asfalto, por ora, mas existem alguns marcos interessantes nesta etapa

Primeiro, em ordem de distância, a Serra das Araras (e das Corujas) e o Vão do Buraco. Rosa fala de um deles: O Vão-do-Buraco? Ah, não, isto é coisa diversa ― por diante da contravertência do Preto e do Pardo… Também onde se forma calor de morte ― mas em outras condições… A gente ali rói rampa…

A tal formação, que às vezes se mostra vizinha à estrada é uma sucessão de morros de um material rosado, meio pedra e meio terra, coisas enormes, de superfície arredondada pelo intemperismo. Nas paredes, uma infinitude de buracos e buraquinhos, aproveitados não só pelas araras como também pelas corujas e outras aves e animais diversos. É coisa bonita, diferente, vale a pena parar para ver, mesmo que nos exija alguns km a mais para adentrar de fato no tal vão, na verdade um vale, o que nos exigirá um pouco – mas não muito – roer rampa. No fundo do vale, comunidades quilombolas muito ativas e organizadas.

Uma breve menção ao Vão-do-Buraco, citado no texto acima, onde de fato nos deparamos com as tais corujeiras nos bravios de ali além, bom lugar para se esconder tudo quanto era bandido em folga. Mas é agora tratado como um quilombo, como se a simples presença majoritária de gente preta possa ser de fato confirmação de tal origem histórica. Valeu a pena desviar uns tantos km da estrada principal entre Chapada e Serra para, literalmente, mergulhar naquele recanto agreste e curioso, com seus contornos formados pelas escarpas de arenito rosa e vistas que alcançam muitos quilômetros ao redor. O nome “buraco” nos deixou em dúvida se se tratava das tais corujeiras (ou seriam arareiras?) ou da própria situação topográfica do lugar.

A vila de Serra das Araras (e das Corujas) estará logo ali adiante. Guimarães Rosa fala dela em certo trecho do Grande Sertão: Eu nem não acreditei. Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras ― revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia ― lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros.

Em visita recente (2025) por ali anotei o seguinte: Eu tinha passado por lá mais de 20 anos atrás e, apesar de mudanças serem comuns na paisagem urbana brasileira, nunca tinha visto algo como vi desta vez. Na época, o vilarejo, na verdade um distrito da Chapada Gaúcha, não passava de um vasto quadrilátero gramado, onde pastavam vacas e mulas, cercado por uma fieira de casinhas simples e coloridas. Uma visão bucólica e inspiradora, sem dúvida. Mas agora, em 2025, tudo mudara. No centro do campo antes vazio, a não ser pela ocupação dos quadrúpedes, ergue-se agora uma portentosa igreja, transbordante de concreto e mau gosto. Como se não bastasse, de frente para ela uma construção igualmente absurda, um misto de palanque e palco, imensa, exorbitando concreto armado, sem qualquer identificação a respeito de sua serventia. Imagino que seria para festas religiosas ou ainda, quem sabe e mais provavelmente, para a realização de discursos ocasionais por parte de suas excelências.

E tem mais: a vila agora não é formada apenas pelo gracioso quadrilátero, havendo também ruas diversas saindo de seus quatro cantos. A franja da serra, formada em arenito rosa, onde um dia se escondiam as araras e as corujas, já não é mais vista dali, ocultada pelos diversos sobrados recém construídos e alguma arborização em seus quintais. Cabe dizer que parte apreciável das construções abrigam bares, nos quais – afinal era um domingo – a gente da terra se esbaldava em cerveja e música sertaneja. A chegada ao inferno não seria pior do que aquilo. Mas fazer o quê: estamos no Brasil.

Depois desta narrativa, alguém se arriscaria a ir até lá? Mas está logo ali na beira da estrada, não custa nada dar uma entrada para espiar, quem sabe melhorou?

Descida a Serra vamos entrar no vale mais proximal do São Francisco. Em algum lugar existe um ribeirão que chega à estrada pelo lado esquerdo e não reaparece à direita, depois da ponte. Que mistério será este? Trata-se de um rio que se torna subterrâneo bem ali, por conta das formações calcáreas da região, coisa comum neste tipo de terreno. Fiquemos atentos para não perder o fenômeno.

Mais adiante uma parada obrigatória: o rio Pandeiros. Ele é também um afluente do SF, não mais diretamente do Urucuia. É um rio curto, com um nascedouro interessante, num terreno de brejos e lagoas onde a vida aquática é muito ativa, sendo comparada a um verdadeiro pantanal mineiro. A estrada não passa perto dessas cabeceiras, mas nos oferece, logo ali ao lado, o atrativo de um balneário, com cachoeira e águas cristalinas, bom lugar para dar uma boa parada e refrescar o corpo, onde é ainda possível até tomar uma cervejinha gelada, no quiosque ao lado.

Existem por ali também equipamentos de uma antiga usina hidrelétrica da CEMIG, atualmente desativada, fruto de uma época em que tais empreendimentos de engenharia respeitavam os rios, não os submergiam.

De tais paragens, o Rosa fala melhor do que eu:

E seguimos o corgo que tira da Lagoa Sussuarana, e que recebe o do Jenipapo e a Vereda-do-Vitorino, e que verte no Rio Pandeiros ― esse tem cachoeiras que cantam, e é d’água tão tinto, que papagaio voa por cima e gritam, sem acordo: ― É verde! É azul! É verde! É verde!… E longe pedra velha remelêja, vi. Santas águas, de vizinhas. E era bonito, no correr do baixo campo, as flores do capitão-da-sala ― todas vermelhas e alaranjadas, rebrilhando estremecidas, de reflexo.

  • Januária e Peruaçu

Alembrado de que no hotel e nas casas de família, na Januária, se usa toalha pequena de se enxugar os pés; e se conversa bem. Desejei foi conhecer o pessoal sensato, eu no meio, uns em seus pagáveis trabalhos, outros em descanso comedido, o povo morador. A passeata das bonitas moças morenas, tão socialmente, alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados, cheirando a óleo de umbuzeiro, uma flôr airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. A Januária eu ia, mais Diadorim, ver o vapor chegar com apito, a gente esperando toda no porto. Ali, o tempo, a rapaziada suava, cuidando nos alambiques, como perfeito se faz. Assim essas cachaças ― a vinte-e-seis cheirosa ― tomando gosto e cor queimada, nas grandes dornas de umburana.

Em algum lugar de sua obra, Guimarães Rosa fala de certa cantiga de Siruiz, na qual aparece a vila do Urubu, alta e mais idosa do sertão. Estão também descritas aí duas das características desta Januária: sua situação em um promontório, permitindo vasta visão do vale adiante, onde corre o Grande Rio e também sua antiguidade, fundada que foi por gente de Pernambuco que subia e descia o vale do São Francisco criando, engordando e negociando gado, além do preparo do jabá, ou carne seca. Isso desde o século 18 ou mesmo antes.

Mas não nos enganemos: dependendo da época do ano, em torno de julho a outubro, o rio se vê tão reduzido em sua vazão que nem é visto mais da cidade, mesmo com a locação altaneira desta.

É um lugar de história rica, de tradição pecuária, centro cultural, manufatura de produtos do sertão, fabricação de cachaça, muito famosa por sinal, e muito mais. A designação de vila alta poderia lhe aplicada também, como alusão a seu prestígio político, sede de grandes coronéis do Norte de Minas e de suas milícias jagunças, com episódios rememorados no GSV.

À beira rio – ou do que foi, ou assim o é, por breves períodos – a cidade é pobrezinha, mas muito jeitosa. Ruas organizadas, uma avenida na orla, arborização densa, casarões e prédios públicos respeitáveis, hotéis de boa catadura etc. Um mercado municipal oferece interessantes opções de produtos da terra, entre eles a cachaça, o artesanato em madeira e latão, a castanha do pequi, a cestaria, alguma cerâmica etc. Sempre haverá um restaurante que sirva bom peixe do Chico, mas pode acontecer que sobreviva nos cardápios e nas cozinhas apenas o tucunaré amazônico, que uma vez introduzido no rio, em anos recentes, ao que parece vem substituindo as espécies originais, ou seja, em tempos melhores, o surubim, o dourado, o curimatã e outros. Peixe este que, por sua vez, pode ter sido pescado em criatórios espalhados pela região, não diretamente no rio.

E já que estamos em Januária, é obrigatório conhecer (coisa que ainda não tive oportunidade) as famosas Cavernas do Peruaçu, situadas poucos km ao Norte da cidade. Ali, na verdade, é um Parque Nacional, reconhecido como Patrimônio Natural pela Unesco, abrigando milhares de espécies de plantas e animais, alguns em risco de extinção. O local, de fácil acesso, abriga ainda mais de 140 cavernas, com dezenas de sítios arqueológicos e pinturas rupestres. Sua origem data de milhões de anos, desde quando a região esteve submersa pelas águas de um mar interior, que ao escorrer deixou inteiros grandes maciços de calcário, abrigando milhares de cavernas. O rio que corre entre os maciços de pedra é o Peruaçu, um dos afluentes da margem esquerda do São Francisco, embora menorzinho, junto com o Urucuia e o Pandeiros

Entre suas muitas atrações está a Gruta do Janelão, cujas galerias chegam a ultrapassar 100 metros de altura e de largura e abrigam a estalactite conhecida como Perna da Bailarina, com quase 30 metros de comprimento, cavidades como a Gruta de Rezar, cujo salão de entrada mede cerca de 90 por 40 metros, alcançado por mais de 500 degraus, além de formações acessíveis por trilhas. Ali estão reunidos alguns conjuntos mais importantes de arte rupestre e sítios arqueológicos no Brasil, que registram a longa presença humana na região, de no mínimo 12 mil anos.

O Peruaçu não tem referência direta no Grande Sertão Rosiano, mas com tantas atrações seria um pecado não visitá-lo.

E sem dúvida, na paisagem de Januária, também serão vistas as bonitas moças morenas, como judiciosamente observou Riobaldo, na voz de JGR.

Parada obrigatória, sem dúvida.

Uma última informação, essa apenas curiosa e bem significativa a respeito da formação da toponímia no Brasil: existe na região uma cidade vizinha (com prefeito, vereadores e tudo que se tem direito) que atende pelo misterioso nome de Japonvar. Alguma coisa a ver com a imigração nipônica? Não exatamente, mas sim um neonome derivado de seus três municípios limítrofes: Januária, São João da Ponte e Varzelândia. Não sei se isso seria o bastante para trazer a NASA, como diz uma brincadeira comum na internet, mas com certeza uma comissão de linguistas. Não deixa de ser um possível indicador de como se formam e se organizam (e se nomeiam…) os municípios no Brasil, quase sempre ao sabor de interesses políticos imediatos, mais do que de necessidades cívicas reais ou alguma racionalidade econômica.

  • Beira rio: de Januária à cidade de São Francisco.

Pra e pra, os bandos de patos se cruzavam. ― Vigia como são esses… Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. ― E aquele lá: lindo! Era o manuelzinho-dacrôa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação.

O que vai acima se refere à descrição do que seria a faixa beira rio do São Francisco, com suas numerosas vargens e lagoas, servindo perfeitamente para o território em que vamos nos deslocar agora, embora, no caso, tenha foco em outra parte, na região do Guaicuí, próximo a Pirapora.

Agora vamos atravessar finalmente o Grande Rio, em uma ponte situada entre Januária a cidade que atende pela simpática designação de Pedras de Maria da Cruz, nos movendo da margem esquerda, onde estávamos até há pouco, para a direita.

Estive por aqui há bem uns 30 anos, montado, literalmente, em um rebelde e xucro 4×4 Niva, trafegando em sentido contrário ao de agora, ou seja, da cidade de São Francisco (de imediato a nossa próxima parada) até essa Januária que acabamos de deixar. Tal viagem deixou em mim e nas pessoas que me acompanhavam uma lembrança indelével. Era um luminoso veranico de janeiro e a estrada estava simplesmente coberta por uma enormidade de borboletas, principalmente amarelas e brancas, que deixou o para-brisa do veículo quase que totalmente velado. Seria ótimo se a natureza nos oferecesse tal oportunidade novamente, embora caiba alertar que dá um trabalho danado limpar aquela maravilhosa lambança.

JGR, ao que parece, também tomou conhecimento delas, das borboletas:

De qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de duas folhas, saíam em giro as todas as cores de borboletas. Como não se viu, aqui se vê. Porque, nos gerais, a mesma raça de borboletas, que em outras partes é trivial regular ― cá cresce, vira muito maior, e com mais brilho, se sabe; acho que é do seco do ar, do limpo, desta luz enorme.

Nosso ponto de chegada também chamou a atenção do Rosa, que fala da formosa cidade de São Francisco ― que é a que o Rio olha com melhor amor. E ela, de fato, impressiona bem, com suas ruas largas, boa arborização, comércio pujante, agência do Banco do Brasil, Igreja Universal ou similar e coisas mais, ditas civilizadas, que as pessoas que vivem no litoral e nos grandes centros por vezes julgam inimagináveis, mas que existem por lá.

Curiosidade um tanto duvidosa, todavia: em tal cidade vi, e muito me espantei, uma farmácia que fazia promoção de medicamentos, colocando-os em gôndolas, como numa feira livre, bem junto às portas da rua, com reclames do tipo leve 5 e pague 4. É o Brasil, para o bem e para o mal.

Em SF o rio está próximo, sendo mais visível da cidade do que em Januária. A travessia para o lado de lá, margem esquerda, se faz através de balsa, tendo como ponto de chegada uma cidade cujo nome é quase uma piada pronta: Pintópolis (você leu corretamente!). Tal embarcação não tem pontos de parada fixos, pois isso depende dos humores do rio, entre suas cheias e vazantes. De toda forma, em passagem anterior por ali, anotei os dizeres de uma gentil plaquinha à beira do rio, visando orientar os eventuais usuários perdidos: balça segui abaxo. Deu pra entender?

Além do rio, das lagoas das vargens e do horizonte amplo, há algo que merece nossa atenção em São Francisco: um restaurante de formato hexagonal a beira rio, de possível nome Peixe-Vivo, especializado em peixe (talvez o já proverbial tucunaré…), mas justiça seja feita, onde comi o melhor feijão tropeiro que até então tinha experimentado em minha vida. Tomara que ainda esteja por lá…

E não custa nada observar no sertão circundante à cidade a impressionante presença de pequizeiros, numa concentração que não se vê por aqui no Planalto. A época da florada, no segundo semestre, é um espetáculo grandioso. Detalhe sobre o qual não tenho maiores explicações técnico-botânicas é sobre a cor de suas flores, que aqui nos arredores de Brasília são brancas e lá são amareladas.

E falar em pequi, assunto delicado nessas bandas, capaz até de provocar brios nacionalistas, principalmente com os goianos, é de se indagar: para um bom prato de arroz com pequi, qual o comporia melhor, o daqui ou o de lá?

Para terminar esta etapa deixemos, mais uma vez, o Rosa falar:

Milho crescia em roças, sabiá deu cria, gameleira pingou frutinhas, o pequi amadurecia no pequizeiro e a cair no chão, veio veranico, pitanga e caju nos campos.

  • Voltar ou seguir em frente?

Que estávamos já voltando descendo do ponto do alto, o vento bobeando na cara da gente ― e bela-vista adiante, muito descrita. Caminhando, mesmo, a gente tinha enrolado cigarros, que não estava sendo azado de acender, por via do encano do ar, que ventainhava. Esbarramos.

Aqui esbarramos, talvez provisoriamente. O que há mais adiante? Ou seria mesmo hora de voltar? Há variados destinos possíveis, todos dentro da franquia GSV.

Podemos seguir pela estrada ribeirinha, não asfaltada, mas bastante confiável, para alcançarmos primeiro São Romão, antiga Vila Risonha. Como consta do livro, é o lugar onde um dia aportou um vapor com tropas do governo, para dar combate à jagunçagem. Depois Pirapora. De ponta a ponta serão cerca de 150 ou 200 km, ou seja, talvez isso exija mais tempo e disposição.

São Romão não tem maior interesse, a não ser pela nova travessia do Urucuia, agora de balsa, junto à sua foz no Grande Chico. Mas Pirapora tem seu encanto e também suas surpresas.

De bom, uma cidade muito bem traçada, arborizada, uma espécie de capital regional. Nas suas proximidades, ou seja, na já citada Guararavacã do Guaicuí (que manteve nos dias de hoje apenas esta última designação), está o lugar onde Riobaldo e Diadorim, até então conhecido como Reinaldo, um dia se reencontraram. Ali existe uma fantasmagórica catedral, sim, uma igreja inacabada, só em ruínas, sem telhado, sem portas ou janelas, onde uma enorme gameleira lança raízes pela parede do fundo, fazendo as vezes de altar. Reza a lenda que foi mandada construir em meados do século 17 pelo bandeirante Fernão Dias, para expiação do pecado de ter mandado matar o próprio filho, tendo ele próprio falecido ali, atacado pelas febres que fizeram daquele lugar um sítio meio maldito. Apesar disso, tal lugar teve um significado afetivo forte para o narrador Riobaldo, pelo reencontro tão especial que teve por lá: Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada.   

De ruim, a ponte ferroviária (que poderia ter sido ótima…) que atravessa o rio, mas nunca foi utilizada por trem de ferro, fruto que é da cultura de descuido com o planejamento e com o cuidado da coisa pública que domina não só as duas bandas do Chico, mas todo o nosso país em geral. Da mesma forma, em total abandono, todo um conjunto de sólidas construções, que incluem escritórios, oficinas e residências, que um dia fizeram parte do acervo da antiga EFCB-Estrada de Ferro Central do Brasil. O vapor Benjamim Guimarães, último remanescente da navegação ribeirinha, que ligava Pirapora aos sertões da Bahia, permaneceu encalhado e igualmente abandonado por décadas, na beira do rio. Agora estão dizendo que vai ser recuperado e voltará a navegar. Devo dizer que, de minha parte, isso não me anima muito, pois já conheço este tipo de “recuperação”: o barco voltará ao rio apenas para perfazer rodeios curtos, quase domésticos, desonrosos para quem já viajou tanto, não mais como transporte de interesse geral, mas agora como atrativo turístico, a preços euro-dolarizados, com certeza.

Pobre país…

No tradicional restaurante Egnaldo’s (isso mesmo!) – espero que ele ainda exista por lá – comi certa vez o melhor surubim de minha vida. Auguro que não tenha sido substituído, em tempos recentes, pelo indefectível tucunaré.

Pirapora, a cidade, também está lá, no livro:

Você tem receio, Riobaldo? ― Diadorim me perguntou. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava, até na prancha de Pirapora! ― Vau do mundo é a coragem… ― eu disse.

Em Pirapora se abre uma porta essencial no GSV. Do outro lado do rio, em se atravessando a ponte esquecida, está o município de Buritizeiro e, em seu território, a vila do Paredão, tendo por cercanias o território do Tamanduá-Tão. E daí? Foi ali mesmo nessas paragens que se deu a culminância dessa história épica. É o próprio Rosa que vai nos explicar:

O diabo na rua, no meio do redemunho… Sangue. Cortavam toucinho debaixo de couro humano, esfaqueavam carnes. Vi camisa de baetilha, e vi as costas de homem remando, no caminho para o chão, como corpo de porco sapecado e rapado… Sofri rezar, e não podia, num cambaleio. Ao ferreio, as facas, vermelhas, no embrulhável. A faca a faca, eles se cortaram até os suspensórios. … O diabo na rua, no meio do redemunho… Assim, ah ― mirei e vi ― o claro claramente! Aí Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes… Ah, cravou ― no vão ― e ressurtiu o alto esguicho de sangue! porfiou para bem matar! Soluço que não pude, mar que eu queria um socorro de rezar uma palavra que fosse, bradada ou em muda; e secou! e só orvalhou em mim, por prestígios do arrebatado no momento, foi poder imaginar a minha Nossa-Senhora assentada no meio da igreja… Gole de consolo… Como lá em baixo era fel de morte, sem perdão nenhum. Que enguli vivo. Gemidos de todo ódio. Os urros… Como, de repente, não vi mais Diadorim! […] Diadorim tinha morrido ― mil-vezes-mente ― para sempre de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejaram.

Pausa para respirar…

Mais adiante de Pirapora, uns 80 km em direção a BH, está a cidade de Lassance, os gerais de Lassance, segundo o livro, antiga estação ferroviária, onde Diadorim foi criado. Curiosidade, que talvez interesse a alguém: em tal sitio foi diagnosticado de forma cabal, por Carlos Chagas, o primeiro caso da doença que leva seu nome.

A partir de Pirapora, ou mesmo de Januária, se pode ir, em boa estrada asfaltada, até Montes Claros, citada de passagem no GSV como um temido lugar-sede de cadeia. É uma cidade meio rica e meio pobre, meio grande e meio média, meio feia e meio bonita. Mas sem dúvida um grande centro regional de cultura, educação, saúde e agronegócio, com uma bela paisagem circunjacente de montanhas, a disputar com o Goiás a primazia do melhor arroz com pequi e com o Nordeste o sabor da melhor carne de sol.

Pra frente de Montes Claros está outra incontestável joia rosiana: Itacambira, o lugar de nascimento de Diadorim. Ali, depois da morte do(a) amigo(a), Riobaldo faz uma lúgubre descoberta:

Este papel, que eu trouxe ― batistério. Da matriz de Itacambira, onde tem tantos mortos enterrados. Lá ela foi levada à pia. Lá registrada, assim. Em um 11 de setembro da era de 1800 e tantos… O senhor lê. De Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins ― que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor… Reze o senhor por essa minha alma. O senhor acha que a vida é tristonha?

A tal igreja ainda está lá.

E com as mesmas palavras de Riobaldo posso muito bem encerrar estes relatos: E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.

Nonada! Nada é melhor do que andar bem acompanhado. Este homem humano aqui agradece a honra de o terem seguido nessa travessia.

***

Uma proposta de cronologia de viagem

DIALOCAIS
01Brasília – Cabeceiras – Buritis – Arinos – Chapada Gaúcha
02Parque Nacional do Grande Sertão Veredas
03Vão do Buraco – Serra das Araras – Pandeiros – Januária
04Peruaçu
05Januária – São Francisco
06Retorno a Brasília

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